sexta-feira, 26 de junho de 2026

Senta aqui, amigão

Sabe quando alguém pega um cachorro da rua e traz pra casa? Antes ele estava ali nas ruas, talvez tenha se familiarizado com o caos de alguma feira onde pelo menos encontrava os rejeitos, as sobras, o que ninguém quis, o que lhe fora dado por alguma clemência ou súplica, não chegava sequer a ser empatia. A feira se desfaz no fim do dia, ele ficava ali no relento, desprotegido, mas era o único lugar de sobrevivência onde ele conhecia para voltar. Ninguém via beleza nele, ninguém sequer o via. E ele usava dessa falta de atenção também como proteção. Sempre nas sombras, fugindo de ser notado. Então ele chega num lar, estranha o cheiro, vem por alguma promessa de ter sua necessidade de primeira ordem atendida. Já cansado, tão maltratado, um espaço fechado e de segurança não é reconhecível. Dá banho, comida, uma cama quentinha, carinho e uma coleira. No começo ele se espanta, acha que foi capturado. Fica acoado, esperando para atacar. Às vezes late por reflexo; sua memória é cheia de medo. Ainda vai à grade algumas vezes olhar a rua e fica dividido entre tentar fugir e dar uma chance ao novo. Daí você passa a mão na cabeça dele e ele não sabe o que sentir. Você passa a mão de novo e de novo. E ele sente que aquilo não é agressão. É simplesmente algo não sentido antes. E permite por estar em dúvida sobre o que significa; ainda sem entender ou retribuir. Até porque talvez uma mão em sua cabeça não tenha sido interpretada como carinho, mas como a lembrança da última vez que tentaram se aproximar dele para fazer o mal. Daí você dá comida, que é algo que ele sabe o que é e sempre foi uma necessidade. Você brinca e coloca um apelido carinhoso. Aos poucos ele percebe que não recebe mais chutes igual na rua. E ele chega perto para receber de novo o carinho passando pela cabeça dele. As orelhas abaixam. Os olhos ficam brilhando. E você para por um pouco. Continua vivendo sua vida e conversando com o cachorro com voz calma. Pergunta como foi o dia dele, que lembrou dele durante o trabalho e diz que sentiu saudades. Ele ainda sabe do trauma dele, mas percebe que você é diferente da maioria que passou por ele. Ele não sente mais necessidade de ficar alerta o tempo inteiro. Ele não rouba comida e sai correndo. Ele vai percebendo que vai ter sempre suas necessidades atendidas. E então ele consegue relaxar e dormir em segurança ao seu lado. Ele vai ficando calmo, brando. Dali a pouco ele já se joga no chão e mostra a barriga, desprotege os órgãos vitais porque você não é mais lido como ameaça à vida dele. Não gritam mais com ele. Ele não se espanta e corre ao perceber que alguém vem fazer mal a ele. Você chama ele em voz alta e ativa instantaneamente a felicidade nele em te ouvir. E ele aceita uma coleira. Ele se alegra agora de ser guiado, de sair na rua novamente porque é com você. Não é controle; ele antes não era de ninguém e agora é de alguém. Ele sabe que tem um vínculo com você. Finalmente ele pertence. Você está guiando, mas ele sabe que é por proteção. E aí ele não foge mais. Ele fica, entende o cuidado e o afeto. E retribui. Sempre esteve ali. Só nunca tinha sido ativado porque não tinha a pessoa certa para estimular. E às vezes tudo o que a gente precisa é disso: um pouco de paciência e amor. E quem decide cuidar também se transforma, aprende. Porque não há garantias, mas o amor, mesmo quando adormecido, floresce nos lugares mais improváveis. Esse é o nosso imperativo biológico.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Falta entender o porquê

Me apaixono sempre pelos mesmos meninos que já me rejeitaram.

Não diria que dói elaborar isso. Dói na primeira vez, aparece logo em seguida um sentimento de melancolia e fuga pra não encarar a podridão. Da segunda vez em diante já beira o sem-vergonhismo. Já passa a ser uma mistura de luxúria e masoquismo.

E se tornou isso: o fugitivo e o masoquista. Você quer algo maior que eu e eu queria o que é maior do que a minha dor pode alcançar. É essa busca por aquele rostinho lânguido, jovem, com pitada de ingenuidade e palhaçadinha. E fica o vazio do papo, da presença e da postura.

