quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

As duas flores

No passeio público, ele segurava minha mão como quem salva a si mesmo.

A perna balançava sem parar. Um motor ligado o tempo todo. Ansiedade pura de estar perto, de não perder o contato nem por descuido. Não se importou com os que passavam; se importou em não perder um segundo da conexão.

Apenas vinte anos. Leucemia em estágio inicial. A enorme quantidade de pílulas me lembrava o cheiro de morte. Mora sozinho na cidade, longe do interior de onde veio, longe de quase tudo. De todos. De qualquer coisa que lhe salvasse. Falava comigo como se eu fosse uma promessa silenciosa de estabilidade, de cuidado. Não pediu nada diretamente, mas tudo nele pedia: aceitação, validação, permanência.

Eu, aos trinta e cinco, entendia demais.

Reconhecia aquela urgência de existir para alguém. Aquela ideia perigosa de que, se o outro ficar, talvez a gente fique também. O tempo urge, mas a idade me mostra hoje o quão triste aquela atitude era. Revi todas aquelas sensações de interpretar qualquer presença como amor. Tentei ser responsável, não me aproveitar daquela ingenuidade tão pueril.

Quando ele me fazia carinho, era como se estivesse tocando um lugar antigo. Não exatamente em mim — mas nele mesmo. Ou em mim aos vinte. Um Breno mais novo, carente, tentando ser bom, agradável, desejável, na esperança de ser visto, de finalmente ser escolhido.

Quis retribuir. Quis acolher.

Mas com a prudência de quem já sabe que não é seguro, aos vinte, tentar comprar reconhecimento com o próprio corpo. Que sexo e contato físico não podem carregar sozinhos a tarefa de salvar alguém do abandono.

Permiti que ele me encarasse. Que passasse a mão no meu corpo enquanto dizia o quão bela achava a carne. Emprestei afeto, dei calma ao lhe ceder colo. A vontade de me fazer sentir sua intensidade era tão grande que se denunciava no gemido de prazer.

Ele não se apaixonou por mim.

Apaixonou-se pela imagem de que, ficando perto, talvez pudesse cuidar de si. Entregou-se rápido demais, deixou escapar um “eu te amo”, talvez tentando garantir amor a qualquer custo.

E eu fiquei ali, de mão dada com ele, segurando também tudo aquilo que reconhecia como meu. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Porra Coutinho, na cara não pra não estragar o velório

Eu tinha acabado de colocar a última placa de limite naquele outro narcisista filho da puta.

Daquelas despedidas que não explodem, sabe quando o dodói não sara porque você está sempre batendo essa merda? Não sangra, mas ainda não teve a oportunidade de cicatrizar propriamente.

Eu tenho estado lúcido até. Até orgulhoso da postura de bandido mau.
Uma postura meio cínica, meio predatória: decidido a transar sem apego, a circular corpos bonitos como quem coleciona cenas, não histórias. Não muito diferente de como eu vejo a própria vida.

Às 01:15 da manhã, comecei a conversar com um menino super lindinho no Tinder. Exatamente meu número. Mas de uma perfeição tão controlada e exacerbada que os olhares mais atentos identificariam na hora. Maquiagem leve, mas maquiagem. Iluminação, ângulo e as melhores fotos no carrossel.

Jovem, bonito, inteligente. Que menciona seus defeitos de maneira escolhida, para forçar qualquer aspecto que evocasse a versão humana.
Mas não foi só isso.
O que me urgia foi a disponibilidade imediata, quase obscena: tomou banho, trocou de roupa e atravessou a madrugada para me ver.
Sem café, sem conversa longa, sem promessa.
Só desejo.

Choveu.

Nos encontramos no estacionamento do condomínio.
O lugar não prometia nada além de concreto, sombra e risco — e isso bastou.
Foi rápido, intenso, nem chegamos a suar. Tamanho o controle e o despreparo para a situação.
Corpos colados, respiração curta, mãos que não pedem permissão.
Transamos ali mesmo, com aquela excitação que só existe quando se sabe que não deveria estar acontecendo.

Marcamos de nos ver de novo.

Pensando agora, tudo isso aconteceu em pouco mais de 24 horas.

No dia seguinte, nos encontramos outra vez. Ele quis chamar de date. Eu percebi rápido a tentativa de dar significado para não se denunciar de casual. Tudo muito protocolar, de qualquer forma.
Fomos ao McDonald’s, comemos qualquer coisa, conversamos como se aquilo fosse normal.
Mas o corpo já tinha decidido antes da fala.

No carro, numa rua escura, a cidade suspensa ao redor, começamos de novo.
Beijos fundos, pressa, vidro embaçado.
Aquele sexo meio urgente, meio imprudente, que parece sempre à beira de ser interrompido.

Decidi que era perigoso continuar ali.
Voltamos para casa, deixei o carro, fomos a um motel.

