quinta-feira, 2 de abril de 2026

o que não ganhou texto

Vini me ironizou dizendo que o Tiago com certeza já tinha ganho texto no meu blog. E disse isso porque sabe que sempre que alguém se torna minimamente importante ganha uma reflexão feita por mim. Mas ele não se ateve ao fato de que esse blog geralmente é um cemitério de emoções. Que as pessoas vêm, se vão e escrevo sempre na intenção de materializar o que eu tô sentindo. Quem sabe um dia eu desenvolvo alguma doença ligada a perda de memória e me vem algum sobrinho distante mostrar esses textos para - num gesto de cuidado, tentar me fazer ser eu mais uma vez. Difícil, porque nenhum dos primos e irmãos quis passar a maldição adiante, a dinastia Campos se encerra por aqui. À exceção do Pedrinho que veio por acidente, como a maioria de todos nós, inclusive o atento leitor. Do lado da família paterna só floresceu desprezo e desamor, então não acredito que eu vá receber cuidado deles na velhice porque estarão quase todos mortos, se não eu antes. Tenho notícias de que eles são muitos. Sobrinhos e mais sobrinhos que eu sequer sei o nome. Pobre geralmente é muito filhento. Os mais novos nem me conhecem e duvido que exista alguma aproximação no futuro. Se houver, já fica aqui o registro para que eu desmemoriado saiba no futuro que não havia afeto do lado de lá - e da minha parte nenhum sentimento de apego também. Não foi estimulado antes, não seria depois. O fundamentalismo religioso os infectou a todos impedindo de amar verdadeiramente o próximo, que neste caso é tão próximo mesmo.

Ainda com a memória intacta, estive me perguntando essas semanas se o Tiago não merecia mesmo um texto dedicado a ele. Uma crônica, um conto, um conto de réis. Não me interessou, achei tudo monótono demais. Cotidiano demais. Simples demais. Não tinha sequer substância para um texto inteiro. Na verdade, eu já li essa história tantas vezes que foi como ler um livro da Disney: simply too easy to read. Sábado o Pedro vai tocar no assunto, vai perguntar a quantas anda. Vou ter que repetir a mesma retórica de sempre. Eu ainda vou ter que ouvir a ladainha sobre eu ser um TDAH safado e inconstante. E isso vai me deixar com um dessabor impregnado na cara. A sensação de que jogaram terra no meu mingau. E não aconteceu nada demais. Talvez daí o problema. Não chegou nem a acontecer.

Eu gosto de você, mas percebi que o que eu preciso e o que você consegue oferecer agora são coisas diferentes. Não faz sentido continuar. Eu sou uma pessoa intensa, romântica, que precisa sentir que foi escolhida de verdade. Você é legal, me trata bem, mas ao longo dessas semanas eu fui percebendo que a gente tá em lugares diferentes. Eu tô investindo de um jeito que você não tá correspondendo no mesmo nível — não porque você seja ruim, mas porque você não tá pronto pra isso agora. E eu não quero ficar num lugar onde vou sempre estar querendo mais do que o que tá disponível.

A conta, por favor, garçom.

Volta ao leitor.

Não teve nada demais. Eu só tô cansado, mas lúcido. É sobre assimetria. Porque estarmos em lugares próximos na vida, na carreira, como fazendo doutorado e dando aula nos faz ter assunto, mas a conexão é algo que depende de vontade, de desejo, e isso não acontece somente pela admiração mútua, pelo respeito. O respeito é justamente o necessário pra você encerrar as coisas bem. Respeitar o desejo do outro, respeitar o seu limite também. Ou a pessoa já entra com os dois pés sabendo dos prós e contras, ou ela se protege, e até aí tudo maravilhoso. Ela só não pode contar que eu esteja aqui refém esperando o prazo de experiência dela expirar, até porque eu sou da Geografia, não dos recursos humanos.

