segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Purê de batatas

Ingredientes: 1 kg de batata, 50 g de manteiga, leite morno, sal, um tiquinho de noz-moscada e paciência, que dessa eu estou sem estoque.

Comece escolhendo bem a batata. Eu sempre achei que escolhia bem, o fiel leitor tem visto aí, né. O saco que eu comprei trazia um código de lote, e a segunda sequência dele talvez fosse qm4r8. Talvez. Não lembro direito, estava distraído, olhando sempre o celular, hipervigilante.

Agora olha a batata. Se tem broto, tira o broto. Se tem broto E está verde por baixo, joga fora e não discute com ela. A gente corta o broto e põe na conta do clima, da estação, de uma fase ruim. Quando brota de novo, mana, não é fase, a batata é isso. E cozinhar mais não tira o veneno, eu verifiquei.

Descasque. É a parte que mais dói em quem faz com carinho e gosta de verdade de purê de batatas. A gente vai tirando camada, tirando camada, e lembra de tudo que mostrou, de quanto ficou exposto, e a casca cai na pia como se nunca tivesse protegido nada. Pia cheia de casca, uma bagunça. Lave a mão.

Ponha as batatas na panela com água FRIA e só depois ligue o fogo. Se jogar na água fervendo, cozinha por fora e fica dura por dentro. Eu sou testemunha de que dá pra passar um tempão achando que está tudo mole e descobrir que o miolo continuava surpreendentemente cru. Água fria, fogo baixo, cozinha por igual.

Escorra e deixe as batatas paradas no escorredor uns minutinhos pro vapor sair. Vapor é tudo que a gente ainda não falou. Se amassar com o vapor dentro, o purê fica aguado e com gosto de pressa. Eu só queria que o leitor soubesse a vontade que eu tô de comandar o vapor.

Amasse. De garfo, de espremedor, com a força que precisar, mas NUNCA no liquidificador, porque batata batida demais vira cola. Eu sei que dá vontade de bater, bater de novo pra ver se muda o resultado. Muda: vira cola de escola, daquelas que grudam na mão e não saem. (Fica a defesa: amassar é autorizado, bater não.)

Junte a manteiga com a batata ainda quente, o leite MORNO (frio empelota). Verifique se o leite está bom antes, hein. Porque leite e outras coisas na vida, depois que azeda, minha filha, não adianta tentar ferver. Ah, e coloque a noz-moscada. Prove. Falta sal? Quase sempre falta. Coloque. Tem paladar que não tem talento, e aí não existe sal que você ofereça que vá satisfazer.

Se queimar no fundo da panela, não raspe. Passe o purê com cuidado pra outra vasilha e deixe o fundo queimado lá, que lavar aquilo é problema de outra pessoa. Se raspar, o gosto de queimado vai pra tudo, e você passa a comida inteira achando que era a receita. Era o fundo da panela.

Sirva quente. Rende pra seis ou pra uma pessoa que não sabe dividir. Eu fiz pra dois e comi sozinho, de pé, na cozinha, e estava bom. Estava BOM, caralho. Que mais tu quer?

Dura três dias na geladeira: você sabe que tudo tem prazo de validade.

Peço vênia

Acordei melancólico. O hush do fim de semana passou. Comecei a fraquejar na cabeça. Ainda não muda o resultado do meu voto monocrático, mas entra o pesado poder do voto de Minerva. Tô achando que, a qualquer momento, Sua Excelência pode pedir vista e suspender a minha decisão via liminar. A outra parte também é boa no exercício de suas atribuições legais; não podemos subestimar. Só não acredito que nenhuma sustentação oral vá trazer novos achados ou perspectivas novas sobre o já batido e massacrado julgamento dos fatos. Mas saí por um instante da toga e pensei: errar é humano. Poderia um criminoso tão perigoso quanto este ter cometido suas infrações por puro descontrole? Seria ele inimputável? E que tal um habeas corpus, impetrado de urgência para combater alguma carência de prazo ou vício processual? Não seria próprio do mais alto nível de valor democrático garantir a ampla defesa e o contraditório? Você ouviu o depoente: ele disse que sentia muito, que não fez por mal. Por Deus, não seria melhor olhar para esta cruz atrás do juiz e admitir que não somos mesmo laicos? Permitir que Maria intercedesse desta vez? Talvez a pena pedida lhe seja pesada demais. Quem sabe essa segunda parte do código de registro dessa edição do Vade Mecum, a que diz r7d2n, tenha sido impressa errada? Talvez fosse o momento de não pesar a mão na condenação e ponderar. E, subitamente, sou agarrado por um sentimento de que só existe lei porque as pessoas não têm bom senso e, por isso, a jurisprudência deve ser seguida à risca. Para dar exemplo. Algum pensador talvez tenha dito que "consciência social de brasileiro é medo de polícia".