Ali, com tempo e portas fechadas, o sexo mudou de ritmo.
Menos urgência, mais presença. Como se pudesse haver leveza na violência do querer e do imediatismo.
Houve pausa, troca de olhares, um certo abandono.
E foi nesse intervalo — entre um corpo e outro — que algo se deslocou.

Falamos de futuro.

Falamos de namoro, de se apaixonar, de termos pensado um no outro o dia inteiro.
Falamos como quem esquece que o amor não é meritocrático, que ele não responde à intensidade, nem à entrega, nem à honestidade do gesto.

Jacques Lacan dizia algo como que amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer.
Naquela noite, demos tudo — sem saber se havia quem quisesse. Mas eu tinha antecipado na mesa do fast-food, que, se se passassem doze dias, teríamos um abatedouro mais formidável. Ele disse que não entendia, que não havia motivos para durar menos de doze dias. Ah, se tem. As pessoas se abandonam. Abandonam quando já vivem há anos, quando já se conhecem, já se consolidaram. Então, abandonar alguém em poucas horas era muito mais fácil.

Chamei um Uber por volta das três da manhã.
Ele se vestiu, me beijou, foi embora sob protesto de querer ficar.

Cheguei em casa e mandei mensagem perguntando se ele tinha chegado bem.
A resposta veio só pela manhã: disse que dormiu.
Depois disso, silêncio.

À noite, mandei um emoji.
Nada.
Tentei ligar.
Nada.

No Instagram, ele havia desaparecido.
No WhatsApp, as mensagens não chegavam.
O corpo que, poucas horas antes, estava inteiro ali agora não deixava nem vestígio simbólico.

E é aí que dói.

Não porque o sexo acabou — sexo acaba sempre. Não tem contrato de manutenção. Sem garantia.
Mas dói porque o gozo ficou ligado. Ele pegou exatamente onde dói. E a minha missão estava cumprida? Tão breve assim dessa vez? Ou como da vez anterior?

O gozo, como ensina Lacan, não é a descarga.
É o excesso.
É aquilo que permanece depois que o corpo já se calou.
É a excitação sem objeto, a cena que insiste na memória, a fantasia que não encontra onde pousar.

Eu não queria exatamente ele.
Eu queria aquele estado: adolescente, desmedido, alucinado.
Uma paixão sem prudência, como uma viagem de LSD — intensa demais para durar, boa demais para ser esquecida.

Eu vi que estava rápido demais. Perfeito demais.
Tentei ser cauteloso, disse que precisávamos nos conhecer melhor.
Mas deixei a fantasia correr solta.
Porque às vezes a gente sabe — e ainda assim vai.

Choveu duas noites seguidas.
E quando a chuva cessou, ele levou o dia consigo, mas eu já sou crescidinho.

O amor não é meritocrático.
Não reconhece cuidado, nem responsabilidade, nem desejo bem formulado.
Ele acontece — ou não — por contingência.

O erro não foi transar.
Nem se empolgar.
Nem falar demais.

O erro foi esquecer que nem todo encontro sustenta, à luz do dia, o que promete no escuro.

O amor não se realizou no gozo. Sequer acha coerência no mérito; ele não oferece recompensa. Há tantas pessoas amorosas que não recebem amor por aí, enquanto os cruéis recebem real devoção. Isso não é uma falha no sistema — isso é o sistema.

E a cada sol novo, isso me faz encarar que o amor nasce da falta, não da excelência; ama-se a partir do buraco, não da completude. E o gozo excede o prazer, beira o sofrimento, insiste mesmo quando dói, não se submete à razão. E o amor, só por encrenca, às vezes se organiza em torno do gozo, não do bem-estar. A repetição eterna do trauma, da dor que nos causa prazer.

Muda o sujeito, muda o ano, o corte de cabelo, e a forma de gozar permanece a mesma. A gente foge, corre, mente pra si mesmo, e só pra trazer materialidade eu mostro ao leitor que, em menos de 47 horas, eu já me encontro reproduzindo os velhos padrões manjados de quem não tem consciência de porra nenhuma.

E toda hora a gente recorre à fantasia de que, se se esforçar mais, malhar mais, ficar mais bonito, estudar mais pra ser mais interessante e ter repertório, vai ser mais amado, escolhido, e terá valido a pena. Quando, na verdade, o amor se realiza no oposto de todo esse controle. E a gente se pune e busca esse sofrimento porque a gente goza com isso, a gente gosta de se sentir mal. Pra dar algum sentido.

E, afinal, o amor é isso: sempre um risco, nunca um prêmio.

E agora o Coutinho não me atende mais, o gozo persiste, tudo o que nós dissemos foi invalidado sem explicação. E agora? Agora a gente sustenta a nossa gracinha, porque essa noite, finalmente, eu vou dormir.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Ygor etc e tal

Lembrei do Ygor, um rapaz com quem eu fiquei por um tempo em 2011. Me apaixonei profundamente por ele, mas ele tinha namorado e só ficava comigo porque o relacionamento dele era uma bosta. Viviam brigando, não lembro perfeitamente, mas acho que era aquele tipo de relacionamento em que um fica frescando com o outro pra disputar quem tem mais autoridade. E eu, muito sem-vergonha, ficando com homem “casado”, com certeza tinha algum prazer em ser ludibriado. Queria, mesmo que inconscientemente, achar que ele era infeliz naquele relacionamento e que eu era a parte boa do dia dele.