Então é isso leitor, o Tiago não vai ganhar um texto aqui. Combinado?

segunda-feira, 16 de março de 2026

Reconcilia essa violência no teu coração

As pessoas precisam aprender que são responsáveis por elas mesmas. Que não virá nenhum herói para salvá-las. Ninguém vai tapar esse buraco que você sente dentro de você. Você precisa aprender a viver bem na própria companhia. Se reconciliar consigo mesmo. Aprender a conviver com o próprio silêncio, com o tédio, a monotonia. Essa busca insana por estímulos, por paixão, diversão, é mera fuga de si. Aprenda a gostar de você, dos seus pensamentos, do seu ponto de vista, da sua solitude. Aprenda a cuidar de si. A ter autocuidado. Depois você busca alguém para caminhar junto. Como você vai aprender a conviver com a diferença do outro se não consegue parar para se ouvir, para apaziguar o barulho dentro da sua cabeça? Vocês precisam mesmo aprender a não se odiar. Não é hedonismo, é só uma questão de estar bem, resolvido consigo, para, com isso, poder encontrar uma relação onde exista uma dinâmica equilibrada e recíproca.

É tão difícil entender isso?

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Pêra, Uva, Maçã, Salada Mista

Tem dias em que a maturidade não vem como iluminação.

Ela vem como silêncio.

Silêncio depois de uma conversa que quase foi.
Silêncio depois de um “se for pra ser, será”.
Silêncio depois da coragem de não ligar.

Hoje eu escolhi não fazer nada.
E não fazer nada, às vezes, é o ato mais ativo que existe.

Eu poderia ter ligado.
Poderia ter ensaiado um “e aí, como você está?”.
Poderia ter feito aquele movimento elegante de quem parece casual, mas está tremendo por dentro.

Mas não fiz.

Fiquei.

Fiquei com o desconforto, com a incerteza, com essa sensação meio ridícula de que talvez eu tenha perdido algo que ainda nem era meu.

Perdi a possibilidade que imaginei.
E isso dói mais do que eu gostaria de admitir.

Adulto é uma coisa estranha.
A gente aprende que não pode fazer escândalo, que não pode agir no impulso, que não pode transformar cinco dias de silêncio em tragédia grega.
Então a gente respira.
E fica quieto.

Mas quieto não significa indiferente.

Quieto significa:
eu estou sentindo, mas não vou deixar o sentimento dirigir.

No meio desse exercício todo de responsabilidade emocional, minha amiga perguntou se eu queria hot dog.
Eu disse que sim.
E pedi também uma opção doce — para uma criança de 35 anos que estava querendo evitar uma birra emocional.

E foi aí que eu entendi.

Talvez maturidade não seja engolir o choro.
Talvez seja aceitar que, no amor, a gente ainda brinca de pêra, uva, maçã, salada mista.

A gente escolhe às cegas.
A gente deseja “salada mista”.
Mas precisa aceitar que talvez venha só um aperto de mão.

A venda não cai quando a gente quer.
O outro não escolhe no nosso tempo.

E enquanto isso, a roda gira. Mesmo quando eu esperava que o carrossel girasse os passageiros do amor.

Talvez ser adulto não seja enxugar a lágrima calado.
Talvez seja chorar, aceitar a incerteza da escolha, e ainda assim escolher não agir no impulso.

Hoje eu não liguei.
Hoje eu não excluí.
Hoje eu não dramatizei.

E por hoje vamos cuidar da criança sem deixar ela dirigir o carro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Agora que foi

Tenho pensado em nós dois. Tenho pensado mais em ti, na verdade. Mas a primeira frase que me veio foi falar da nossa unidade. Aliás… existe unidade?

Tenho pensado em ti com medo. Medo mesmo. Tenho recusado esse pensamento. Ele vem, eu rejeito, e ele volta. Mas medo de quê, catapimbas? Como um serzinho tão maravilhoso como você poderia me provocar medo?

Tenho medo de que esse sentimento — o qual tento nomear para reconhecê-lo — seja fruto de alguma elaboração traumática. Joguei tanto medo em cima de nós… de ti, aliás, né… que frustrei qualquer boa intenção que talvez tivesses.

