sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Exclusividade

Um café movimentado no fim da tarde. Cheiro de grãos torrados e leite vaporizando. Louça tilintando ao fundo, o zunido baixo da máquina de espresso. PEDRO já está sentado a uma mesa de canto, girando a colher dentro de um café que esfria. DAN entra, tira o casaco, senta-se de frente, animado.

  • Oi, amor. Como você está? Me fala como foi o dia. (puxa a cadeira, já se acomodando como quem tem tempo de sobra)
  • Foi bom, bem. Aquele cliente que comprou o carro para a mulher chata foi lá reclamar que o teto solar não abre todo.
  • Casalzinho chato, hein. Eles não fizeram o teste drive? (ri, batendo de leve na mesa)
  • Então!
  • Nossa, viu. Mas e aí?
  • Ah, daí mandei reclamar com o gerente que eu não faço pós-venda.
  • (ri) Você sempre sendo podre.
  • E o seu?
  • Estou odiando essa disciplina. A porra do professor nem é da área e colocam o desgraçado para ministrar. (revira os olhos, mexendo o café sem beber)
  • Por que você não cancela?
  • Já passou do período dessa merda.
  • Ah, faz. Se livra.
  • É, pelo menos termino os créditos de uma vez.
  • Pois é.
  • Então, estava pensando da gente pegar um motelzinho com aquele casal do insta. (se inclina para frente, cotovelos na mesa, sorriso já pronto)
  • Quem?
  • Aquele urso e a bichinha.
  • Ah, urso é a sua parada, não é.
  • Mas você fica com a bichinha. Olha, dizem que ela faz uma gulosa, viu. (pisca)
  • Não estou muito na vibe. (olha para a xícara, não para ele)
  • Como assim não está? Você adora fazer a três comigo.
  • Então, eu gosto de estar com você.
  • Iiih, que baixo astral é esse? Sai dessa, vida. Esse lance do carro seu gerente resolve, vamos relaxar hoje. (estica a mão sobre a mesa, tenta pegar a mão dele)
  • A gente já relaxou duas vezes essa semana.
  • E quem não gosta de relaxar? Hein, bora. (insiste, dedos roçando os dele)
  • Na verdade eu marquei de ir tomar um drink com um colega de trabalho.
  • Mas sem me avisar? (recolhe a mão, se ajeita na cadeira)
  • Foi literalmente agora na saída, vim aqui porque a gente marcou de se ver antes da sua próxima aula.
  • Tá, então cancela, adia. Eu falto aula e vamos para o motel só nós dois, que tal?
  • Eu não quero ir para o motel, eu quero um pouco de atenção hoje. De conversar. (finalmente encara ele)
  • Para com essa baixa vibração! Conversar é papo de otário, vamos gozar! (ri, tenta transformar em piada)
  • Eu tenho me sentido muito sozinho.
  • Amor, a gente literalmente vive cercado de amigos, família…
  • Pois é, e mesmo assim eu estou me sentindo sozinho.
  • Mas o que é — (se corrige, irritado) — Que saco, eu estou tentando ficar com você e você está reclamando de solidão? Você quer brigar? Isso é mais um dos seus motivos para estragar o rolê? Quer briga, então briga, vai, chato. Nossa! (bate a mão na mesa, louça treme)
  • (silêncio. Pedro olha para a rua através do vidro embaçado)
  • Desculpa, fala o que foi. (voz mais baixa, mas ainda impaciente)
  • Essa é a parada. A gente nunca está só. Parece que a gente odeia o silêncio, a calmaria. Precisa estar sempre correndo atrás da excitação. Os nossos amigos têm sido para preencher um vazio que não se preenche quando estamos sós.
  • Meu Deus, você adora os nossos amigos! Por que isso agora?
  • Eu adoro, mas gostava mais de ficar só com você. E a nossa vida foi caminhando para estar sempre rodeada de gente. No começo eu achava legal, achava que você estava me inserindo na sua rotina, na sua vida. Mas agora com esse relacionamento aberto, eu tenho sentido saudade de me sentir visto.
  • Vida, a gente passa o dia inteiro conversando, a gente sabe tudo um sobre o outro.
  • E ainda assim eu sinto que você não me conhece. Tudo tem partido de alguma demanda nossa, não só minha. Não tem nada íntimo meu que você realmente tenha participado.
  • Tá, então me fala algo seu íntimo que eu precise saber. (cruza os braços, quase um desafio)
  • Eu conheci um cara.
  • Tá, traz ele para jantar lá em casa e a gente fica com ele. (resposta imediata, automática — nem pisca)
  • Não é desse jeito.
  • Qual então? Qual é a dele?
  • Nada demais. Ele é gracioso.
  • Gracioso? (engasga com o riso) Que porra é essa? Desde quando gracioso começou a ser usado no nosso vocabulário de putaria?
  • Dan, tenta entender o que eu estou dizendo.
  • Pedro, fala de uma vez o que você quer, saco velho.
  • Olha. Eu tenho sentido falta de exclusividade. De alguém me olhar e desejar somente a mim. De me sentir especial. E nem comece dizendo que eu sou especial. Eu e mais vinte, não é?
  • Pode parar por aí. Você está traindo o nosso acordo que era não se apegar. Chupa ele e se manda.
  • Eu não chupei ele.
  • Então chupa, ué. Chupa, mata essa vontade e já bloqueia porque você já tá me crisando, não gostei dessa fantasia. (mexe a colher com força, café respinga na mesa)