E eu me enganei pela minha imaturidade. Eu jamais teria chance. Mas foi muito marcante.

Durante anos eu achei que um dia ele me adicionaria em alguma rede social e me falaria que aquele momento foi, de alguma forma, especial pra ele também. Nunca foi. Ele só estava se divertindo, escapando do tédio e de ter que terminar um namoro que já tinha se entranhado em todas as relações da vida dele. Filho de militar, acho que viver escondido já era padrão. Enganar os outros para fazer o que queria, numa vida dupla, tinha sido regra desde sempre.

Uma vez eu vi ele no Tinder, uns anos atrás. Não dei match, fiquei com medo de ele ter apertado o verde também. Ou, pior ainda, não ter dado. Ignorei. E, depois desse tempo todo, faria diferença? Acho que eu amei ele. Quando eu não aguentava mais de paixão e estava inflamado, disse isso pra ele. Sentado num toco, no estacionamento da UFAM, eu liguei pra ele, que ficou em silêncio quando eu terminei de falar. Ficou surpreso. Tamanho o desinteresse dele, que nunca tinha cogitado que a minha atenção partia de algo verdadeiro e bonito. Não tinha a intenção de ver nada, aliás. Eu é que via onde não tinha.

Quando conseguiu dizer algo, só disse que precisava pensar se o relacionamento dele ainda valia a pena, o que era melhor pra ele… inventou uma desculpa pra desconversar e não dar corda para o que eu estava falando. Eu não entendi na hora, só não quis insistir e ser chato. Fiquei com o sentimento de que tinha feito a minha parte, mas esperava que viesse a dele.

Ele disse que ia me procurar. Depois dessa ligação, ele nunca mais ligou, nunca mais procurou. E acabou da mesma forma que nem chegou oficialmente a começar: o dito pelo não dito. E eu gostava das vezes que a gente transava dentro do carro dele. Eu me sentia especial, me sentia visto. A gente passava horas conversando. E, quando dormíamos juntos, era bonito. Era como se eu tivesse um parceiro. Ele tinha ido me pegar no trabalho logo após eu chegar de uma viagem. Ele tinha esperado todos aqueles dias longe. O que teria significado esperar ele na biblioteca enquanto ele fazia prova? Aquela prova era o que adiava por algumas horas a vontade louca de tirar a roupa e transar como animais. Daquela noite só ficou o parágrafo que, anos depois, eu escolhi como epígrafe da minha tese de doutorado.

Não sei dizer se ele foi antes ou depois do Raphael. Um zé-bostinha que vivia drogado de remédio, não sabia transar. Me atraía o corpo, mas passávamos horas calados um do lado do outro. A gente não tinha assunto na maioria das vezes; não sei por que suportávamos o silêncio até o tédio e a tensão nos levarem a um sexo meia-boca. A melhor amiga dele, na época — que, por coincidência, era minha colega de trabalho — ajudou a acabar com tudo, que nem chegou a existir como contrato. Era só porque eu morava no mesmo condomínio que ele e era fácil encontrar ele.

Mas tinha alguma graça. Às vezes conversávamos sobre cinema e livros. Ele sempre era pretensioso e fazia parecer que entendia alguma coisa de arte, das artes. E não entendia. Mas sentia que me corrigia na vida quando dizia “não é Cannes, é Canê”. Era só um boçal bancado pela família. Aliás, nem sei muito sobre ele. Será que ele tinha mãe? Acho que quem bancava a casa eram umas primas que eu raramente via.

Outro dia passei pela fábrica onde ele trabalhava. Só lembrei porque eu tinha trabalhado próximo antes dele. E ele me corrigia toda vez que eu pronunciava errado Whirlpool. Não sei bem o dia que paramos de nos falar, tamanho o desinteresse coletivo. Ele queria ter atenção de gente como o Froner e sua galera descolada e, só porque Manaus é um ovo, o Froner passou a me mandar mensagem e querer ser próximo na época em que eu viralizei com os vídeos do meu grupo, lá por 2014. E o Froner flopou também. Eu mesmo só lembrei dele e desse nome pelo contexto. Ninguém liga mais pra aquela geração de jovens de Manaus. Nós desvoluímos para a irrelevância, com a idade. Ninguém liga pra quem já passou dos 30. E o negócio tem ficado cada vez mais infantil em todos os setores da sociedade.