E esse medo quase se iguala ao tamanho da minha admiração por ti.

Confesso: eu te subestimei. E já te pedi desculpas por isso. Perceba que, quando peço desculpas, é porque reconheço que errei. Afinal, não se pede desculpas sem achar que deveria ter feito diferente.

E isso, por si só, já denuncia que eu não penso mais assim.

Dá trabalho reconhecer que erramos, e nem todos se dão essa tarefa. O que também mostra que eu não sou aquele pensamento: foi um mau julgamento, um erro de trajetória.

E aí me dá medo de te perguntar… mas você reconhece que eu não sou aquele erro? Que aquele erro não abarca o tamanho das ações e escolhas que constroem, sei lá, o imaginário de quem eu sou?

Tenho medo de que a gente não se fale mais. As coisas ficaram mais claras agora, mas ficaram estremecidas também.

Tenho medo de que talvez essa tenha sido a minha chance de verdade… e que agora alguém leve embora o que era meu. E tenho sido honesto o suficiente para reconhecer que, se isso acontecer, talvez haja merecimento.

Eu não queria ser castigado dessa forma. Acho desproporcional. Não compete com a quantidade de coisas boas que eu nem tive a chance de mostrar.

Tenho vagado pelos dias, ansioso, esperando teu contato. Teu “bom dia” hoje foi bonito. Fiquei imaginando que te custou baixar a guarda e mandar a mensagem. Depois fiquei imaginando o contrário: que você não dava mais a mínima e que isso era só um exercício de dizer a si mesmo que “tanto faz”.

Hoje eu levantei ouvindo Te Devoro, do Djavan. Teus sinais me confundem da cabeça aos pés, mas por dentro eu te devoro.

Por ironia, o algoritmo colocou na fila Final Feliz, do Jorge Vercillo. Me deu raiva. E angústia.

Chega de fingir. Eu não tenho nada a esconder. Agora é pra valer.

Senti que ia chorar e já estava em:

“Pode me abraçar sem medo, pode encostar a tua mão na minha”.

E foi aí que me arrepiei fortemente.

Quem desejaria, entre vós, ser tão confuso e tolo simultaneamente?

Pulou pra Beija Eu, da Marisa Monte, que eu amo. Mas tento evitar essa música porque sempre tenho a sensação de que ela é comercial demais e que, justamente por isso, todo mundo gosta — porque não entende a profundidade de:


“Meu corpo no seu

Corpo eu, no meu corpo

Deixa! Eu me deixo

Anoiteça e amanheça”.


Acabei me irritando com toda a melancolia e desliguei a playlist.

Me irritou porque me encheu ainda mais de medo. Não ajudou, exceto por talvez organizar alguma coisa em torno desse medo e, no fim, repetir a elaboração.

Tenho me sentido culpado. Como quem comete um crime e vai lá se entregar, sabendo que vai pagar — e que não virá alívio.

Que agora vai começar o inferno de verdade. A danação.

E faço o exercício de criminoso, delegado, juiz e carcereiro. E, em todas as etapas, me lanço cada vez mais à sorte do medo, como quem não tem escolha. Como alguém que sabe que deve.

Ora, ora… se não são as consequências das minhas próprias atitudes.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

É o carnaval das frustrações

Anísio, me desculpa? Eu sei que vc tá chateado e vc tem razão de estar. Mesmo que vc não vá mais falar comigo, eu não quero perder a oportunidade de dizer que eu tô errado e que sinto muito por te magoar. Eu nunca tive a intenção de te magoar nem de usar teu sentimento. Eu fui imaturo e inseguro. Eu errei pra fingir pra mim mesmo que eu não gostei de cara de ti. Eu queria não dar importância pra esse sentimento, porque me jogar de cabeça nesse sentimento seria reviver todo o medo do abandono de novo. Eu tenho uma ferida muito grande dentro de mim, a ferida da rejeição, então eu tratei de errar logo com vc pra não dar chance de que algo maior e bonito pudesse florescer.