Acabo me contentando com a reciprocidade de fachada e vou antecipando prontamente qualquer frustração. Qualquer pedaço que se desprenda da minha ilusão já denuncia a rachadura na minha autoestima. E fujo, fecho, corto. Para logo em seguida dar tempo e espaço a um novo corpo; igual.

Lembrei do primeiro menino que beijei. Não significou nada. Nadinha. Passo a dar significado agora para acomodar e encontrar o espaço do quebra-cabeça da queixa-crime que registro contra mim mesmo.

E quando digo que não significou nada foi pela falta de qualquer referência histórica ou pela inabilidade de referenciar a minha própria existência no mundo — em uma adolescência totalmente porra-louca jogada no centro de Manaus — não marcou nada. Só uso aqui como o próprio ponto de partida pra explicar que senti pela primeira vez a mistura de excitação e ansiedade de querer ser visto, de pedir pra ser escolhido.

Beijei um “hétero” numa festinha de adolescentes organizada na casa de uma colega de escola. Iago? Ítalo? Acho que era Igor? Não lembro o nome dele. Lembrei por sorte do da Karina porque já se vão 20 anos dessa brincadeira. Não lembro muito dos detalhes, só lembro da Karina dizendo que ele não prestava e beijava todo mundo. E pela primeira vez eu desejei ser todo mundo.

E ele beijava mesmo, mas como se eu olhasse pra ele nos intervalos da escuridão que o lazer cortava pela fumaça e dissesse: “when will I get my one on one?”

Ficamos afastados dos outros por um instante, ele passou a mão na minha bunda e perguntou por que eu queria beijar ele. Eu disse que era só isso, queria beijar ele. Ele me deu um selinho e morreu nisso. Eu não sabia beijar e me dei por vitorioso de qualquer forma. Mas eu queria mesmo que ele me olhasse como olhava para as meninas que beijava.

Ele beijava com tesão, com desejo, com vontade, com verdade. Elas sentiam que ele queria aquilo, que elas estavam tendo a vez delas. Tudo isso pra no final até o viado invejoso da escola forçar um beijo entre eles. Não tinha jeito, percebi ali o que era ser preterido.

De lá pra cá tem sido isso: good, but not the best, second place. E tenho assistido passar pela vida à minha incapacidade de amar verdadeiramente e de ser escolhido por quem eu quero que me escolha de volta, sem sentir que preciso dar um passo pra trás antes que a pessoa decida voluntariamente ir embora.

E tenho arranjado um atrás do outro sempre na promessa desse Cabaret: maybe this time I’ll be lucky, maybe this time he’ll stay.

sábado, 13 de junho de 2026

Duprat

Por que assim, Marie: mesmo as coisas ruins que passamos na vida têm algo de bonito nisso. A gente sai mais firme, mais inteiro, melhor construído, mais resiliente. Há algo nisso que prova o nosso próprio valor.

Tu não és feita de MDF igual a esse povo mesquinho, corrupto. Não pode apoiar um copo gelado em cima que já mostra logo a essência — entorta, não volta à forma, enfeia de vez. Não tem conserto.

Tu és feita de mármore. É forte, não quebra fácil, dura, persiste, sobrevive aos tempos. O mármore é bonito, é admirável, ninguém fica indiferente a ele — confiável, incontornável, desejável, caro, poucos podem tê-lo. E sabe o mais importante? Não fica bem em qualquer casa feia, mal habitada. É para quem tem bom gosto. Mesmo que tenha dinheiro, só busca quem sabe exatamente o que é — Marie, digo, mármore.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Dois amores

Eu tenho dois amores, não sei como explicar.

Um me vem às quintas. Nos falamos as terças como quem encomenda um bolo: Olá, me vê um bolo moreno, aquele gostoso chocolatudo que acalenta, acalma e concilia? Pra quinta, às 18:30.

Ele diz que sim. E traz aquele corpo lindo, atirado na minha cama como quem se entrega a alguém que conhece. Ao lado da cama toca Emílio Santiago, Jorge Vercilo, Djavan. Ele dorme no meu peito e os nossos corpos se encaixam de maneira que poucos encaixaram. Não tem erotismo exacerbado, não tem trocas de putaria, não tem promessa. É sóbrio e sincero. Não se explica, não se aprofunda. É presente: vive ali o presente. Vai embora após a meia noite sob protestos de já ter se estendido. Diz que até quinta que vem e tem sido assim.