Uma vez eu vi o Instagram do Raphael. Acho que o sobrenome dele era Lobato, porque o Froner também é Rafael. Parece que o Lobato virou modelo, ou qualquer coisa assim. Aquele tipo de jovem místico que finge desinteresse por tudo e faz o tipo misterioso. A verdade é que ali habita uma puta louca por pica, desesperada por atenção. Tudo estratégia tosca. Se você olhar rapidamente, parece alguém realmente interessante, o tipo aclamado nas redes sociais. Mas, se você olhar uma segunda vez, percebe as brechas ruindo, pedindo atenção.

Enfim. Misturei Ygor com Raphael porque, como expliquei, não lembro quem veio primeiro, mas foi em 2011. Não sei se cheguei a escrever algo completo sobre eles todos esses anos. Raphael tinha um blog também — acho que era no Tumblr — onde escrevia com ar de quem sabia alguma coisa; não passava de pedância. Aliás, o Tumblr, por si só, flopou porque reunia esse lugar de gente que se achava cult.

A melhor amiga dele e ele se afastaram mais ou menos na mesma época. A história repercutiu entre os interessados lá no laboratório. Hesito em mencionar o nome profano dela porque me gera ranço até hoje. Ela era uma safada que atrapalhava a minha vida no trabalho só por diversão. Transava com o nosso orientador e aproveitava que ele era um tarado homofóbico para afastar qualquer possibilidade que eu tivesse de ter meus trabalhos corrigidos com qualidade.

E, no fim, pelo que eu entendi, todo mundo se fudeu de alguma forma. A imbecil não se formou na área, não fez pós-graduação na USP como lhe tinha sido prometido. Só porque o diabo é moleque, apareceu um vídeo dela no meu feed e, as far as I’m concerned, ela ainda faz o papel de adolescente alternativa de trinta e poucos anos, mas faz vídeos de signos ou alguma coisa mística assim. Acho até que ela vive disso. Aquele velho truque que atrai alguns carecas bêbados desiludidos e que não engana uma mulher madura, consistente.

Raphael não ganhou relevância na vida como achou que um dia seria “A Star Is Born”. A referência dele, o Froner, é mais um desacreditado na cidade. Ele tinha até um site sobre notícias pop ou algo do tipo, aquele tipo de atividade que está mais pra um hobby mal remunerado do que uma carreira.

Eu já escrevia há anos antes de conhecer o Raphael. Mas, naquela época, meio que tinha uma competição velada de quem escrevia melhor. Tinha até uns recados escondidos nos textos um do outro. Eu devo ter escrito algo aqui sobre ele no blog, não sei se um texto inteiro ou só recados no meio da loucura. Mas ele também não chegou a lugar nenhum que me provasse esse Olimpo de superioridade onde fingia viver. Eu não sei nem por que eu lembrei dele agora; deve ser por associação das coisas que eu vivi naquele ano. Desconfio porque, em 2011, toda vez que eu achava que algo era pra mim, ou que era meu, se mostrava, na verdade, alguma espécie de tentativa de me agarrar a qualquer coisa que desse a sensação de pertencimento.

O meu ex-orientador pagou um pouco pelos pecados dele porque foi denunciado — finalmente — por ser um tarado no PPG da UFAM e acabou sendo expulso de lá. Voltou à insignificância de onde ele sempre temeu pertencer. Passou a juventude tentando moldar a imagem de gênio tesudinho e acabou preso na armadilha que ele construiu ao redor de si. Ninguém leva a sério, como pesquisador, um velho tarado que não respeita a própria mulher, que, aliás, é a chefa dele. Péssimo dia para os machistas. Acho que ele nunca entendeu que o fato de ter trabalhado com o Aziz Ab’Sáber não o tornava herdeiro de nada. Não é porque a Anitta gravou com a Madonna que ela passa a ter o mesmo legado.

Eu achei que precisava do meu orientador pra chegar a algum lugar porque ele insistia em dizer, de maneira violenta, que todo mundo só chegava ao sucesso por meio dele. Inclusive, quando eu já tinha acessado lugares onde ele esteve, eu continuei achando que, pra me manter lá, precisaria da mentoria dele. E não precisei. Mas é estranho se questionar: “se eu tivesse uma boa relação com ele, isso aqui estaria sendo mais fácil? Mais bem guiado?”. Até aqui, não foi o caso.

Passados todos esses anos, eu já conheci o amor e o cuidado de verdade. Talvez eu olhe pra trás com um pouco de vergonha disso tudo, daquele garoto de 20 anos. Foi tudo muito sórdido e imaturo. Serviu de aprendizado, só pra usar velhos clichês e fazer uma ponte. Ou talvez não tenha ensinado nada mesmo e eu só lembre porque tenho a memória boa. Não é como se fosse tão relevante, como se viesse tudo isso à mente com frequência. É só teste para saber se tenho tendência a Alzheimer. E também não quero parecer que vim escrever só pra dizer que hoje eu sou melhor do que todos os citados aqui. Não faço isso em tom de triunfo, mas de aceitação cansada.