Eu queria poder estar à altura do teu amor, de merecer ser querido por vc. Não consigo acreditar que eu mereça ser desejado ou amado por alguém tão bonito como vc. Vc é bonito, gentil, educado, esforçado. E eu? Eu sou só um frustrado que não consegue aceitar que ainda existem pessoas como vc.

Talvez o seu ex não tenha se redimido e reconhecido o próprio erro, e tantas pessoas não fizeram isso comigo: simplesmente erraram e foram embora, me largando com o meu sentimento. Eu imagino que vc possa estar sozinho agora, chateado comigo, e eu não quero que esse mau sentimento seja desamparado. Por isso, tô aqui assumindo a minha culpa, a responsabilidade pelos meus atos e te dizendo que, de qualquer forma, eu acabei fazendo mal a mim mesmo também. Errei pra não me jogar de cabeça nessa relação e evitar a dor da perda, e eu perdi de qualquer forma, e de forma leviana. Não desejaria que ninguém fizesse isso comigo e também não tinha planejado te fazer mal. Eu só fui fingindo que vc não ligava tanto assim pra mim e que isso não passaria de um flerte.

Te adoro de verdade. Adoro a forma como vc me olha, gosto da forma afetuosa que vc usa pra falar o que sente por mim. Penso sempre no jeito carinhoso que vc segurou minhas mãos lá no shopping.

Talvez a gente tivesse tido uma relação bonita e duradoura, e isso é o que me assusta, porque eu não acho que sou merecedor disso.

De verdade, me perdoa pela sacanagem. Eu queria poder te merecer, eu só não sei como fazer isso. Eu sofri tanto em relacionamentos todos esses anos que eu saboto qualquer possibilidade de ser feliz com alguém. Tenho me sentido vazio, tem sido muito confuso esse processo de me readaptar em novos espaços em Manaus. Ainda não tô na minha casa, não consigo visualizar minhas coisas, meu refúgio. Tenho vivido como se estivesse passando pelos lugares e pelas pessoas. Talvez isso possa justificar o modo como eu te tratei, como se fôssemos passageiros, mesmo que não intencionalmente.

Mas eu gosto de vc de verdade e é por isso que estou te pedindo desculpas, pra pelo menos te dizer que eu me importo com o seu sentimento.

Perdão, amor.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

As duas flores

No passeio público, ele segurava minha mão como quem salva a si mesmo.

A perna balançava sem parar. Um motor ligado o tempo todo. Ansiedade pura de estar perto, de não perder o contato nem por descuido. Não se importou com os que passavam; se importou em não perder um segundo da conexão.

Apenas vinte anos. Leucemia em estágio inicial. A enorme quantidade de pílulas me lembrava o cheiro de morte. Mora sozinho na cidade, longe do interior de onde veio, longe de quase tudo. De todos. De qualquer coisa que lhe salvasse. Falava comigo como se eu fosse uma promessa silenciosa de estabilidade, de cuidado. Não pediu nada diretamente, mas tudo nele pedia: aceitação, validação, permanência.

Eu, aos trinta e cinco, entendia demais.

Reconhecia aquela urgência de existir para alguém. Aquela ideia perigosa de que, se o outro ficar, talvez a gente fique também. O tempo urge, mas a idade me mostra hoje o quão triste aquela atitude era. Revi todas aquelas sensações de interpretar qualquer presença como amor. Tentei ser responsável, não me aproveitar daquela ingenuidade tão pueril.

Quando ele me fazia carinho, era como se estivesse tocando um lugar antigo. Não exatamente em mim — mas nele mesmo. Ou em mim aos vinte. Um Breno mais novo, carente, tentando ser bom, agradável, desejável, na esperança de ser visto, de finalmente ser escolhido.

Quis retribuir. Quis acolher.

Mas com a prudência de quem já sabe que não é seguro, aos vinte, tentar comprar reconhecimento com o próprio corpo. Que sexo e contato físico não podem carregar sozinhos a tarefa de salvar alguém do abandono.