  • Não é fantasia.
  • Como assim? Quem é esse cara? O que ele tem?
  • Eu gosto da atenção dele. É isso. Ele gosta de ouvir o que eu digo. Ele tem um riso fácil. Não sei descrever, tem um mês que ele entrou na concessionária. O gerente me colocou para treinar ele e a gente tem passado muito tempo juntos.
  • Você sabe que isso é traição, não é? A gente já conversou sobre isso.
  • Eu não estou traindo nada.
  • Claro que está, você está apaixonado, caralho! (voz sobe, alguém na mesa ao lado olha de relance)
  • Eu estou interessado nele. Ponto.
  • E você não vai mais ficar com ele, eu não deixo.
  • Eu não vim pedir autorização, Dan, eu vim te comunicar.
  • Caralho, como é que eu vou assistir aula depois dessa? Você vindo me dizer que está apaixonado pelo cara com quem vai tomar um drink? Eu não quero que você fique com ele, está decidido. E vamos embora para casa, que eu já me encaralhei.
  • Não.
  • Não o quê, porra?
  • Não vamos. Eu não vou para casa. Eu vou encontrar o Gustavo.
  • Gustavo, o nome da puta? (ri sem graça, um riso que já não convence nem ele mesmo)
  • Dan!
  • Como você quer que eu fique?
  • Não dá mais para mim esse tipo de acordo.
  • Não dá porque é você quem está quebrando, não é? Muito conveniente!
  • Eu entrei nesse acordo porque eu queria te agradar e eu não estou feliz nele.
  • Justamente quando conhece outro “gracioso”? Vai dizer mais o quê? Que ele é diáfano?
  • (ri, contido, apesar de tudo) Tem isso também.
  • Para, porra! (mas o canto da boca também cede, por um segundo, antes de fechar de novo)
  • Sério, Dan. Não dá mais. Esse lance, nós dois. Eu estou cansado dessa roleta russa de emoções.
  • Você está terminando comigo por causa de um cara que acabou de conhecer? Nós ficamos com vários caras e eu nunca troquei a nossa exclusividade afetiva.
  • Isso é exatamente trocar a nossa exclusividade. Você não me quer, e também não consegue elaborar isso. Por isso quer que eu esteja nessa fantasia de ter todo mundo. Quem tem tudo não tem nada.
  • E agora eu fico sem você também? (a voz falha, ele desvia o olhar para a janela)
  • A gente nunca foi tão assim um do outro, não é?
  • Mas eu te amo, você sabe disso.
  • Não acho que seja bem amor a palavra. Mas ainda fico feliz que você consiga organizar dessa forma dentro de você. Eu te amo, mas não desse jeito.
  • Cara, não faz isso. Não destrói a nossa história. O sexo com esse cara pode nem ser bom do jeito que você está idealizando. Vai, toma seu drink, você não está pensando direito. Fica com ele e vai para casa depois, eu peço pizza, a gente assiste o filme da Bridget Jones que você gosta e dorme agarrado.
  • Viu? É isso. Você já fez o plano inteiro sem me comunicar, sem perguntar o que eu quero.
  • Mas você gosta de Bridget Jones, não sou eu quem gosta! Eu estou abrindo mão de todos os meus planos para assistir o filme que você gosta!
  • Que eu já assisti sozinho, não é?
  • Como assim? E nem me chamou?
  • Você nunca está na vibe para fazer isso comigo.
  • Poxa, vida, não faz assim.
  • Eu tenho sentido falta de mim mesmo. Tenho sentido falta de ser incluído nas decisões.
  • Literalmente eu pago por tudo que você quer.
  • Eu não preciso que você pague porque tem mais dinheiro. Eu precisava me sentir escolhido. E dinheiro não compra essa sensação. Dinheiro não compra essa exclusividade, isso teria que partir de você realmente querer.
  • Então a gente é monogâmico agora, não tem mais ninguém. Pronto. (tenta segurar a mão dele de novo, com mais força dessa vez)
  • Você não ia conseguir.
  • Eu consigo, eu te mostro, prometo.
  • Se você quisesse isso teria feito desde o começo, não é? Mas nunca foi sobre mim, sempre foi sobre satisfazer o seu desejo.
  • Porra, para de me atacar! Parece que eu sou um monstro. (solta a mão dele, se recosta, ferido)
  • Você não é. Você é uma pessoa bonita, nós só não temos a mesma visão de futuro.
  • O meu futuro sempre foi com você.
  • O meu futuro era você. Até eu perceber que você tem me carregado junto com você. Mas não como seu parceiro.
  • Por favor, gostoso. (a última tentativa, quase automática, sem convicção)
  • Eu preciso ir. Sério. (pega a mochila, os dedos já tremendo um pouco)
  • No meio da discussão que você começou?
  • Você quer dizer mais alguma coisa que não foi dita até agora?
  • Não, eu não me preparei para uma conversa dessa.
  • Justo. Não tem mesmo como sair limpo dessa. Eu te adoro, você é meu melhor amigo. Mas eu realmente preciso disso.
  • E como a gente fica? Suas coisas? Você mora comigo!
  • Isso a gente decide durante a semana, não vou dormir em casa hoje. Eu só preciso muito fazer algo por mim.
  • Mas desse jeito?
  • Sim, eu só quero a minha autonomia de volta. E isso não inclui esse relacionamento.

