quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Vai se curar dessa tua homofobia horrorosa

E muito disso passa pela sua falta de autoconhecimento. Você é muito homofóbico e não percebe. Além de não ter crescido com reflexo do que é amor, você não sabe o que é amor entre gays. Você está sempre se espelhando no homem maduro, viril, casado com mulher, heterossexual, com traços hipermasculinos. É ali que reside o seu desejo, e eu não posso competir com isso. E nem quero. Eu me orgulho de ser gay. Eu já tive muitos problemas com a minha sexualidade; hoje não mais. Eu não posso ser o outro e, portanto, trabalho para ser feliz como eu mesmo sou.

Eu me reconheço em mim. Eu sei demais quem eu sou. Eu sou um homem sem traços muito masculinos, adoro poder rir alto, gargalhar espontaneamente quando vem a vontade. Não para incomodar outra pessoa, porque eu sei ser educado, mas para saber que não escondo meu riso com medo da repressão de um sistema podre que já nasceu nos querendo mortos. Eu amo amar outros homens. E quero amar mesmo, sem restrições. Não quero esconder isso. Não quero performar nada, quero ser eu; tenho lutado a vida inteira pelo direito de ser somente isso: eu. Que sou o único no mundo e me mostro no espaço.

Não alimentaria desejo por uma fantasia que anula qualquer possibilidade de ser amado. Um homem que se relaciona sexualmente com outro homem é, essencialmente, um homem cujo desejo reside no outro; logo, é bem fácil entender que heterossexual ele não é. E, aliás, a última vez que eu chequei no dicionário, era exatamente esse o significado de homossexual. Ou estão chamando de outra coisa agora? Porque aqui não é Ministério da Saúde pra tá chamando de homens que se relacionam com homens. Pra mim é viado mesmo. Viado no sentido de empoderamento, de pegar o xingamento deles e devolver com força.

Sei lá, não sei como funciona para você; também tenho fantasias, mas fantasias com Papai Noel e gnomo não estão no meu repertório. O hétero másculo desse desejo é criatura do mesmo tipo, algo que se pode fantasiar, mas não existe. Não gosto de alimentar fantasias que me impeçam de amar verdadeiramente. Talvez o problema seja mais tentar forçar essa fantasia a caber na vida real. Você alimenta essa compulsão que te exclui de qualquer oportunidade de ser amado. Porque um cara casado "heterossexual" pode te usar como objeto de satisfação momentânea, mas ele jamais vai querer vínculo com você. E eu não compactuo com esse tipo de fantasia em que a satisfação sexual depende do ódio do outro, de só encontrar satisfação quando depende da minha imobilização na cama, da pessoa não me olhar nos olhos, de não ter afeto, não ter sequer um beijo, um cheiro, um toque generoso, repulsa a céu aberto, em que um homem te domina e te usa, mas não pode existir vínculo nenhum, e a falta de vínculo alimenta o ódio que circula por aí.

Isso não é coerente com a vontade de viver. Você não lembra das inúmeras vezes que já pegou alguma IST nesse contexto? E da vez que o teu desejo de chupar um hétero te fez acabar ficando todo amarrado preso dentro de casa enquanto ele roubava tudo? Você não respeita o trabalho duro de quem te dá segurança no seu lar? Da minha parte, quero viver. Bem e melhor. E o seu objetivo de vida é ser visto por todos, e eu quero ser visto e desejado de verdade. Por outro homem que saiba me amar, e não um que se esconda para realizar um desejo totalmente excludente. São aqueles mesmos pra quem o Cazuza cantava "como insetos em volta da lâmpada...", ele com mais elegância, com piedade.