Permiti que ele me encarasse. Que passasse a mão no meu corpo enquanto dizia o quão bela achava a carne. Emprestei afeto, dei calma ao lhe ceder colo. A vontade de me fazer sentir sua intensidade era tão grande que se denunciava no gemido de prazer.

Ele não se apaixonou por mim.

Apaixonou-se pela imagem de que, ficando perto, talvez pudesse cuidar de si. Entregou-se rápido demais, deixou escapar um “eu te amo”, talvez tentando garantir amor a qualquer custo.

E eu fiquei ali, de mão dada com ele, segurando também tudo aquilo que reconhecia como meu. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Porra Coutinho, na cara não pra não estragar o velório

Eu tinha acabado de colocar a última placa de limite naquele outro narcisista filho da puta.

Daquelas despedidas que não explodem, sabe quando o dodói não sara porque você está sempre batendo essa merda? Não sangra, mas ainda não teve a oportunidade de cicatrizar propriamente.

Eu tenho estado lúcido até. Até orgulhoso da postura de bandido mau.
Uma postura meio cínica, meio predatória: decidido a transar sem apego, a circular corpos bonitos como quem coleciona cenas, não histórias. Não muito diferente de como eu vejo a própria vida.

Às 01:15 da manhã, comecei a conversar com um menino super lindinho no Tinder. Exatamente meu número. Mas de uma perfeição tão controlada e exacerbada que os olhares mais atentos identificariam na hora. Maquiagem leve, mas maquiagem. Iluminação, ângulo e as melhores fotos no carrossel.

Jovem, bonito, inteligente. Que menciona seus defeitos de maneira escolhida, para forçar qualquer aspecto que evocasse a versão humana.
Mas não foi só isso.
O que me urgia foi a disponibilidade imediata, quase obscena: tomou banho, trocou de roupa e atravessou a madrugada para me ver.
Sem café, sem conversa longa, sem promessa.
Só desejo.

Choveu.

Nos encontramos no estacionamento do condomínio.
O lugar não prometia nada além de concreto, sombra e risco — e isso bastou.
Foi rápido, intenso, nem chegamos a suar. Tamanho o controle e o despreparo para a situação.
Corpos colados, respiração curta, mãos que não pedem permissão.
Transamos ali mesmo, com aquela excitação que só existe quando se sabe que não deveria estar acontecendo.

Marcamos de nos ver de novo.

Pensando agora, tudo isso aconteceu em pouco mais de 24 horas.

No dia seguinte, nos encontramos outra vez. Ele quis chamar de date. Eu percebi rápido a tentativa de dar significado para não se denunciar de casual. Tudo muito protocolar, de qualquer forma.
Fomos ao McDonald’s, comemos qualquer coisa, conversamos como se aquilo fosse normal.
Mas o corpo já tinha decidido antes da fala.

No carro, numa rua escura, a cidade suspensa ao redor, começamos de novo.
Beijos fundos, pressa, vidro embaçado.
Aquele sexo meio urgente, meio imprudente, que parece sempre à beira de ser interrompido.

Decidi que era perigoso continuar ali.
Voltamos para casa, deixei o carro, fomos a um motel.

Ali, com tempo e portas fechadas, o sexo mudou de ritmo.
Menos urgência, mais presença. Como se pudesse haver leveza na violência do querer e do imediatismo.
Houve pausa, troca de olhares, um certo abandono.
E foi nesse intervalo — entre um corpo e outro — que algo se deslocou.

Falamos de futuro.

Falamos de namoro, de se apaixonar, de termos pensado um no outro o dia inteiro.
Falamos como quem esquece que o amor não é meritocrático, que ele não responde à intensidade, nem à entrega, nem à honestidade do gesto.