Escrevo, na verdade, pra constatar que a propaganda de que essas pessoas eram melhores e com sucesso garantido não passava disso mesmo: propaganda enganosa — e eu deveria estar escrevendo isso tudo no site do Procon.

Pois é, divaguei. O Ygor nunca voltou. Porque nunca voltaria mesmo. Ilusão nossa achar que a gente precisa de uma última conversa, como se tivesse algo a ser dito que mudaria as intenções da pessoa. Eu entendi, com o tempo, que não precisava dizer pra ele que ter ido embora sem dar satisfação me gerou decepção. Ele sabia disso na época. Ele sempre teve ciência disso. Só optou por seguir. As pessoas sempre sabem, e é exatamente por isso que elas seguem as vidas delas. Porque isso tudo é inevitável. Não é como se tivesse algo a acrescentar; o que não foi dito fica subentendido.

Quando vi ele no Tinder, “catitei” — como dizem os paraenses — a vida dele. Fez doutorado em Geografia, mesmo sendo advogado. Fez numa universidade onde uma amiga minha é docente, no mesmo programa de pós-graduação. E ele virou docente da faculdade que o Vini — a pessoa que melhor me amou — estuda. O Raphael parece que morava em SP. E eu tô voltando a morar em Manaus, onde tudo e nada demais acontece.

Mês que vem eu faço 35 anos e tenho sentido, nos últimos oito anos, que não amo como antes. Que não me emociono mais. Não vejo isso como ter me tornado uma pessoa amarga, frustrada. O amor sempre volta a ser tema aqui; por si só, já mostra que existe em mim e tá sempre pronto pra ser dado. Mas por que eu não amo mais daquela forma pueril? Eu sou outro? Ou o amor todo é outro, que nem tem mais seus vícios de tortura? Talvez, se eu soubesse todas as respostas, não teria mais graça — e esse texto nunca existiria.

E os personagens aqui não são propriamente vilões. O antagonista mesmo é o tempo combinado com a expectativa. A fantasia de que o tempo corrigiria o passado. E não corrige; ele afasta. E os lugares aqui são salões provisórios abrigando visitas provisórias. Ninguém citado aqui importava mais que as expectativas que eu coloquei neles.

Impressionante como algo tão intenso não deixou rastro nenhum fora de mim. O inconformismo não é com as pessoas, é com a assimetria. Nada disso gerou memória compartilhada, estatuto. Não existe recompensa moral por ter sido inteiro. E isso é profundamente inconformante, mesmo quando já aceito intelectualmente. Não houve nem rejeição clara, apenas indiferença. Talvez seja verdade que a indiferença seja mais difícil de metabolizar do que o conflito.

O que sobra é esse resto —
não dor,
não saudade,
não amor —

mas uma recusa íntima em aceitar que o silêncio também é uma forma de resposta válida. Essa é a fantasia ética que sustenta o sofrimento.

E a minha forma de amar hoje só funciona encarando a falência das promessas que nos mantêm jovens.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Pode beijar o noivo.

Sabe, essa ansiedade em torno de casamento e família eu não tenho. Quanto mais expectativa se coloca nisso, mais se constrói uma idealização irreal e inalcançável. Eu estou aberto à possibilidade, mas não faço disso um objetivo de vida, muito menos uma preocupação.

Meu único objetivo até fevereiro de 2029 é a minha carreira. Porque, mesmo assim, eu ainda terei 38 anos. E, estando no topo da minha trajetória profissional, com o máximo de retorno financeiro que ela pode oferecer, todo o resto pode fluir.

O contrário, não.

Eu tenho muitos amigos — muitos mesmo. Dezenas. Amigos que se formaram ou casaram ainda durante a faculdade. Entraram na lógica da família, do casamento, da casa, dos filhos. E sabe o que aconteceu? A emoção passou. Porque passa. Sempre passa.

Confiar a própria felicidade a paredes ou a outras pessoas não oferece garantia alguma de futuro.

Tenho amigos que viveram em estado permanente de lua de mel por dois anos. Hoje, a maioria ninguém nem sabe se ainda está casada. Não postam fotos juntos, saem sozinhos ou apenas com amigos, tentando resgatar uma juventude que não volta.

No trabalho, passaram a fazer apenas o mínimo necessário: o básico para receber o salário e ir ao supermercado. Hoje vivem uma vida tediosa, repetitiva, onde todos os dias são iguais. Não há nada de extraordinário. São apenas pessoas comuns atravessando a rua.

E voltar a estudar? Muito difícil. Quando você se desliga completamente da carreira, deixa de enxergar os caminhos. Tentar um mestrado, um novo concurso, depois de cinco ou sete anos focado apenas em casa e família, é brutal. Não há competição possível com alguém de 22 anos que acabou de passar quatro anos inteiro dedicado à graduação.

E não me entenda mal. Eu estou prontíssimo para um relacionamento, para construir algo. Quero amar loucamente, cegamente, viver com a pessoa e para a pessoa.