O outro é no sábado. É tolo, é bobo e sexual. É o tom etílico no ponto de chamar ao ébrio. Fala sobre ser responsável enquanto bola um pastel e queima nossas ideias. É meu amor obediente e interesseiro. Se despe por pedido e necessidade. E eu engulo como quem se alimenta de algo que satisfaz ao vício do próprio desejo. Se estende, quase que pede para continuar junto pela companhia. Se vai prometendo novos pãezinhos. 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

have you ever?

Você já gostou tanto de uma pessoa a ponto de querer ligar pra ela?
De desejar ouvir a voz dela?
De não se contentar e precisar efetivamente ouvi-la?

Na impossibilidade da presença física, uma voz.

Você já desejou ouvi-la por horas?
Você já fez isso?
Parar em qualquer canto para ouvi-la?
Ouvi-la por horas, inventando assuntos, pulando de assunto em assunto sem finalizar o anterior.
De não perceber mais onde está, de andar de um lado para o outro enquanto escuta com calma.
Da única preocupação ser a bateria ter um pouquinho de misericórdia só dessa vez?
De pedir ao sinal que não falhe, por piedade.
De dizer algo afetuoso que deixa a pessoa sem reação e você confirma com urgência — "você tá aí? escutou?"

De ver o sol raiar e não desejar mais desligar?
De sentir o cansaço chegar nos ombros, nos olhos, de sentir que precisa tomar água.
Você já desejou continuar ouvindo pelo menos o suspiro dela até adormecer?

Já te aconteceu isso?

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Me sinto ótimo

Gosto muito do cheiro da minha casa. Gosto muito do cheiro que vem quando abro a porta. Não sei dizer bem se esse cheiro as minhas coisas sempre tiveram, ou se é o cheiro misturado do apartamento com as minhas coisas. Só sei que gosto muito.

Solto um risinho de conforto quando entro, coloco a mochila no chão e posso me sentar sozinho em paz. Faz tempo que não sentia isso. O prazer sereno de estar em meu próprio conforto, em minha própria companhia.

Tenho deixado a casa habitualmente organizada. Às vezes deixo a louça suja por dois dias, um prato, talher e um copo. Não me importo. Nada me incomoda nesse espaço que eu criei. Tenho gostado da minha rotina. Tenho gostado de saber que ninguém vai bater à porta.

Fechar as cortinas e saber que não estou esperando ninguém tem sido aconchegante. Deito na minha cama nova e sinto que realmente posso relaxar. Eu nem forço dizer ao meu corpo que estou seguro. Eu realmente estou. Não tenho sentido necessidade de preencher os espaços. Está tudo como deveria estar. Cada coisa no seu lugar, sem ninguém para me bagunçar.

Eu não sinto a solidão. E se perguntarem por mim, a casa e eu estamos ótimos.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Achados e perdidos

Parei de olhar se ele estava on-line. Parei na quarta-feira. E tenho segurado o impulso de achar que uma conversa resolveria qualquer coisa. Fiquei em silêncio desde que bloqueei, e ele não veio atrás — acho que nem virá.

O carregador ainda está aqui. Não decidi o que fazer com ele, mas não por apego — simplesmente não parei para pensar. Talvez alguém precise. Ou talvez isso seja uma metáfora: no último gesto de cuidado, eu não o jogar fora. Porque jogar fora seria desprezá-lo de verdade. E eu nunca quis me desfazer dele.

Desde o começo, ele ativou um lugar muito específico em mim — o do cuidado com o outro, da responsabilidade, da empatia. O mesmo cuidado que ele não teve comigo. Não porque seja uma pessoa má; simplesmente não ativou nada em resposta. Ele estava buscando ser cuidado, não cuidar. E é uma pessoa confusa, que nomeia, objetifica e corre atrás de um sentimento que nem sabe exatamente o que é. No meio dessa bagunça estava eu — oferecendo o meu melhor e disputando atenção em meio a uma multidão que distrai, excita e anestesia.

Mas saí disso sem me despedaçar e mais forte do que antes. Agora tenho ainda mais clareza sobre o que não quero para mim. Não há nada nele que compense toda aquela superficialidade — nem que eu me coloque no papel de atuar com alguém sem talento. As cortinas nunca fechavam, e eu aqui improvisando a exaustão com alguém que veio buscar algo que jamais soube exatamente o que era.

O carregador vai pro lixo. Aqui não é achados de pessoas perdidas.