Pedro se levanta. Um sino toca na porta do café — não é ele saindo. É o casal do Instagram entrando: sorridentes, já procurando a mesa com os olhos. Dan os avista primeiro e acena, um reflexo, um sorriso automático que treme antes de se firmar no rosto. Ele já sabia. Estava tudo marcado antes mesmo dessa conversa começar. Pedro observa a cena — o casal se aproximando, Dan se recompondo para recebê-los como se nada tivesse acontecido — e por um instante os dois mundos coexistem: o que acabou de morrer na mesa e o que já estava, o tempo todo, programado para continuar sem ele.

Pedro coloca a mochila nas costas. Passa pelo casal sem dizer nada. A porta bate atrás dele, o sino ainda balançando.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

Senta aqui, amigão

Sabe quando alguém pega um cachorro da rua e traz pra casa? Antes ele estava ali nas ruas, talvez tenha se familiarizado com o caos de alguma feira onde pelo menos encontrava os rejeitos, as sobras, o que ninguém quis, o que lhe fora dado por alguma clemência ou súplica, não chegava sequer a ser empatia. A feira se desfaz no fim do dia, ele ficava ali no relento, desprotegido, mas era o único lugar de sobrevivência onde ele conhecia para voltar. Ninguém via beleza nele, ninguém sequer o via. E ele usava dessa falta de atenção também como proteção. Sempre nas sombras, fugindo de ser notado. Então ele chega num lar, estranha o cheiro, vem por alguma promessa de ter sua necessidade de primeira ordem atendida. Já cansado, tão maltratado, um espaço fechado e de segurança não é reconhecível. Dá banho, comida, uma cama quentinha, carinho e uma coleira. No começo ele se espanta, acha que foi capturado. Fica acoado, esperando para atacar. Às vezes late por reflexo; sua memória é cheia de medo. Ainda vai à grade algumas vezes olhar a rua e fica dividido entre tentar fugir e dar uma chance ao novo. Daí você passa a mão na cabeça dele e ele não sabe o que sentir. Você passa a mão de novo e de novo. E ele sente que aquilo não é agressão. É simplesmente algo não sentido antes. E permite por estar em dúvida sobre o que significa; ainda sem entender ou retribuir. Até porque talvez uma mão em sua cabeça não tenha sido interpretada como carinho, mas como a lembrança da última vez que tentaram se aproximar dele para fazer o mal. Daí você dá comida, que é algo que ele sabe o que é e sempre foi uma necessidade. Você brinca e coloca um apelido carinhoso. Aos poucos ele percebe que não recebe mais chutes igual na rua. E ele chega perto para receber de novo o carinho passando pela cabeça dele. As orelhas abaixam. Os olhos ficam brilhando. E você para por um pouco. Continua vivendo sua vida e conversando com o cachorro com voz calma. Pergunta como foi o dia dele, que lembrou dele durante o trabalho e diz que sentiu saudades. Ele ainda sabe do trauma dele, mas percebe que você é diferente da maioria que passou por ele. Ele não sente mais necessidade de ficar alerta o tempo inteiro. Ele não rouba comida e sai correndo. Ele vai percebendo que vai ter sempre suas necessidades atendidas. E então ele consegue relaxar e dormir em segurança ao seu lado. Ele vai ficando calmo, brando. Dali a pouco ele já se joga no chão e mostra a barriga, desprotege os órgãos vitais porque você não é mais lido como ameaça à vida dele. Não gritam mais com ele. Ele não se espanta e corre ao perceber que alguém vem fazer mal a ele. Você chama ele em voz alta e ativa instantaneamente a felicidade nele em te ouvir. E ele aceita uma coleira. Ele se alegra agora de ser guiado, de sair na rua novamente porque é com você. Não é controle; ele antes não era de ninguém e agora é de alguém. Ele sabe que tem um vínculo com você. Finalmente ele pertence. Você está guiando, mas ele sabe que é por proteção. E aí ele não foge mais. Ele fica, entende o cuidado e o afeto. E retribui. Sempre esteve ali. Só nunca tinha sido ativado porque não tinha a pessoa certa para estimular. E às vezes tudo o que a gente precisa é disso: um pouco de paciência e amor. E quem decide cuidar também se transforma, aprende. Porque não há garantias, mas o amor, mesmo quando adormecido, floresce nos lugares mais improváveis. Esse é o nosso imperativo biológico.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Falta entender o porquê