Mas só aceito isso se for para passar férias nas Maldivas, na Europa. Se for para passar férias na Praia Grande, muito obrigado, next. Entende isso? Eu cheguei num nível em que não dá mais pra viver com alguém que ganhe salário mínimo. E não foi por milagre, do meu primeiro estágio pra cá a minha remuneração hoje é trinta e quatro vezes maior. Não adianta, agora o fator grana vai ser sempre um filtro. Imagina ter que assinar um prenup pra saber com quem vai ficar as Tupperwares?

Tenho sonhos altos demais para moldá-los, reduzir-me ou caber na caixinha de alguém medíocre.

E tem algo que todo mundo finge não entender: amor sem dinheiro não sustenta relacionamento nenhum. A conta não fecha.

Até para sentar num lugar simples e oferecer um jantar romântico, você precisa de dinheiro. Imagina dividir a vida com alguém que não consegue sequer oferecer um presente de aniversário ou de casamento. Não é sobre luxo. É sobre autonomia.

Ninguém escolhe nascer pobre. Mas tem gente que as decisões vão condicionando isso, muitas vezes sem consciência plena. Eu não odeio quem é pobre — até porque eu continuo sendo trabalhador. Eu só digo não ao trauma da pobreza. Eu não quero voltar à insegurança e à instabilidade. Eu quero previsibilidade.

Dinheiro não compra felicidade? Talvez não. Mas pobreza também não compra merda nenhuma. Eu sei porque experimentei isso até, pelo menos, os 23 anos.

Felicidade é subjetiva, ok, concordo. E eu me considero feliz agora. Dentro do que cabe na alienação. Viajar, ver minha família, ir à praia, estudar. Tô fazendo o que gosto. Eu estou feliz.

Como já cantou o Ira!: “eu quero sempre mais, eu espero sempre mais”.

E você se confunde ao achar que antes eu estava fodido e hoje eu tô luxando com a Ranger Storm do meu cunhado. Não estejas a rir-se. Acontece que eu só estou “luxando com o dinheiro de outra pessoa” aqui porque as pessoas me levam a sério. Elas se dispõem a me oferecer coisas, confiam em mim. Oportunizam. Onde eu chego, meu cunhado ou minha irmã dizem: “ele é doutor pela USP, hein”, e eu logo corrijo: “calma, eu ainda estou tentando, batalhando”. A família deles é extremamente influente, circula entre a elite. Meu cunhado, inclusive, tem irmãos que ele esconde de tanta vergonha. Mas eu? Onde ele vai, faz questão de que eu vá junto para me apresentar, me prestigiar. Parte da família dele é formada por médicos, brancos, ricos e influentes. Quando a bebida acaba, são eles que se levantam para buscar e me servir. Isso é comum? Um desses caras levantar pra servir uma gay paraense, de cor misturada? Não é vira-latismo não, mas eu sei que eu cortei um dobrado pra ser respeitado onde eu chego.

Eu não criei as regras do jogo. Quando cheguei, o mundo já era assim. Entre passar a vida militando sozinho para mudar tudo ou jogar com o que existe, eu escolhi sobreviver melhor. Farinha pouca, meu pirão primeiro.

O mundo não distribui oportunidades. Ele oferece poucas — e quase ninguém está pronto para agarrá-las. Eu construí as minhas. Ninguém bateu na minha porta oferecendo nada. Eu conquistei tudo na porrada.

Nem toda carreira é bem remunerada. Se eu tivesse escolhido outro caminho, talvez não estivesse aqui. Hoje, eu estou entre uma minoria muito bem remunerada. Não por genialidade. Mas porque aceitei me foder mais do que a maioria aceita. A maioria só baixa os braços. Aquele sentimento silencioso de contentamento onde todo mundo encontra conforto no final do dia.

Então se aparecer alguém compatível com os meus planos de vida, eu entro de cabeça. Se não aparecer, não muda absolutamente nada. Porque isso nunca foi o objetivo da minha vida.

Eu me vejo assim: um parceiro do meu lado, um bom apartamento, carros próprios, passaporte em dia, férias fora do país sempre que der vontade.

Passar vontade, nunca mais.

Não quero nada de ninguém. Quero poder bancar os meus sonhos. Isso me dá satisfação plena.

E de qualquer forma, você sabe também: eu me acovardei.

E digo isso não para provar nada a mim, a você ou ao leitor que nos imagina aqui sentados numa mesa, com o dedo na cara um do outro. Eu também fugi dos meus maiores sonhos. Fiquei só com aqueles mais tangíveis. 

Eu queria estar nos palcos — não os da vida, os artísticos mesmo. Talvez eu fosse mais bem remunerado e satisfeito? Ou mal remunerado, como é a realidade da grande maioria, mas feliz? Ou fodido e infeliz? Teria eu trocado um sofrimento por outro? Poderia eu ter gasto menos energia que teria sobrado tempo para viver de companhia, sentar frente ao juiz naquelas cadeiras brancas alugadas de plástico com capas já encardidas, um bolo falso de isopor para o amigo fotógrafo capturar o "sim"?

