A noite quente e abafada como só Manaus em agosto pode experienciar. O asfalto ainda devolvia o calor do dia, e ela andava pela calçada com a camisa levantada até quase o peito, magra, afeminada e suada. Era uma magreza que se notava de longe, mas que não tinha nada de frágil.
Um carro desacelera ao lado dela. Vidro abaixado, ar-condicionado vazando pela fresta, um motorista com cara de que não sabe o que é o Amazonas Dá Sorte. Um cara padrão, desses que parecem ter estudado a vida inteira no Dom Bosco.
— E aí, bb, tá com calor? Todo suado.
Ela olhou de canto, sem parar de andar.
— Ai, essa cidade, né? Verão é assim mesmo.
— Mas tem ar-condicionado aqui no carro, tá bem geladinho. Tá indo pra onde?
— Ai, tô indo lá pro lado do shopping.
— Bora, te levo lá.
Ela arregalou os olhos, num teatro perfeito de gratidão.
— Sério? Nossa, quanta gentileza.
Entrou no carro e se acomodou no banco com a calma de quem chega em casa. O ar gelado bateu no rosto dela, e a mochila ficou no colo. O motorista, satisfeito com a própria generosidade, não notou que a mão dela já tinha entrado na mochila e estava mexendo lá dentro.
— Imagina um bebêzinho desse indo a pé...
— Cala a boca e passa tudo que você tem de valor.
A voz que saiu dela não era a mesma que tinha entrado no carro. Era grossa, seca, de marginal. Ela tinha engrossado o tom com a mesma facilidade com que se troca de camisa, e na mão, apontada para o motorista, havia uma arma.
O mais estranho veio em seguida. Enquanto ela endurecia, o motorista amoleceu, e a voz dele subiu duas oitavas de uma vez, num falsete tão feminino que parecia ter vindo de outra pessoa.
— Mas o que que tá acontecendo? Quem é você?
— Para de palhaçada, encosta aí e vai colocando suas coisas na minha mochila.
— Caralho, hein, parceira, eu achei que eu ia pegar na mala... Tu é lesa, é? Tiração.
— Foda-se, quem manda dar carona pra estranho, sua gay viçosa, caçadora.
O motorista, ofendido na alma, se endireitou no banco.
— Vem cá, ô sua gay moralista hipócrita, tu tá fazendo um negócio super errado e a cuzona agora sou eu?
— Mas quem vai voltar no 0x0 pra casa é você. E liso.
Houve um silêncio curto. Ele olhou para a rua à frente, respirou fundo, e algo mudou no rosto dele. Era a cara de alguém que carregava uma semana inteira de coisa mal resolvida e tinha acabado de encontrar onde descarregar.
— Umbora ver?
E pisou fundo no acelerador.
— Eu sou é louca, porra. Eu saí agorinha do psicólogo, tô puta pra caralho que eu fui chifrada, e quem vai pagar por isso é você junto comigo.
O carro disparou pela Av. Darcy Vargas para desembocar na Constantino Nery vazia. Do lado do carona, a voz grossa de marginal foi perdendo a pose.
— Ei, caralho, desacelera! Para esse carro!
— Você quer me foder?
— Não.
— Não nesse sentido, sua otária; tu entendeu.
— Não, não, calma! Vamo conversar.
— Agora tu quer conversar? Tu vai se foder junto comigo.
— Calma, pelo amor de Deus, ó, eu vou puxar o freio de mão.
— Nessa velocidade nós vamos realmente ficar no amor de Deus.
Ela se agarrou ao banco. Os postes passavam em risco de luz. A velocidade subindo de 90 km/h para 100 km/h.
— Para, viado! A senhora é louca, caralho. Chifre nenhum vale se matar.
— Quem disse que agora é por causa do chifre? — ele rebateu, e a voz dele já não era só falsete, era também desabafo. — Você não vai me dar TEPT, que eu já tô cheia de transtorno. É tanto transtorno que, se eu chegar em casa falando de estresse pós-traumático porque parei o carro pra uma gay ladra caozeira, vão achar que eu sou mitomaníaca. Em todos os cenários eu saio perdendo nessa noite.
— Pelo amor do DETRAN, essa arma é de brinquedo, caralho!
— Brinquedo é o que tu vai ficar parecendo quando tentarem te remontar pro enterro, sua filha da puta.