Me apaixono sempre pelos mesmos meninos que já me rejeitaram.

Não diria que dói elaborar isso. Dói na primeira vez, aparece logo em seguida um sentimento de melancolia e fuga pra não encarar a podridão. Da segunda vez em diante já beira o sem-vergonhismo. Já passa a ser uma mistura de luxúria e masoquismo.

E se tornou isso: o fugitivo e o masoquista. Você quer algo maior que eu e eu queria o que é maior do que a minha dor pode alcançar. É essa busca por aquele rostinho lânguido, jovem, com pitada de ingenuidade e palhaçadinha. E fica o vazio do papo, da presença e da postura.

Acabo me contentando com a reciprocidade de fachada e vou antecipando prontamente qualquer frustração. Qualquer pedaço que se desprenda da minha ilusão já denuncia a rachadura na minha autoestima. E fujo, fecho, corto. Para logo em seguida dar tempo e espaço a um novo corpo; igual.

Lembrei do primeiro menino que beijei. Não significou nada. Nadinha. Passo a dar significado agora para acomodar e encontrar o espaço do quebra-cabeça da queixa-crime que registro contra mim mesmo.

E quando digo que não significou nada foi pela falta de qualquer referência histórica ou pela inabilidade de referenciar a minha própria existência no mundo — em uma adolescência totalmente porra-louca jogada no centro de Manaus — não marcou nada. Só uso aqui como o próprio ponto de partida pra explicar que senti pela primeira vez a mistura de excitação e ansiedade de querer ser visto, de pedir pra ser escolhido.

Beijei um “hétero” numa festinha de adolescentes organizada na casa de uma colega de escola. Iago? Ítalo? Acho que era Igor? Não lembro o nome dele. Lembrei por sorte do da Karina porque já se vão 20 anos dessa brincadeira. Não lembro muito dos detalhes, só lembro da Karina dizendo que ele não prestava e beijava todo mundo. E pela primeira vez eu desejei ser todo mundo.

E ele beijava mesmo, mas como se eu olhasse pra ele nos intervalos da escuridão que o lazer cortava pela fumaça e dissesse: “when will I get my one on one?”

Ficamos afastados dos outros por um instante, ele passou a mão na minha bunda e perguntou por que eu queria beijar ele. Eu disse que era só isso, queria beijar ele. Ele me deu um selinho e morreu nisso. Eu não sabia beijar e me dei por vitorioso de qualquer forma. Mas eu queria mesmo que ele me olhasse como olhava para as meninas que beijava.

Ele beijava com tesão, com desejo, com vontade, com verdade. Elas sentiam que ele queria aquilo, que elas estavam tendo a vez delas. Tudo isso pra no final até o viado invejoso da escola forçar um beijo entre eles. Não tinha jeito, percebi ali o que era ser preterido.

De lá pra cá tem sido isso: good, but not the best, second place. E tenho assistido passar pela vida à minha incapacidade de amar verdadeiramente e de ser escolhido por quem eu quero que me escolha de volta, sem sentir que preciso dar um passo pra trás antes que a pessoa decida voluntariamente ir embora.