Porque, de qualquer forma, eu poderia estar me matando na arte, mas me mato — e morto fico — na ciência.

Isso aqui tudo é só uma ilusão de conforto? Não sei.

A Taís me disse — e eu acredito — que eu não escolhi o que queria; escolhi o que podia ser feito. E, portanto, seria inútil fazer o exercício sórdido do “eu teria sido mais feliz se tivesse seguido outro caminho?”.

Caralho, como isso é possível? Como algo totalmente fantasioso, que não podemos mais alcançar, consegue nos afetar tanto?

Seria tudo o que eu te disse uma autopromoção para convencer unicamente a mim mesmo de que o dinheiro, sozinho, me salvou de dores maiores? Acho que todo mundo queria saber o que eu teria feito se não tivesse conseguido. And I guess we’ll never know.

Vai dormir. Amanhã você trabalha.

Eu vou curtir meu último dia de férias no Nordeste estudando. Eu poderia escolher ir a praia ou ficar o dia inteiro conversando frivolidades com a minha família. Aliás, eu poderia? Dia 10 é o último dia pra entregar o trabalho final do Wanderley. Viu como eu não sou um metidinho de merda? Eu tô fazendo meu corre também. Igual você.


Dorme bem. Sonha grande.


E se começar a sonhar com o caixa do supermercado… acorda para sua vida.

Beijão, querido. Fica com Deus — já que você não pode ficar comigo.

Brincadeira. Pelo amor do Criador.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

É, dona Teté.

Feliz ano novo, dona Teté!

Não é o novo ano ideal, mas, mesmo assim, fico feliz de saber que você está estável, bem, saudável, progredindo.


Sempre torci por ti, e te ver indo tão longe me dá a sensação de que isso tudo está certo.


Tive medo, no passado, de que tu não aproveitasses o teu potencial, a tua inteligência. Mas esse medo revelava mais sobre mim do que sobre ti, que só estavas ficando cada dia mais forte para alcançar o potencial que estavas destinada a conquistar.


Não consigo dizer se esse sentimento já te assombrou ou ainda assombra, mas, sempre que estou perto das nossas mães e tias, me vem uma vontade quase física de fugir.


Fico tentando entender se, lá no fundo, é o desejo de nunca mais encarar essa decadência toda ou se é a tentativa inútil de voltar para aquele tempo de vinte anos atrás.


Talvez eu seja apenas ingênuo — ou tolo — por ainda esperar que elas fiquem bem e em paz.


Me entristece olhar para trás e perceber que a família foi diminuindo e que as pessoas estão ficando sozinhas, sem qualquer sensação de completude. Seria isso já uma espiadinha do nosso próprio futuro?


Eu, que passei de um bosta para o “inteligente da família” só na época da faculdade, te pergunto: elas sempre foram assim? Agiram a vida inteira como pombagira sem plano de voo? Ou morreram internamente de frustração e se afogaram nos próprios sonhos? Quando a gente chegar aos 60, também seremos pessoas amargas, frias, insensíveis, que, em algum momento oportuno, fingem humanidade com quem veio depois na família? Tu consegues entender que merda passa na cabeça dessas mulheres? Porque, puta que pariu, isso me frustra e me entristece. E agora eu me pergunto: por quê?


Tu ainda tens vontade de despirocar como elas e descobrir que droga o mundo tem a oferecer? Eu tenho. Ou eu sou só um ressentido de merda, feito à imagem e semelhança da minha própria mãe? Por Deus, que não seja isso. Ainda não, por favor. Eu só tenho trinta e quatro anos, não é possível. Entende isso? A mesma idade que a minha mãe tinha quando me gestou. Isso é mera neurose ou é fato o que dizem: a maçã nunca cai longe do pé?


Também não entendo por que isso me atravessa de forma tão íntima e com tanta intensidade. Afinal, ninguém liga e ninguém se importa. Só para citar exemplos concretos: agora o Bruno está em Portugal, o Levi em Tucuruí, a Rafa segue em São Luís, porque sempre esteve, eu na puta que pariu, e tu voltando para o Rio — de onde vais retornar me chamando “te falar nem”, já com sotaque carioca.


E agora eu estou aqui, sentado, te escrevendo, e está tocando reggae. E não é possível que exista algo que descreva melhor essa situação do que eu estar na terra do reggae, no dia do ano de que eu mais gosto, e nunca ter conseguido vir aqui e conciliar a visita com uma ida a um reggae. Por que eu nunca fui a um reggae aqui, cara? Já é a quarta vez, e eu continuo sem sair porque acho que estaria bancando o folgado que só veio fazer papel de hóspede e turista. Viu? Eu sou tão moralista quanto elas. Não faço o que quero para querer o que o outro talvez vá querer de mim.