Não sei. Não tenho elementos para condenar ou arquivar hoje. Chama o meirinho rápido e adia esse julgamento.

It's boys' night out

Sábado a gatinha Talisson, meu melhor amigo, veio pra cá. A fofinha ficou de vir cedo para instalar umas coisas (uma gradinha de pendurar fotos polaroid, um espelho de macumba que a Marie me deu), furar no lugar certo onde as molduras dos meus diplomas deveriam ficar e montar o suporte do monitor novo. Ficou tudo pronto. A gata chegou meio tarde, mas coitada, a fofolete trabalha no segundo turno; deixa a mana dormir mesmo. Me contou sobre os boys, sempre iludida por algum macho "hétero" que vá chegar e resolver a vida dela.

Repreendi em nome de Satanás.

Falei que minha filha está ficando com a autoestima muito baixa e que tá na hora de se valorizar. Até o peso argentino tem se valorizado mais que a fofura. Gatinha me falou de um boyzinho luxo do novo emprego com quem ela sequer tem coragem de trocar ideia, sendo que o menino está nitidamente desejando ela nua com uma maçã na boca.

Não reconheço essa puta. Essa aí não fui eu que criei, pode mandar de volta pra praça dela. Como assim não sabe ainda sequer a idade dele? Pegou uma chamada. Logo em seguida suavizei, porque ela tá finalmente dando moral para um boy advogado que, pelo que me contou, é uma bichona recém-assumida que tá a fim de troca-troca. Maricona que deixou a bonitinha PLAN-TA-DA no barzinho porque disse que precisava cuidar da filha. Brinquei que a gata tá a fim de ser madrasta. Desde quando homem cuida da filha sábado à noite? For me, that was weird. Anyway. Eu aos beijos com o meu mucilonzinho igualmente luxo e a outra com cara de velório, chateadíssima, digitando e scrollando pra lá sozinha. Dei de ombros, porque eu amo, eu que criei, mas eu não permito que filha minha seja feita de palhaça. Ficou lá no bar como quem fica de joelho no milho.

Eduardo, que de pau duro já sussurrava no meu ouvido que estava louco para me dar, apressou nossa vinda para casa. Não apressou mais ainda porque encontrei com Ingrid, uma amiga querida do passado com quem contracenei em Júlia, um curta que quase viu a luz do sol, não fosse o perfeccionismo da diretora cri-cri. Ingrid me contava que agora faz jiu-jítsu, que eu fui tudo pra ela naquela época, que ela se entregou pra preparação de elenco porque confiava em mim, mesmo quando eu colocava um saco na cabeça dela e saía arrastando-a pelo set de gravação (era parte do roteiro, fica aqui a defesa para o policial que estiver lendo esta crônica).

Adoro Ingrid, falamos mal do Paco, que era o único ator formado mesmo do elenco. Era um gostoso, fui apaixonado por ele, e ele era um babaca; se achava demais para findar não sendo absolutamente ninguém no cenário escasso do mercado de arte audiovisual desta cidade. Uma pena não levarem a cultura a sério como indústria. Ingrid falando que finalmente tinha sido diagnosticada com bipolaridade, que gastava rios de dinheiro em besteira, me mostrou uma Crocs que comprou por 600 reais. E quem quer ser fútil com um cigarro na mão e uma Crocs rosa no pé na Av. Igarapé de Manaus as 2 horas da manhã? Não conheço ninguém que se aproxime do exemplo igual aos que se sentam comigo. Aliás, quem me dera.

Corta para Eduardo quase me lambendo o rosto, uma veia do pescoço nitidamente saltando de tesão, e eu quase a fazer algo que realmente comprometesse este texto ali em público. Pedia baixinho: "me enche de porra, tô precisando da tua porra", para ter como resposta: "só se você prometer só tirar quando eu mandar".

Voltamos correndo para casa. Fui deixar o Talisson lá embaixo; volto e tem um twink louco dobrando roupas recém-tiradas da corda e jogadas no sofá, enquanto discutia com a Alexa por ela não tocar a música certa só porque a assinatura não está em dia. Um absurdo, essa Alexa, viu. Não se fazem mais assistentes como este, com TOC e mania virginiana de organização, às 3h30 da madrugada. Fiz ele largar tudo para já começarmos a transar no banheiro.

Um desespero gigantesco para terminar a porra deste banho.

