Lavando a louça com fones de ouvido ligados bem alto em qualquer playlist aleatória para não ter que escolher. Sempre enrolo o máximo que posso ao lavar louça porque é um trabalho mecânico e não exige pensar demais. E faço isso por pura enganação, porque é quando mais reflito.
Lembrei que Papai me avisara mais cedo que estava voltando a Manaus porque precisava resolver um problema que tinha aparecido em cima da hora. Imaginei o que teria que responder quando ele perguntasse “Cadê o rapaz lá?”. Papai tem sido generoso depois de todos esses anos distantes. Segura os próprios preconceitos para mostrar interesse no que é importante pra mim. “Não deu certo, pai”. E não saberia o que mais falar para evitar dizer algo que me deixasse com a alma desnuda ali na frente dele. Nunca fomos de conversar sobre sentimentos ou sobre nossas vulnerabilidades. Não saberia prever o resultado agora.
Escorreu uma lágrima pequena pela borda de um dos olhos e ignorei. Não quis dar margem agora a uma saudade batida ou à imaginação de como teria sido uma última conversa. “Nós somos pessoas boas, pena que não funcionou. Gosto de você; é realmente uma pena eu não ter condições de seguir. Acho até um pouco cômico terminar pelo motivo que eu aceitei e sustentei durante todos esses meses…”.
E mesmo não querendo remexer em algo já revirado, quando percebi, já era tarde. Desliguei a água da torneira, que eu já encarava aberta havia não sei quanto tempo. Por um pequeno momento tentei não me render; foi mais forte. Comecei a chorar e a soluçar até ficar sem forças e ser obrigado a me sentar ali, no meio da cozinha, enquanto as lágrimas saltavam como suicidas já sem talento.
Me lamentei porque queria mesmo uma família. A minha família. Tenho fantasiado há anos com a ideia de ser o chefe de família, de encontrar meu marido na hora do almoço, apressadíssimos, para comer juntos e contar como foi a manhã no trabalho; de lhe dizer que senti sua falta, que escrevi um pequeno coração com seu nome enquanto anotava coisas do trabalho.
Tenho visto minha habilidade de construir e materializar esse desejo se esvair pelo ralo. Não restou nada, de novo. Murmurei palavras que queria ter dito ao olhar para as duas cadeiras da mesa da cozinha; a lembrança dele e de mim sentados ali conversando sobre alguma besteira.
Inevitavelmente acabei me cansando de chorar e achei tudo muito luxuoso e confortável: estar assim sentado no chão da cozinha, podendo chorar sossegado até ficar entediado. O que significa que, de algum modo, eu construí a estrutura, e isso já é um grande passo. Pensei em ligar para o meu irmão nessa nova crise de choro, mas não tinha sobrado muito para esvaziar.
E a louça não podia amanhecer ali ensaboada, não faria sentido, e amanhã cedo eu tenho dois compromissos importantes. Lavei, guardei e sacudi a poeira. Me arrastei até a cama e estou me obrigando a dormir porque a dor é real, mas ainda existe o amanhã, e eu já sou crescidinho.