Não quero te deixar mal com tudo isso. É só um desabafo, porque sei que, em alguma medida, tu me entendes.


Dá um aperto constatar tudo isso. Um desalento silencioso.


A tia Osana, por exemplo, toda vez que eu tenho tossido, se afasta, como se eu tivesse algo contagioso e fosse passar para ela. E ela mesma esteve tossindo até pouquíssimos dias atrás, e ninguém a tratou como se fosse uma leprosa. E ela sabe que essa porra é alergia, porque a genética da família é excepcionalmente uma droga. Nunca vi uma família completar o bingo genético assim: câncer, depressão ou porra de alergia.


Tu podes até pensar: “deixa essa velha louca para lá”. Mas esse gesto pequeno, automático, de egoísmo e autopreservação dela me toca num lugar muito frágil. No fundo, todas elas sempre pensaram — e ainda pensam — apenas em si. E a gente foi ficando de escanteio, se virando como dava. E a margem de escolha sempre foi mínima.


Há egoísmo demais, grosseria demais, uma necessidade constante de estarem certas e se sentirem superiores. E, ainda assim, não conseguem perceber que nunca chegaram perto de sentir qualquer prazer real com isso. Só produzem dor — para elas mesmas e para todos nós. Isso tudo pra continuar errado.


Enfim, é triste constatar tudo isso. Ainda assim, é bom te ter depois de tantos anos de distância. Pena que de longe. Mas, de algum modo, perto.


Imagino que tu estejas dormindo. Eu deveria estar também, porque seria mais bonito acordar no horário que te prometi para irmos à praia. Embora eu já não queira mais, porque tudo se misturaria: a contemplação da natureza com a natureza da minha própria miséria. E lá se iriam algumas centenas de reais para repetir uma das coisas que a família melhor me ensinou a fazer: fazer sala.


E, até as dez horas, eu teria pouco mais de seis horas de sono.


Então, te amo.

Beijos.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Ergam as taças!

Pra você que tentou, de diversas formas, me prejudicar este ano: eu te desejo este drink.

Eu sei que você gostaria de ser este drink, pra eu te segurar, poder te beber, me encher de você e você ser a razão do meu desejo. Infelizmente, você só tem talento pra me saturar de tédio e pra você vai sobrar somente o desejo de ser.

Eu sei que deu trabalho e você não deseja ser esquecido; por isso, eu não vou ser cínico de dizer que esqueci todo o mal que você tentou me fazer. Porém, de todo o seu desejo, dentro de mim sobrou apenas a ironia de perceber como alguém pode ter tanta fixação e se esforçar tanto para gastar energia com algo que não retorna positivamente para si. Do ponto de vista prático, você não ganhou nada e ainda perdeu o bem mais valioso da sua vida: o seu tempo.

Por isso eu decidi tirar um momento pra celebrar você, pra te dar a atenção que você tanto precisava: um brinde ao seu esforço, à sua audácia, à sua coragem. Brindo também à sua ingenuidade e pequenez. Traguei o seu desejo recalcado — e segui.

É realmente uma pena que você desperdice tantos dos seus recursos para ganhar a minha atenção, de qualquer forma você jamais conseguiria estar aqui comigo, tomando este drink. Porque o gosto não te geraria prazer: tem sabor de desejo frustrado.

Porque você foca em mim, e não no seu crescimento pessoal. Eu sou o começo e o seu fim. Você gostaria de ser eu e, justamente por se dividir para gastar essa energia excessiva e desproporcional, você não consegue chegar a ser eu, nem você mesmo.

E, dessa forma, você jamais prosperará para chegar perto de mim ou dos lugares onde eu conquistei entrada. Mas o espetáculo foi divertido.

Saúde! 🥂

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Quando a porta se fechou

Depois de todos esses anos, aparecer para dizer que ainda me ama? Às vezes, nem é amor; é remorso. Porque você sabe que errou com uma pessoa boa, que te amava, cuidava, se dedicava, e você descartou para atender somente aos seus desejos sexuais. E, de qualquer ponto de vista, foi egoísmo seu no passado e é agora também.

E você nitidamente não evoluiu, só está mais velho; não tem mais a mesma juventude e o rostinho de bebê para ganhar atenção. Você nunca seria capaz de perceber o dano que tudo aquilo me causou naquela época. Você apenas rodou o mundo, não ganhou nada melhor e percebeu que desperdiçou o seu tempo.

Eu lembro, sim, daquela última noite lá na mesa de casa, mas lembro principalmente do meu sentimento. E não se equivoque: eu lembro para não voltar a fazer o mesmo, para não permitir que alguém use o melhor que eu tenho contra mim. Eu me perguntava se teria sido diferente se você tivesse ficado, e parei de me perguntar quando comecei a me cuidar.

É apenas memória, não é amor; isso você levou junto quando saiu por aquela porta.

Mas eu te desejo todo o amor que houver nesta vida e volte para a sua caminhada, porque eu não tenho nada para te dar.