Você associa a nossa sexualidade a sexo sem vínculo. E fantasia sobre como seria um relacionamento ideal, alimentado por um imaginário centrado nos héteros, e se fixa idealizado na união entre homem e mulher. Ao passo que o desejo erótico vai em direção a outros homens. Percebe a cisão interna? Com o romance apontando para um lado, e o desejo para o outro. E esse é o maior obstáculo para você finalmente conseguir intimidade amorosa profunda. Você ainda enxerga a homoafetividade como um conjunto de práticas sexuais, não conjugais nem afetivas. Uma prática ou um estilo de vida em que o sexo é o principal vetor, talvez até o único. Você percebe que o seu desejo pelo anonimato com o hétero casado só reforça aquele discurso homofóbico do "o que eles fazem na cama não me interessa, é problema deles"? Para que diabos então você me chama de marido? É apenas parte de um dos seus delírios eróticos? Porque te digo em verdade que não posso viver nesse modelo em que separaram completamente o afeto do desejo.

A homofobia é um problema externo, mas ela impregna o interior das nossas relações dentro da comunidade. Porque veja, se cada parceiro seu tinha um defeito diferente, mas você sempre seguiu focado nesse desejo sendo satisfeito pelo hétero casado, que diabos você espera encontrar em um gay assumido? Não fique chateado quando eu digo que você é o problema e os seus truques velhos não funcionam mais. Mas te encorajo a continuar; sem gays como você, o cine estaria vazio. E banheirão seria demodê.

Eu sei, eu sei, até aqui eu só foquei no problema e não ensinei como mudar. Eu sei exatamente o caminho que se faz para mudar tudo isso e ser amado de verdade. Só que na minha vez também não me ensinaram a viver. Para aprender a gente não pode tá convicto de nada. E pra quebrar essa tua convicção só vontade própria de se entregar pra terapia. E ademais, eu não vim aqui para ensinar uma pessoa totalmente alucinada e perdida; eu vim efetivamente pronto para amar.

Que pena que não pode ser você. Que pena que para você só reste a indiferença dos héteros e três minutos de sexo meia bomba com algum caído a cada sei lá. De quanto em quanto tempo você consegue realizar essa fantasia? Ela está sempre latente, né? Mas você consegue todo dia um hétero diferente igual nos seus sonhos para realizá-la? Cá entre nós, como é ser assim? Eu nem posso imaginar sofrer tanto segurando um desejo que se realiza uma vez por mês? Que custa dinheiro ir atrás? Que depende da coincidência? Me fala, vale a pena esse abismo de solidão para ser fiel a esse desejo? Nah. Eu gosto de sexo mesmo. E gosto de previsibilidade. Ah, segurança e clareza também. Então sinceramente eu não posso ter na minha casa um gay que me trai e trai a todos os outros gays bem resolvidos com a droga de uma fantasia. Dégage Adèle!

Você não sabe amar; acha que não merece amar ou ser amado. Por isso continua voltando para a única lógica em que você consegue receber também alguma desimportância: no escuro, no silêncio, na transgressão. E isso está muito distante do que eu quero para mim. Eu quero que alguém me olhe com desejo, amor e afeto. Seria um plus que me dissesse algumas frases de Sartre durante o jantar também. E não quero para encomendar; quero para hoje, porque eu fiz um trabalho muito grande em mim todos esses anos para não ter que viver de uma esperança que não se ancora na realidade. Say my name!

terça-feira, 29 de setembro de 2026

duvidei, ó

Tô achando que é difícil te ter
Que é difícil te convencer
Logo eu, que sempre gostei de desafios e de transformar pessoas em projetos pessoais
Achando que nada te alcança
Nada meu
Mas que qualquer um te prende na cabine de um banheiro podre de shopping e te satisfaz
Enquanto eu te espero, desconfortável, sentado sem sinal na esquina de casa com uma garrafa de água bem gelada, olhando pro canto
Ansiando o seu encontro
Como se o que te deixa completo não tivesse acontecido alguns minutos pra trás
Tô achando que qualquer um na fila do banheiro do roseiral te põe de quatro e te satisfaz, te domina, enquanto você mantém o chat ativo comigo e diz que me ama
E finge, disfarça e esconde
Se encolhe pra caber numa fantasia tão sórdida, mas ao mesmo tempo tão importante que vale o risco
O risco de me perder, que sequer é calculado
Por uma matemática tão fraca que você se adianta
E erra novamente, vez após vez
Um corporativismo de um só
Um dia logo em seguida ao outro
Da cabine do cine pro estranho próximo da sua casa
E não deu sequer tempo de eu processar a minha dor
Ainda por cima, isso tem tocado a minha saúde: terceira vez, num intervalo de tempo tão pequeno que derruba qualquer força para acreditar na promessa de dedicação
Tô achando que qualquer alienação barata te leva, te agrada 
Até um estranho numa festa, até o massagista:
Todos muito palatáveis, exceto eu
Pra você, o que eu dou de dia é pouco, e o que o sereno oferece é um mistério bom e absoluto
Você tem sido tão egoísta, cheio de fúria e desprezo que nem chegou a tentar o investimento
Impossível oferecer algo no menu que satisfaça alguém que entrou no restaurante errado.
Aparentemente eu sou bom em servir, mas não sou muito generoso comigo mesmo
Tenho obstruído qualquer forma de me priorizar
E nunca mais eu consegui ficar sozinho e chorar
Não pude sequer sofrer em paz
E sigo sentado, sem satisfazer a sede, esperando por um sentimento já requentado
But I also like to keep things to myself.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Exclusividade