Ela não pensou muito. Baixou o vidro, esticou o braço e arremessou a arma na escuridão.
— Ó, eu vou jogar pela janela! Viu?
A arma de brinquedo saiu quicando pelo asfalto, e o carro, depois de um instante que pareceu longo demais, começou a perder velocidade. Aos poucos, o motorista procurou um espaço junto ao meio-fio e estacionou. Desligou o motor, apoiou as mãos no volante e ficou sério. Os olhos dele ficaram marejados, e o queixo tremeu de um jeito que ele tentava esconder e não conseguia.
— Que foi, bicha? — ela perguntou, já recuperando a postura. — Deixa vir, vai. Chora que hidrata.
— Cala a boca, sua idiota. Quase a gente morre. — Ele fungou.
— Calma, bicha, talvez a senhora só seja exagerada, dramática.
— E você é uma palhaça.
— Tá, foi mal.
Ele limpou o canto do olho com o dorso da mão e, como quem recupera a dignidade a tapa, voltou a falar no tom de discurso.
— Que tu quer, hein, viado? Que absurdo é esse, gay assaltante? Esse país tá virando uma palhaçada mesmo. Onde foram parar as gays esforçadas, que foram subestimadas a vida inteira pelos pais e, de tanto trauma, passaram a vida inteira batalhando pra provar que os pais tavam errados?
Ela revirou os olhos, ainda com o coração na boca.
— Viado, isso é coisa de millennial. Eu sou geração Z, ninguém quer provar nada, não. A gente só quer sobreviver ao fim do mundo. E gozar também.
Ele a encarou por um momento, tentando encaixar as peças.
— Mãnium, afinal tu é ativo ou passivo? Eu tô mais confuso do que nunca...
— Ah, depende do parceiro.
— Ai, tira logo a roupa, que eu conheço essa conversa.
— Sim, eu não mereço nem um motel?
— Tu merece é bala.
— Não, esse era eu.
— Eu já me perdi no personagem.
E foi aí que o motorista fez uma coisa que nenhum motorista de história faz. Levantou o rosto para o teto solar do carro, como quem fala com alguém que está bem acima da cena, e perguntou:
— Ô escritor? A gente é versátil, né? Confirma aí.
Lá fora, na vida real, o escritor parou de digitar.
Ficou um tempo olhando para a tela, com os dedos suspensos sobre o teclado. Releu as últimas linhas, coçou a cabeça e soltou o ar pelo nariz, entre o riso e a vergonha. Os dois ali, parados num carro com o motor desligado numa Av. Torquato Tapajós que só existe na imaginação, perdidos no próprio enredo, e ele sabia que a culpa era dele. Tinha começado um assalto, passado por um surto de motorista e uma crise de identidade, e agora os personagens pediam socorro.
Pensou em deixar os dois no motel. Seria o final mais fácil, e talvez o mais previsível. Pensou também em deixá-los ali, discutindo para sempre dentro do carro, e achou dramático demais. Então olhou para ela, a magrinha, a ladra de arma de brinquedo, que tinha entrado naquele carro achando que era esperta, e decidiu que quem rouba com brinquedo merece um castigo do tamanho da brincadeira.
Voltou a digitar.
— Mano, a gente já se passou. E a senhora tem cara de gay sigiloso que nunca ficaria comigo mesmo — ela disse, soltando o cinto de segurança. — Me deixa ali na parada de ônibus.
O carro seguiu devagar, sem pressa nenhuma, e foi deixando-a na calçada, junto a uma parada de ônibus vazia e muito mal iluminada. Ela se virou para o aplicativo para ver os horários dos ônibus, leu, releu e sentiu o estômago afundar.
— Meu Deus, já passou o último ônibus! E agora? Eu tô sem minha carteirinha e sem a arma de brinquedo! Puta merda!
As lanternas vermelhas do carro ainda estavam ali, a poucos metros. Ela não pensou, e saiu correndo atrás, com a camisa ainda levantada, a mochila batendo nas costas e as pernas magras tentando alcançar o que já estava longe.
— Bicha, eu não tenho dinheiro pra ir pra casa, socorro!
O carro dobrou a esquina e sumiu. A rua ficou vazia e a noite escureceu de vez. Em algum lugar, o escritor deu um sorriso cansado, salvou o arquivo e fechou a tela.
Fim.