E tenho arranjado um atrás do outro sempre na promessa desse Cabaret: maybe this time I’ll be lucky, maybe this time he’ll stay.

sábado, 13 de junho de 2026

Duprat

Por que assim, Marie: mesmo as coisas ruins que passamos na vida têm algo de bonito nisso. A gente sai mais firme, mais inteiro, melhor construído, mais resiliente. Há algo nisso que prova o nosso próprio valor.

Tu não és feita de MDF igual a esse povo mesquinho, corrupto. Não pode apoiar um copo gelado em cima que já mostra logo a essência — entorta, não volta à forma, enfeia de vez. Não tem conserto.

Tu és feita de mármore. É forte, não quebra fácil, dura, persiste, sobrevive aos tempos. O mármore é bonito, é admirável, ninguém fica indiferente a ele — confiável, incontornável, desejável, caro, poucos podem tê-lo. E sabe o mais importante? Não fica bem em qualquer casa feia, mal habitada. É para quem tem bom gosto. Mesmo que tenha dinheiro, só busca quem sabe exatamente o que é — Marie, digo, mármore.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Dois amores

Eu tenho dois amores, não sei como explicar.

Um me vem às quintas. Nos falamos as terças como quem encomenda um bolo: Olá, me vê um bolo moreno, aquele gostoso chocolatudo que acalenta, acalma e concilia? Pra quinta, às 18:30.

Ele diz que sim. E traz aquele corpo lindo, atirado na minha cama como quem se entrega a alguém que conhece. Ao lado da cama toca Emílio Santiago, Jorge Vercilo, Djavan. Ele dorme no meu peito e os nossos corpos se encaixam de maneira que poucos encaixaram. Não tem erotismo exacerbado, não tem trocas de putaria, não tem promessa. É sóbrio e sincero. Não se explica, não se aprofunda. É presente: vive ali o presente. Vai embora após a meia noite sob protestos de já ter se estendido. Diz que até quinta que vem e tem sido assim.

O outro é no sábado. É tolo, é bobo e sexual. É o tom etílico no ponto de chamar ao ébrio. Fala sobre ser responsável enquanto bola um pastel e queima nossas ideias. É meu amor obediente e interesseiro. Se despe por pedido e necessidade. E eu engulo como quem se alimenta de algo que satisfaz ao vício do próprio desejo. Se estende, quase que pede para continuar junto pela companhia. Se vai prometendo novos pãezinhos. 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

have you ever?

Você já gostou tanto de uma pessoa a ponto de querer ligar pra ela?
De desejar ouvir a voz dela?
De não se contentar e precisar efetivamente ouvi-la?

Na impossibilidade da presença física, uma voz.

Você já desejou ouvi-la por horas?
Você já fez isso?
Parar em qualquer canto para ouvi-la?
Ouvi-la por horas, inventando assuntos, pulando de assunto em assunto sem finalizar o anterior.
De não perceber mais onde está, de andar de um lado para o outro enquanto escuta com calma.
Da única preocupação ser a bateria ter um pouquinho de misericórdia só dessa vez?
De pedir ao sinal que não falhe, por piedade.
De dizer algo afetuoso que deixa a pessoa sem reação e você confirma com urgência — "você tá aí? escutou?"

De ver o sol raiar e não desejar mais desligar?
De sentir o cansaço chegar nos ombros, nos olhos, de sentir que precisa tomar água.
Você já desejou continuar ouvindo pelo menos o suspiro dela até adormecer?

Já te aconteceu isso?

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Me sinto ótimo

Gosto muito do cheiro da minha casa. Gosto muito do cheiro que vem quando abro a porta. Não sei dizer bem se esse cheiro as minhas coisas sempre tiveram, ou se é o cheiro misturado do apartamento com as minhas coisas. Só sei que gosto muito.

Solto um risinho de conforto quando entro, coloco a mochila no chão e posso me sentar sozinho em paz. Faz tempo que não sentia isso. O prazer sereno de estar em meu próprio conforto, em minha própria companhia.

Tenho deixado a casa habitualmente organizada. Às vezes deixo a louça suja por dois dias, um prato, talher e um copo. Não me importo. Nada me incomoda nesse espaço que eu criei. Tenho gostado da minha rotina. Tenho gostado de saber que ninguém vai bater à porta.

Fechar as cortinas e saber que não estou esperando ninguém tem sido aconchegante. Deito na minha cama nova e sinto que realmente posso relaxar. Eu nem forço dizer ao meu corpo que estou seguro. Eu realmente estou. Não tenho sentido necessidade de preencher os espaços. Está tudo como deveria estar. Cada coisa no seu lugar, sem ninguém para me bagunçar.

Eu não sinto a solidão. E se perguntarem por mim, a casa e eu estamos ótimos.