Um café movimentado no fim da tarde. Cheiro de grãos torrados e leite vaporizando. Louça tilintando ao fundo, o zunido baixo da máquina de espresso. PEDRO já está sentado a uma mesa de canto, girando a colher dentro de um café que esfria. DAN entra, tira o casaco, senta-se de frente, animado.

  • Oi, amor. Como você está? Me fala como foi o dia. (puxa a cadeira, já se acomodando como quem tem tempo de sobra)
  • Foi bom, bem. Aquele cliente que comprou o carro para a mulher chata foi lá reclamar que o teto solar não abre todo.
  • Casalzinho chato, hein. Eles não fizeram o teste drive? (ri, batendo de leve na mesa)
  • Então!
  • Nossa, viu. Mas e aí?
  • Ah, daí mandei reclamar com o gerente que eu não faço pós-venda.
  • (ri) Você sempre sendo podre.
  • E o seu?
  • Estou odiando essa disciplina. A porra do professor nem é da área e colocam o desgraçado para ministrar. (revira os olhos, mexendo o café sem beber)
  • Por que você não cancela?
  • Já passou do período dessa merda.
  • Ah, faz. Se livra.
  • É, pelo menos termino os créditos de uma vez.
  • Pois é.
  • Então, estava pensando da gente pegar um motelzinho com aquele casal do insta. (se inclina para frente, cotovelos na mesa, sorriso já pronto)
  • Quem?
  • Aquele urso e a bichinha.
  • Ah, urso é a sua parada, não é.
  • Mas você fica com a bichinha. Olha, dizem que ela faz uma gulosa, viu. (pisca)
  • Não estou muito na vibe. (olha para a xícara, não para ele)
  • Como assim não está? Você adora fazer a três comigo.
  • Então, eu gosto de estar com você.
  • Iiih, que baixo astral é esse? Sai dessa, vida. Esse lance do carro seu gerente resolve, vamos relaxar hoje. (estica a mão sobre a mesa, tenta pegar a mão dele)
  • A gente já relaxou duas vezes essa semana.
  • E quem não gosta de relaxar? Hein, bora. (insiste, dedos roçando os dele)
  • Na verdade eu marquei de ir tomar um drink com um colega de trabalho.
  • Mas sem me avisar? (recolhe a mão, se ajeita na cadeira)
  • Foi literalmente agora na saída, vim aqui porque a gente marcou de se ver antes da sua próxima aula.
  • Tá, então cancela, adia. Eu falto aula e vamos para o motel só nós dois, que tal?
  • Eu não quero ir para o motel, eu quero um pouco de atenção hoje. De conversar. (finalmente encara ele)
  • Para com essa baixa vibração! Conversar é papo de otário, vamos gozar! (ri, tenta transformar em piada)
  • Eu tenho me sentido muito sozinho.
  • Amor, a gente literalmente vive cercado de amigos, família…
  • Pois é, e mesmo assim eu estou me sentindo sozinho.
  • Mas o que é — (se corrige, irritado) — Que saco, eu estou tentando ficar com você e você está reclamando de solidão? Você quer brigar? Isso é mais um dos seus motivos para estragar o rolê? Quer briga, então briga, vai, chato. Nossa! (bate a mão na mesa, louça treme)
  • (silêncio. Pedro olha para a rua através do vidro embaçado)
  • Desculpa, fala o que foi. (voz mais baixa, mas ainda impaciente)
  • Essa é a parada. A gente nunca está só. Parece que a gente odeia o silêncio, a calmaria. Precisa estar sempre correndo atrás da excitação. Os nossos amigos têm sido para preencher um vazio que não se preenche quando estamos sós.
  • Meu Deus, você adora os nossos amigos! Por que isso agora?