Satanás, que aceito como meu senhor nessas horas, sabe que twinks são os melhores para render na cama. Não precisei ensinar quase nada: botou o pau na boca e ficou gemendo alto, delirando de tesão. Mal meti e ele já começou o escândalo silencioso: "Vai, meu paizinho, fode essa puta, me enche de porra, ai, caralho, que pica gostosa, isso, assim, com força mesmo, me bate? Por favor, me bate, eu mereço apanhar, eu sou tua puta". A parte que faltou eu fiz questão de ensinar porque ele fez por merecer: "fala que eu sou seu marido…". E ele, alegre e satisfeito, dava vida à fala para ganhar mais estocadas à medida que dizia: "Você é meu marido, eu te amo, você é minha vida, você é meu dono, nunca mais eu vou dar pra ninguém, amor, eu juro, só pra você. Só, por favor, me enche de leite".

E Satana, que se faz agora senhor de quem está excitado lendo isto, deu igualmente sustentação para aquele jovem de 20 anos esguichar porra por toda a cama enquanto eu colocava a mão na boca dele para conter os gritos de prazer - não quero pegar multa do condomínio, melhor evitar comoção. Dormimos violento, agarradinhos, depois disso.

Pense num menino que passou o dia me acariciando, cheio de afeto e desejo. Não comi de novo durante o dia; ficou o meu compromisso com o exigente freguês de que terá de voltar para tomar mais leite, com o registro no código do lote que começa com a sequência zp8yi. Tive que inventar que precisava estudar hoje para o bebezinho pegar seu rumo. Chegou em casa e fez mil declarações de amor por mensagem, do jeito que a clínica do Pedro espera me receber, relatando isso na semana que vem. E aconteceram tantas outras coisas neste fim de semana que triplicariam este relato sem foco, cuja função é apenas esta: registrar como processo.

domingo, 11 de outubro de 2026

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Ps: Libero a chave quando eu quiser. Volte depois.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Senta aqui, amigão

Sabe quando alguém pega um cachorro da rua e traz pra casa? Antes ele estava ali nas ruas, talvez tenha se familiarizado com o caos de alguma feira onde pelo menos encontrava os rejeitos, as sobras, o que ninguém quis, o que lhe fora dado por alguma clemência ou súplica, não chegava sequer a ser empatia. A feira se desfaz no fim do dia, ele ficava ali no relento, desprotegido, mas era o único lugar de sobrevivência onde ele conhecia para voltar. Ninguém via beleza nele, ninguém sequer o via. E ele usava dessa falta de atenção também como proteção. Sempre nas sombras, fugindo de ser notado. Então ele chega num lar, estranha o cheiro, vem por alguma promessa de ter sua necessidade de primeira ordem atendida. Já cansado, tão maltratado, um espaço fechado e de segurança não é reconhecível. Dá banho, comida, uma cama quentinha, carinho e uma coleira. No começo ele se espanta, acha que foi capturado. Fica acoado, esperando para atacar. Às vezes late por reflexo; sua memória é cheia de medo. Ainda vai à grade algumas vezes olhar a rua e fica dividido entre tentar fugir e dar uma chance ao novo. Daí você passa a mão na cabeça dele e ele não sabe o que sentir. Você passa a mão de novo e de novo. E ele sente que aquilo não é agressão. É simplesmente algo não sentido antes. E permite por estar em dúvida sobre o que significa; ainda sem entender ou retribuir. Até porque talvez uma mão em sua cabeça não tenha sido interpretada como carinho, mas como a lembrança da última vez que tentaram se aproximar dele para fazer o mal. Daí você dá comida, que é algo que ele sabe o que é e sempre foi uma necessidade. Você brinca e coloca um apelido carinhoso. Aos poucos ele percebe que não recebe mais chutes igual na rua. E ele chega perto para receber de novo o carinho passando pela cabeça dele. As orelhas abaixam. Os olhos ficam brilhando. E você para por um pouco. Continua vivendo sua vida e conversando com o cachorro com voz calma. Pergunta como foi o dia dele, que lembrou dele durante o trabalho e diz que sentiu saudades. Ele ainda sabe do trauma dele, mas percebe que você é diferente da maioria que passou por ele. Ele não sente mais necessidade de ficar alerta o tempo inteiro. Ele não rouba comida e sai correndo. Ele vai percebendo que vai ter sempre suas necessidades atendidas. E então ele consegue relaxar e dormir em segurança ao seu lado. Ele vai ficando calmo, brando. Dali a pouco ele já se joga no chão e mostra a barriga, desprotege os órgãos vitais porque você não é mais lido como ameaça à vida dele. Não gritam mais com ele. Ele não se espanta e corre ao perceber que alguém vem fazer mal a ele. Você chama ele em voz alta e ativa instantaneamente a felicidade nele em te ouvir. E ele aceita uma coleira. Ele se alegra agora de ser guiado, de sair na rua novamente porque é com você. Não é controle; ele antes não era de ninguém e agora é de alguém. Ele sabe que tem um vínculo com você. Finalmente ele pertence. Você está guiando, mas ele sabe que é por proteção. E aí ele não foge mais. Ele fica, entende o cuidado e o afeto. E retribui. Sempre esteve ali. Só nunca tinha sido ativado porque não tinha a pessoa certa para estimular. E às vezes tudo o que a gente precisa é disso: um pouco de paciência e amor. E quem decide cuidar também se transforma, aprende. Porque não há garantias, mas o amor, mesmo quando adormecido, floresce nos lugares mais improváveis. Esse é o nosso imperativo biológico.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Falta entender o porquê

Me apaixono sempre pelos mesmos meninos que já me rejeitaram.

