Tinha transitado fortemente entre humor depressivo e euforia. Oscilado? Vou ficar com "transitado", para deixar mais amplo na interpretação. Às vezes bons dias, às vezes maus dias. Tinha chegado a acreditar que estava numa espiral de depressão de verdade e duvidei da minha capacidade de lidar com os meus problemas e com as minhas emoções. Senti medo, principalmente de voltar à fase aguda, que remetia lá a 2021, 2022.
Neste fim de semana comecei a suspeitar que não, porque não lembro exatamente como era estar no fundo do poço. E isso é bom. Eu só sei que era um sentimento desolador, de estagnação profunda. E eu não estou assim agora; estou mais lento, verdade, ainda não voltei ao ritmo que sei que consigo. Mas para que também essa pressa, essa urgência, essa performance toda? Se a vida é só minha, estou competindo com quem? Pour un dernier frisson, ou pour un dernier geste (Carla Bruni).
Reparei que tenho sido bem funcional, até. Tenho feito planos, tenho executado alguns; não fazia isso quando estava com depressão. Sentei para escrever pensando que tenho sido esperançoso quanto a um futuro melhor, que vem logo mais aí. Pausa. Começou a tocar Chico Buarque: "E que venho até remoçando, me pego cantando, sem mais nem porquê...". Voltei à concentração lembrando que tive vontade de retomar a natação. Não liguei ainda lá porque sou preguiçoso, mas é tão perto de casa, no bairro ao lado, que talvez fosse bom.
Na semana passada revisei dois artigos e os enviei para eventos que acontecerão em breve. E no fim do mês saem os anais de um evento onde está publicado um novo resumo meu. Fiquei orgulhoso do resultado desses trabalhos. Tenho escrito minha qualificação e avaliado se é melhor ir a campo ou tirar uns 30 dias de férias. Férias mesmo, em janeiro: o sol ardendo na pele e o mar. Outro dia fui acometido por um sentimento e por uma frase que me saltou à mente, "eu tenho muito orgulho de mim", e até a anotei aqui na lousa. E é difícil eu comemorar as pequenas vitórias; comemorei estas. Só tenho o costume de comemorar as grandes e monumentais vitórias, para logo em seguida a emoção cair e eu achar que tanto faz; o próximo passo merece logo ser perseguido.
Tenho me permitido fazer as coisas no meu tempo: mais lento, mas funcional. Tenho gostado de andar pelo meu apartamento. Gosto de olhar as minhas coisas, de sentir o alívio que elas me trazem. Era tudo tão distante; eu dizia "quando eu vencer…" e nem reparei quando venci. A gente tem todo esse imaginário de que o dia em que vencer será extraordinário, as pessoas estarão ao redor para estourar um champanhe, haverá palmas, uma festa bonita, e a verdade é que a vitória passa por um dia comum. Foi mais um dia comum e eu não percebi. E foram vários dias comuns na minha vida, sucessivamente. Um amontoado de dias bons que eu não valorizei me trouxe até aqui, até este apartamento, sozinho, realizado e bem.
Não tenho notado o espaço entre as coisas; tem ficado tudo, cada coisa, exatamente onde deveria estar. Isso me traz calma, me traz alívio. Não consigo pôr em palavras a intensidade da graça que é levantar, fazer um café, voltar para o meu escritório e estudar com calma, em silêncio. São tantas microssensações que esbarram na única definição possível: seguro. Eu finalmente estou seguro. E é difícil explicar o quanto isso me deixa feliz e me agrada. A completude, talvez por isso: bastar.
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