  • Eu adoro, mas gostava mais de ficar só com você. E a nossa vida foi caminhando para estar sempre rodeada de gente. No começo eu achava legal, achava que você estava me inserindo na sua rotina, na sua vida. Mas agora com esse relacionamento aberto, eu tenho sentido saudade de me sentir visto.
  • Vida, a gente passa o dia inteiro conversando, a gente sabe tudo um sobre o outro.
  • E ainda assim eu sinto que você não me conhece. Tudo tem partido de alguma demanda nossa, não só minha. Não tem nada íntimo meu que você realmente tenha participado.
  • Tá, então me fala algo seu íntimo que eu precise saber. (cruza os braços, quase um desafio)
  • Eu conheci um cara.
  • Tá, traz ele para jantar lá em casa e a gente fica com ele. (resposta imediata, automática — nem pisca)
  • Não é desse jeito.
  • Qual então? Qual é a dele?
  • Nada demais. Ele é gracioso.
  • Gracioso? (engasga com o riso) Que porra é essa? Desde quando gracioso começou a ser usado no nosso vocabulário de putaria?
  • Dan, tenta entender o que eu estou dizendo.
  • Pedro, fala de uma vez o que você quer, saco velho.
  • Olha. Eu tenho sentido falta de exclusividade. De alguém me olhar e desejar somente a mim. De me sentir especial. E nem comece dizendo que eu sou especial. Eu e mais vinte, não é?
  • Pode parar por aí. Você está traindo o nosso acordo que era não se apegar. Chupa ele e se manda.
  • Eu não chupei ele.
  • Então chupa, ué. Chupa, mata essa vontade e já bloqueia porque você já tá me crisando, não gostei dessa fantasia. (mexe a colher com força, café respinga na mesa)
  • Não é fantasia.
  • Como assim? Quem é esse cara? O que ele tem?
  • Eu gosto da atenção dele. É isso. Ele gosta de ouvir o que eu digo. Ele tem um riso fácil. Não sei descrever, tem um mês que ele entrou na concessionária. O gerente me colocou para treinar ele e a gente tem passado muito tempo juntos.
  • Você sabe que isso é traição, não é? A gente já conversou sobre isso.
  • Eu não estou traindo nada.
  • Claro que está, você está apaixonado, caralho! (voz sobe, alguém na mesa ao lado olha de relance)
  • Eu estou interessado nele. Ponto.
  • E você não vai mais ficar com ele, eu não deixo.
  • Eu não vim pedir autorização, Dan, eu vim te comunicar.
  • Caralho, como é que eu vou assistir aula depois dessa? Você vindo me dizer que está apaixonado pelo cara com quem vai tomar um drink? Eu não quero que você fique com ele, está decidido. E vamos embora para casa, que eu já me encaralhei.
  • Não.
  • Não o quê, porra?
  • Não vamos. Eu não vou para casa. Eu vou encontrar o Gustavo.
  • Gustavo, o nome da puta? (ri sem graça, um riso que já não convence nem ele mesmo)
  • Dan!
  • Como você quer que eu fique?
  • Não dá mais para mim esse tipo de acordo.
  • Não dá porque é você quem está quebrando, não é? Muito conveniente! O nosso acordo foi desenhado desde o começo pra dar liberdade um pro outro, você não gosta de liberdade?
  • Isso é um sintoma do nosso relacionamento. Não é bem liberdade mesmo. E eu entrei nesse acordo porque eu queria te agradar e eu não estou feliz nele.
  • Justamente quando conhece outro “gracioso”? Vai dizer mais o quê? Que ele é diáfano?
  • (ri, contido, apesar de tudo) Tem isso também.