Não diria que dói elaborar isso. Dói na primeira vez, aparece logo em seguida um sentimento de melancolia e fuga pra não encarar a podridão. Da segunda vez em diante já beira o sem-vergonhismo. Já passa a ser uma mistura de luxúria e masoquismo.

E se tornou isso: o fugitivo e o masoquista. Você quer algo maior que eu e eu queria o que é maior do que a minha dor pode alcançar. É essa busca por aquele rostinho lânguido, jovem, com pitada de ingenuidade e palhaçadinha. E fica o vazio do papo, da presença e da postura.

Acabo me contentando com a reciprocidade de fachada e vou antecipando prontamente qualquer frustração. Qualquer pedaço que se desprenda da minha ilusão já denuncia a rachadura na minha autoestima. E fujo, fecho, corto. Para logo em seguida dar tempo e espaço a um novo corpo; igual.

Lembrei do primeiro menino que beijei. Não significou nada. Nadinha. Passo a dar significado agora para acomodar e encontrar o espaço do quebra-cabeça da queixa-crime que registro contra mim mesmo.

E quando digo que não significou nada foi pela falta de qualquer referência histórica ou pela inabilidade de referenciar a minha própria existência no mundo — em uma adolescência totalmente porra-louca jogada no centro de Manaus — não marcou nada. Só uso aqui como o próprio ponto de partida pra explicar que senti pela primeira vez a mistura de excitação e ansiedade de querer ser visto, de pedir pra ser escolhido.

Beijei um “hétero” numa festinha de adolescentes organizada na casa de uma colega de escola. Iago? Ítalo? Acho que era Igor? Não lembro o nome dele. Lembrei por sorte do da Karina porque já se vão 20 anos dessa brincadeira. Não lembro muito dos detalhes, só lembro da Karina dizendo que ele não prestava e beijava todo mundo. E pela primeira vez eu desejei ser todo mundo.

E ele beijava mesmo, mas como se eu olhasse pra ele nos intervalos da escuridão que o lazer cortava pela fumaça e dissesse: “when will I get my one on one?”

Ficamos afastados dos outros por um instante, ele passou a mão na minha bunda e perguntou por que eu queria beijar ele. Eu disse que era só isso, queria beijar ele. Ele me deu um selinho e morreu nisso. Eu não sabia beijar e me dei por vitorioso de qualquer forma. Mas eu queria mesmo que ele me olhasse como olhava para as meninas que beijava.

Ele beijava com tesão, com desejo, com vontade, com verdade. Elas sentiam que ele queria aquilo, que elas estavam tendo a vez delas. Tudo isso pra no final até o viado invejoso da escola forçar um beijo entre eles. Não tinha jeito, percebi ali o que era ser preterido.

De lá pra cá tem sido isso: good, but not the best, second place. E tenho assistido passar pela vida à minha incapacidade de amar verdadeiramente e de ser escolhido por quem eu quero que me escolha de volta, sem sentir que preciso dar um passo pra trás antes que a pessoa decida voluntariamente ir embora.

E tenho arranjado um atrás do outro sempre na promessa desse Cabaret: maybe this time I’ll be lucky, maybe this time he’ll stay.

sábado, 13 de junho de 2026

Duprat

Por que assim, Marie: mesmo as coisas ruins que passamos na vida têm algo de bonito nisso. A gente sai mais firme, mais inteiro, melhor construído, mais resiliente. Há algo nisso que prova o nosso próprio valor.

Tu não és feita de MDF igual a esse povo mesquinho, corrupto. Não pode apoiar um copo gelado em cima que já mostra logo a essência — entorta, não volta à forma, enfeia de vez. Não tem conserto.

Tu és feita de mármore. É forte, não quebra fácil, dura, persiste, sobrevive aos tempos. O mármore é bonito, é admirável, ninguém fica indiferente a ele — confiável, incontornável, desejável, caro, poucos podem tê-lo. E sabe o mais importante? Não fica bem em qualquer casa feia, mal habitada. É para quem tem bom gosto. Mesmo que tenha dinheiro, só busca quem sabe exatamente o que é — Marie, digo, mármore.