E muito disso passa pela sua falta de autoconhecimento. Você é muito homofóbico e não percebe. Além de não ter crescido com reflexo do que é amor, você não sabe o que é amor entre gays. Você está sempre se espelhando no homem maduro, viril, casado com mulher, heterossexual, com traços hipermasculinos. É ali que reside o seu desejo, e eu não posso competir com isso. E nem quero. Eu me orgulho de ser gay. Eu já tive muitos problemas com a minha sexualidade; hoje não mais. Eu não posso ser o outro e, portanto, trabalho para ser feliz como eu mesmo sou.
Eu me reconheço em mim. Eu sei demais quem eu sou. Eu sou um homem sem traços muito masculinos, adoro poder rir alto, gargalhar espontaneamente quando vem a vontade. Não para incomodar outra pessoa, porque eu sei ser educado, mas para saber que não escondo meu riso com medo da repressão de um sistema podre que já nasceu nos querendo mortos. Eu amo amar outros homens. E quero amar mesmo, sem restrições. Não quero esconder isso. Não quero performar nada, quero ser eu; tenho lutado a vida inteira pelo direito de ser somente isso: eu. Que sou o único no mundo e me mostro no espaço.
Não alimentaria desejo por uma fantasia que anula qualquer possibilidade de ser amado. Um homem que se relaciona sexualmente com outro homem é, essencialmente, um homem cujo desejo reside no outro; logo, é bem fácil entender que heterossexual ele não é. E, aliás, a última vez que eu chequei no dicionário, era exatamente esse o significado de homossexual. Ou estão chamando de outra coisa agora? Porque aqui não é Ministério da Saúde pra tá chamando de homens que se relacionam com homens. Pra mim é viado mesmo. Viado no sentido de empoderamento, de pegar o xingamento deles e devolver com força.
Sei lá, não sei como funciona para você; também tenho fantasias, mas fantasias com Papai Noel e gnomo não estão no meu repertório. O hétero másculo desse desejo é criatura do mesmo tipo, algo que se pode fantasiar, mas não existe. Não gosto de alimentar fantasias que me impeçam de amar verdadeiramente. Talvez o problema seja mais tentar forçar essa fantasia a caber na vida real. Você alimenta essa compulsão que te exclui de qualquer oportunidade de ser amado. Porque um cara casado "heterossexual" pode te usar como objeto de satisfação momentânea, mas ele jamais vai querer vínculo com você. E eu não compactuo com esse tipo de fantasia em que a satisfação sexual depende do ódio do outro, de só encontrar satisfação quando depende da minha imobilização na cama, da pessoa não me olhar nos olhos, de não ter afeto, não ter sequer um beijo, um cheiro, um toque generoso, repulsa a céu aberto, em que um homem te domina e te usa, mas não pode existir vínculo nenhum, e a falta de vínculo alimenta o ódio que circula por aí.
Isso não é coerente com a vontade de viver. Você não lembra das inúmeras vezes que já pegou alguma IST nesse contexto? E da vez que o teu desejo de chupar um hétero te fez acabar ficando todo amarrado preso dentro de casa enquanto ele roubava tudo? Você não respeita o trabalho duro de quem te dá segurança no seu lar? Da minha parte, quero viver. Bem e melhor. E o seu objetivo de vida é ser visto por todos, e eu quero ser visto e desejado de verdade. Por outro homem que saiba me amar, e não um que se esconda para realizar um desejo totalmente excludente. São aqueles mesmos pra quem o Cazuza cantava "como insetos em volta da lâmpada...", ele com mais elegância, com piedade.
Você associa a nossa sexualidade a sexo sem vínculo. E fantasia sobre como seria um relacionamento ideal, alimentado por um imaginário centrado nos héteros, e se fixa idealizado na união entre homem e mulher. Ao passo que o desejo erótico vai em direção a outros homens. Percebe a cisão interna? Com o romance apontando para um lado, e o desejo para o outro. E esse é o maior obstáculo para você finalmente conseguir intimidade amorosa profunda. Você ainda enxerga a homoafetividade como um conjunto de práticas sexuais, não conjugais nem afetivas. Uma prática ou um estilo de vida em que o sexo é o principal vetor, talvez até o único. Você percebe que o seu desejo pelo anonimato com o hétero casado só reforça aquele discurso homofóbico do "o que eles fazem na cama não me interessa, é problema deles"? Para que diabos então você me chama de marido? É apenas parte de um dos seus delírios eróticos? Porque te digo em verdade que não posso viver nesse modelo em que separaram completamente o afeto do desejo.
A homofobia é um problema externo, mas ela impregna o interior das nossas relações dentro da comunidade. Porque veja, se cada parceiro seu tinha um defeito diferente, mas você sempre seguiu focado nesse desejo sendo satisfeito pelo hétero casado, que diabos você espera encontrar em um gay assumido? Não fique chateado quando eu digo que você é o problema e os seus truques velhos não funcionam mais. Mas te encorajo a continuar; sem gays como você, o cine estaria vazio. E banheirão seria demodê.
Eu sei, eu sei, até aqui eu só foquei no problema e não ensinei como mudar. Eu sei exatamente o caminho que se faz para mudar tudo isso e ser amado de verdade. Só que na minha vez também não me ensinaram a viver. Para aprender a gente não pode tá convicto de nada. E pra quebrar essa tua convicção só vontade própria de se entregar pra terapia. E ademais, eu não vim aqui para ensinar uma pessoa totalmente alucinada e perdida; eu vim efetivamente pronto para amar.
Que pena que não pode ser você. Que pena que para você só reste a indiferença dos héteros e três minutos de sexo meia bomba com algum caído a cada sei lá. De quanto em quanto tempo você consegue realizar essa fantasia? Ela está sempre latente, né? Mas você consegue todo dia um hétero diferente igual nos seus sonhos para realizá-la? Cá entre nós, como é ser assim? Eu nem posso imaginar sofrer tanto segurando um desejo que se realiza uma vez por mês? Que custa dinheiro ir atrás? Que depende da coincidência? Me fala, vale a pena esse abismo de solidão para ser fiel a esse desejo? Nah. Eu gosto de sexo mesmo. E gosto de previsibilidade. Ah, segurança e clareza também. Então sinceramente eu não posso ter na minha casa um gay que me trai e trai a todos os outros gays bem resolvidos com a droga de uma fantasia. Dégage Adèle!
Você não sabe amar; acha que não merece amar ou ser amado. Por isso continua voltando para a única lógica em que você consegue receber também alguma desimportância: no escuro, no silêncio, na transgressão. E isso está muito distante do que eu quero para mim. Eu quero que alguém me olhe com desejo, amor e afeto. Seria um plus que me dissesse algumas frases de Sartre durante o jantar também. E não quero para encomendar; quero para hoje, porque eu fiz um trabalho muito grande em mim todos esses anos para não ter que viver de uma esperança que não se ancora na realidade. Say my name!