Jacques Lacan dizia algo como que amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer.
Naquela noite, demos tudo — sem saber se havia quem quisesse. Mas eu tinha antecipado na mesa do fast-food, que, se se passassem doze dias, teríamos um abatedouro mais formidável. Ele disse que não entendia, que não havia motivos para durar menos de doze dias. Ah, se tem. As pessoas se abandonam. Abandonam quando já vivem há anos, quando já se conhecem, já se consolidaram. Então, abandonar alguém em poucas horas era muito mais fácil.

Chamei um Uber por volta das três da manhã.
Ele se vestiu, me beijou, foi embora sob protesto de querer ficar.

Cheguei em casa e mandei mensagem perguntando se ele tinha chegado bem.
A resposta veio só pela manhã: disse que dormiu.
Depois disso, silêncio.

À noite, mandei um emoji.
Nada.
Tentei ligar.
Nada.

No Instagram, ele havia desaparecido.
No WhatsApp, as mensagens não chegavam.
O corpo que, poucas horas antes, estava inteiro ali agora não deixava nem vestígio simbólico.

E é aí que dói.

Não porque o sexo acabou — sexo acaba sempre. Não tem contrato de manutenção. Sem garantia.
Mas dói porque o gozo ficou ligado. Ele pegou exatamente onde dói. E a minha missão estava cumprida? Tão breve assim dessa vez? Ou como da vez anterior?

O gozo, como ensina Lacan, não é a descarga.
É o excesso.
É aquilo que permanece depois que o corpo já se calou.
É a excitação sem objeto, a cena que insiste na memória, a fantasia que não encontra onde pousar.

Eu não queria exatamente ele.
Eu queria aquele estado: adolescente, desmedido, alucinado.
Uma paixão sem prudência, como uma viagem de LSD — intensa demais para durar, boa demais para ser esquecida.

Eu vi que estava rápido demais. Perfeito demais.
Tentei ser cauteloso, disse que precisávamos nos conhecer melhor.
Mas deixei a fantasia correr solta.
Porque às vezes a gente sabe — e ainda assim vai.

Choveu duas noites seguidas.
E quando a chuva cessou, ele levou o dia consigo, mas eu já sou crescidinho.

O amor não é meritocrático.
Não reconhece cuidado, nem responsabilidade, nem desejo bem formulado.
Ele acontece — ou não — por contingência.

O erro não foi transar.
Nem se empolgar.
Nem falar demais.

O erro foi esquecer que nem todo encontro sustenta, à luz do dia, o que promete no escuro.

O amor não se realizou no gozo. Sequer acha coerência no mérito; ele não oferece recompensa. Há tantas pessoas amorosas que não recebem amor por aí, enquanto os cruéis recebem real devoção. Isso não é uma falha no sistema — isso é o sistema.

E a cada sol novo, isso me faz encarar que o amor nasce da falta, não da excelência; ama-se a partir do buraco, não da completude. E o gozo excede o prazer, beira o sofrimento, insiste mesmo quando dói, não se submete à razão. E o amor, só por encrenca, às vezes se organiza em torno do gozo, não do bem-estar. A repetição eterna do trauma, da dor que nos causa prazer.

Muda o sujeito, muda o ano, o corte de cabelo, e a forma de gozar permanece a mesma. A gente foge, corre, mente pra si mesmo, e só pra trazer materialidade eu mostro ao leitor que, em menos de 47 horas, eu já me encontro reproduzindo os velhos padrões manjados de quem não tem consciência de porra nenhuma.

E toda hora a gente recorre à fantasia de que, se se esforçar mais, malhar mais, ficar mais bonito, estudar mais pra ser mais interessante e ter repertório, vai ser mais amado, escolhido, e terá valido a pena. Quando, na verdade, o amor se realiza no oposto de todo esse controle. E a gente se pune e busca esse sofrimento porque a gente goza com isso, a gente gosta de se sentir mal. Pra dar algum sentido.

E, afinal, o amor é isso: sempre um risco, nunca um prêmio.

E agora o Coutinho não me atende mais, o gozo persiste, tudo o que nós dissemos foi invalidado sem explicação. E agora? Agora a gente sustenta a nossa gracinha, porque essa noite, finalmente, eu vou dormir.