  • Para, porra! (mas o canto da boca também cede, por um segundo, antes de fechar de novo)
  • Sério, Dan. Não dá mais. Esse lance, nós dois. Eu estou cansado dessa roleta russa de emoções.
  • Você está terminando comigo por causa de um cara que acabou de conhecer? Nós ficamos com vários caras e eu nunca troquei a nossa exclusividade afetiva.
  • Isso é exatamente trocar a nossa exclusividade. Você não me quer, e também não consegue elaborar isso. Por isso quer que eu esteja nessa fantasia de ter todo mundo. Quem tem tudo não tem nada.
  • E agora eu fico sem você também? (a voz falha, ele desvia o olhar para a janela)
  • A gente nunca foi tão assim um do outro, não é?
  • Mas eu te amo, você sabe disso.
  • Não acho que seja bem amor a palavra. Mas ainda fico feliz que você consiga organizar dessa forma dentro de você. Eu te amo, mas não desse jeito.
  • Cara, não faz isso. Não destrói a nossa história. O sexo com esse cara pode nem ser bom do jeito que você está idealizando. Vai, toma seu drink, você não está pensando direito. Fica com ele e vai para casa depois, eu peço pizza, a gente assiste o filme da Bridget Jones que você gosta e dorme agarrado.
  • Viu? É isso. Você já fez o plano inteiro sem me comunicar, sem perguntar o que eu quero.
  • Mas você gosta de Bridget Jones, não sou eu quem gosta! Eu estou abrindo mão de todos os meus planos para assistir o filme que você gosta!
  • Que eu já assisti sozinho, não é?
  • Como assim? E nem me chamou?
  • Você nunca está na vibe para fazer isso comigo.
  • Poxa, vida, não faz assim.
  • Eu tenho sentido falta de mim mesmo. Tenho sentido falta de ser incluído nas decisões.
  • Literalmente eu pago por tudo que você quer.
  • Eu não preciso que você pague porque tem mais dinheiro. Eu precisava me sentir escolhido. E dinheiro não compra essa sensação. Dinheiro não compra essa exclusividade, isso teria que partir de você realmente querer.
  • Então a gente é monogâmico agora, não tem mais ninguém. Pronto. (tenta segurar a mão dele de novo, com mais força dessa vez)
  • Você não ia conseguir.
  • Eu consigo, eu te mostro, prometo.
  • Se você quisesse isso teria feito desde o começo, não é? Mas nunca foi sobre mim, sempre foi sobre satisfazer o seu desejo.
  • Porra, para de me atacar! Parece que eu sou um monstro. (solta a mão dele, se recosta, ferido)
  • Você não é. Você é uma pessoa bonita, nós só não temos a mesma visão de futuro.
  • O meu futuro sempre foi com você.
  • O meu futuro era você. Até eu perceber que você tem me carregado junto com você. Mas não como seu parceiro.
  • Por favor, gostoso. (a última tentativa, quase automática, sem convicção)
  • Eu preciso ir. Sério. (pega a mochila, os dedos já tremendo um pouco)
  • No meio da discussão que você começou?
  • Você quer dizer mais alguma coisa que não foi dita até agora?
  • Não, eu não me preparei para uma conversa dessa.
  • Justo. Não tem mesmo como sair limpo dessa. Eu te adoro, você é meu melhor amigo. Mas eu realmente preciso disso.
  • E como a gente fica? Suas coisas? Você mora comigo!
  • Isso a gente decide durante a semana, não vou dormir em casa hoje. Eu só preciso muito fazer algo por mim.
  • Mas desse jeito?
  • Sim, eu só quero a minha autonomia de volta. E isso não inclui esse relacionamento.

