Me apaixono sempre pelos mesmos meninos que já me rejeitaram.
Não diria que dói elaborar isso. Dói na primeira vez, aparece logo em seguida um sentimento de melancolia e fuga pra não encarar a podridão. Da segunda vez em diante já beira o sem-vergonhismo. Já passa a ser uma mistura de luxúria e masoquismo.
E se tornou isso: o fugitivo e o masoquista. Você quer algo maior que eu e eu queria o que é maior do que a minha dor pode alcançar. É essa busca por aquele rostinho lânguido, jovem, com pitada de ingenuidade e palhaçadinha. E fica o vazio do papo, da presença e da postura.
Acabo me contentando com a reciprocidade de fachada e vou antecipando prontamente qualquer frustração. Qualquer pedaço que se desprenda da minha ilusão já denuncia a rachadura na minha autoestima. E fujo, fecho, corto. Para logo em seguida dar tempo e espaço a um novo corpo; igual.
Lembrei do primeiro menino que beijei. Não significou nada. Nadinha. Passo a dar significado agora para acomodar e encontrar o espaço do quebra-cabeça da queixa-crime que registro contra mim mesmo.
E quando digo que não significou nada foi pela falta de qualquer referência histórica ou pela inabilidade de referenciar a minha própria existência no mundo — em uma adolescência totalmente porra-louca jogada no centro de Manaus — não marcou nada. Só uso aqui como o próprio ponto de partida pra explicar que senti pela primeira vez a mistura de excitação e ansiedade de querer ser visto, de pedir pra ser escolhido.
Beijei um “hétero” numa festinha de adolescentes organizada na casa de uma colega de escola. Iago? Ítalo? Acho que era Igor? Não lembro o nome dele. Lembrei por sorte do da Karina porque já se vão 20 anos dessa brincadeira. Não lembro muito dos detalhes, só lembro da Karina dizendo que ele não prestava e beijava todo mundo. E pela primeira vez eu desejei ser todo mundo.
E ele beijava mesmo, mas como se eu olhasse pra ele nos intervalos da escuridão que o lazer cortava pela fumaça e dissesse: “when will I get my one on one?”
Ficamos afastados dos outros por um instante, ele passou a mão na minha bunda e perguntou por que eu queria beijar ele. Eu disse que era só isso, queria beijar ele. Ele me deu um selinho e morreu nisso. Eu não sabia beijar e me dei por vitorioso de qualquer forma. Mas eu queria mesmo que ele me olhasse como olhava para as meninas que beijava.
Ele beijava com tesão, com desejo, com vontade, com verdade. Elas sentiam que ele queria aquilo, que elas estavam tendo a vez delas. Tudo isso pra no final até o viado invejoso da escola forçar um beijo entre eles. Não tinha jeito, percebi ali o que era ser preterido.
De lá pra cá tem sido isso: good, but not the best, second place. E tenho assistido passar pela vida à minha incapacidade de amar verdadeiramente e de ser escolhido por quem eu quero que me escolha de volta, sem sentir que preciso dar um passo pra trás antes que a pessoa decida voluntariamente ir embora.
E tenho arranjado um atrás do outro sempre na promessa desse Cabaret: maybe this time I’ll be lucky, maybe this time he’ll stay.