Pedro se levanta. Um sino toca na porta do café — não é ele saindo. É o casal do Instagram entrando: sorridentes, já procurando a mesa com os olhos. Dan os avista primeiro e acena, um reflexo, um sorriso automático que treme antes de se firmar no rosto. Ele já sabia. Estava tudo marcado antes mesmo dessa conversa começar. Pedro observa a cena — o casal se aproximando, Dan se recompondo para recebê-los como se nada tivesse acontecido — e por um instante os dois mundos coexistem: o que acabou de morrer na mesa e o que já estava, o tempo todo, programado para continuar sem ele.

Pedro coloca a mochila nas costas. Passa pelo casal sem dizer nada. A porta bate atrás dele, o sino ainda balançando.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

Senta aqui, amigão

Sabe quando alguém pega um cachorro da rua e traz pra casa? Antes ele estava ali nas ruas, talvez tenha se familiarizado com o caos de alguma feira onde pelo menos encontrava os rejeitos, as sobras, o que ninguém quis, o que lhe fora dado por alguma clemência ou súplica, não chegava sequer a ser empatia. A feira se desfaz no fim do dia, ele ficava ali no relento, desprotegido, mas era o único lugar de sobrevivência onde ele conhecia para voltar. Ninguém via beleza nele, ninguém sequer o via. E ele usava dessa falta de atenção também como proteção. Sempre nas sombras, fugindo de ser notado. Então ele chega num lar, estranha o cheiro, vem por alguma promessa de ter sua necessidade de primeira ordem atendida. Já cansado, tão maltratado, um espaço fechado e de segurança não é reconhecível. Dá banho, comida, uma cama quentinha, carinho e uma coleira. No começo ele se espanta, acha que foi capturado. Fica acoado, esperando para atacar. Às vezes late por reflexo; sua memória é cheia de medo. Ainda vai à grade algumas vezes olhar a rua e fica dividido entre tentar fugir e dar uma chance ao novo. Daí você passa a mão na cabeça dele e ele não sabe o que sentir. Você passa a mão de novo e de novo. E ele sente que aquilo não é agressão. É simplesmente algo não sentido antes. E permite por estar em dúvida sobre o que significa; ainda sem entender ou retribuir. Até porque talvez uma mão em sua cabeça não tenha sido interpretada como carinho, mas como a lembrança da última vez que tentaram se aproximar dele para fazer o mal. Daí você dá comida, que é algo que ele sabe o que é e sempre foi uma necessidade. Você brinca e coloca um apelido carinhoso. Aos poucos ele percebe que não recebe mais chutes igual na rua. E ele chega perto para receber de novo o carinho passando pela cabeça dele. As orelhas abaixam. Os olhos ficam brilhando. E você para por um pouco. Continua vivendo sua vida e conversando com o cachorro com voz calma. Pergunta como foi o dia dele, que lembrou dele durante o trabalho e diz que sentiu saudades. Ele ainda sabe do trauma dele, mas percebe que você é diferente da maioria que passou por ele. Ele não sente mais necessidade de ficar alerta o tempo inteiro. Ele não rouba comida e sai correndo. Ele vai percebendo que vai ter sempre suas necessidades atendidas. E então ele consegue relaxar e dormir em segurança ao seu lado. Ele vai ficando calmo, brando. Dali a pouco ele já se joga no chão e mostra a barriga, desprotege os órgãos vitais porque você não é mais lido como ameaça à vida dele. Não gritam mais com ele. Ele não se espanta e corre ao perceber que alguém vem fazer mal a ele. Você chama ele em voz alta e ativa instantaneamente a felicidade nele em te ouvir. E ele aceita uma coleira. Ele se alegra agora de ser guiado, de sair na rua novamente porque é com você. Não é controle; ele antes não era de ninguém e agora é de alguém. Ele sabe que tem um vínculo com você. Finalmente ele pertence. Você está guiando, mas ele sabe que é por proteção. E aí ele não foge mais. Ele fica, entende o cuidado e o afeto. E retribui. Sempre esteve ali. Só nunca tinha sido ativado porque não tinha a pessoa certa para estimular. E às vezes tudo o que a gente precisa é disso: um pouco de paciência e amor. E quem decide cuidar também se transforma, aprende. Porque não há garantias, mas o amor, mesmo quando adormecido, floresce nos lugares mais improváveis. Esse é o nosso imperativo biológico.