sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Carona

A noite quente e abafada como só Manaus em agosto pode experienciar. O asfalto ainda devolvia o calor do dia, e ela andava pela calçada com a camisa levantada até quase o peito, magra, afeminada e suada. Era uma magreza que se notava de longe, mas que não tinha nada de frágil.

Um carro desacelera ao lado dela. Vidro abaixado, ar-condicionado vazando pela fresta, um motorista com cara de que não sabe o que é o Amazonas Dá Sorte. Um cara padrão, desses que parecem ter estudado a vida inteira no Dom Bosco.

— E aí, bb, tá com calor? Todo suado.

Ela olhou de canto, sem parar de andar.

— Ai, essa cidade, né? Verão é assim mesmo.

— Mas tem ar-condicionado aqui no carro, tá bem geladinho. Tá indo pra onde?

— Ai, tô indo lá pro lado do shopping.

— Bora, te levo lá.

Ela arregalou os olhos, num teatro perfeito de gratidão.

— Sério? Nossa, quanta gentileza.

Entrou no carro e se acomodou no banco com a calma de quem chega em casa. O ar gelado bateu no rosto dela, e a mochila ficou no colo. O motorista, satisfeito com a própria generosidade, não notou que a mão dela já tinha entrado na mochila e estava mexendo lá dentro.

— Imagina um bebêzinho desse indo a pé...

— Cala a boca e passa tudo que você tem de valor.

A voz que saiu dela não era a mesma que tinha entrado no carro. Era grossa, seca, de marginal. Ela tinha engrossado o tom com a mesma facilidade com que se troca de camisa, e na mão, apontada para o motorista, havia uma arma.

O mais estranho veio em seguida. Enquanto ela endurecia, o motorista amoleceu, e a voz dele subiu duas oitavas de uma vez, num falsete tão feminino que parecia ter vindo de outra pessoa.

— Mas o que que tá acontecendo? Quem é você?

— Para de palhaçada, encosta aí e vai colocando suas coisas na minha mochila.

— Caralho, hein, parceira, eu achei que eu ia pegar na mala... Tu é lesa, é? Tiração.

— Foda-se, quem manda dar carona pra estranho, sua gay viçosa, caçadora.

O motorista, ofendido na alma, se endireitou no banco.

— Vem cá, ô sua gay moralista hipócrita, tu tá fazendo um negócio super errado e a cuzona agora sou eu?

— Mas quem vai voltar no 0x0 pra casa é você. E liso.

Houve um silêncio curto. Ele olhou para a rua à frente, respirou fundo, e algo mudou no rosto dele. Era a cara de alguém que carregava uma semana inteira de coisa mal resolvida e tinha acabado de encontrar onde descarregar.

— Umbora ver?

E pisou fundo no acelerador.

— Eu sou é louca, porra. Eu saí agorinha do psicólogo, tô puta pra caralho que eu fui chifrada, e quem vai pagar por isso é você junto comigo.

O carro disparou pela Av. Darcy Vargas para desembocar na Constantino Nery vazia. Do lado do carona, a voz grossa de marginal foi perdendo a pose.

— Ei, caralho, desacelera! Para esse carro!

— Você quer me foder?

— Não.

— Não nesse sentido, sua otária; tu entendeu.

— Não, não, calma! Vamo conversar.

— Agora tu quer conversar? Tu vai se foder junto comigo.

— Calma, pelo amor de Deus, ó, eu vou puxar o freio de mão.

— Nessa velocidade nós vamos realmente ficar no amor de Deus.

Ela se agarrou ao banco. Os postes passavam em risco de luz. A velocidade subindo de 90 km/h para 100 km/h.

— Para, viado! A senhora é louca, caralho. Chifre nenhum vale se matar.

— Quem disse que agora é por causa do chifre? — ele rebateu, e a voz dele já não era só falsete, era também desabafo. — Você não vai me dar TEPT, que eu já tô cheia de transtorno. É tanto transtorno que, se eu chegar em casa falando de estresse pós-traumático porque parei o carro pra uma gay ladra caozeira, vão achar que eu sou mitomaníaca. Em todos os cenários eu saio perdendo nessa noite.

— Pelo amor do DETRAN, essa arma é de brinquedo, caralho!

— Brinquedo é o que tu vai ficar parecendo quando tentarem te remontar pro enterro, sua filha da puta.

Ela não pensou muito. Baixou o vidro, esticou o braço e arremessou a arma na escuridão.

— Ó, eu vou jogar pela janela! Viu?

A arma de brinquedo saiu quicando pelo asfalto, e o carro, depois de um instante que pareceu longo demais, começou a perder velocidade. Aos poucos, o motorista procurou um espaço junto ao meio-fio e estacionou. Desligou o motor, apoiou as mãos no volante e ficou sério. Os olhos dele ficaram marejados, e o queixo tremeu de um jeito que ele tentava esconder e não conseguia.

— Que foi, bicha? — ela perguntou, já recuperando a postura. — Deixa vir, vai. Chora que hidrata.

— Cala a boca, sua idiota. Quase a gente morre. — Ele fungou.

— Calma, bicha, talvez a senhora só seja exagerada, dramática.

— E você é uma palhaça.

— Tá, foi mal.

Ele limpou o canto do olho com o dorso da mão e, como quem recupera a dignidade a tapa, voltou a falar no tom de discurso.

— Que tu quer, hein, viado? Que absurdo é esse, gay assaltante? Esse país tá virando uma palhaçada mesmo. Onde foram parar as gays esforçadas, que foram subestimadas a vida inteira pelos pais e, de tanto trauma, passaram a vida inteira batalhando pra provar que os pais tavam errados?

Ela revirou os olhos, ainda com o coração na boca.

— Viado, isso é coisa de millennial. Eu sou geração Z, ninguém quer provar nada, não. A gente só quer sobreviver ao fim do mundo. E gozar também.

Ele a encarou por um momento, tentando encaixar as peças.

— Mãnium, afinal tu é ativo ou passivo? Eu tô mais confuso do que nunca...

— Ah, depende do parceiro.

— Ai, tira logo a roupa, que eu conheço essa conversa.

— Sim, eu não mereço nem um motel?

— Tu merece é bala.

— Não, esse era eu.

— Eu já me perdi no personagem.

E foi aí que o motorista fez uma coisa que nenhum motorista de história faz. Levantou o rosto para o teto solar do carro, como quem fala com alguém que está bem acima da cena, e perguntou:

— Ô escritor? A gente é versátil, né? Confirma aí.

Lá fora, na vida real, o escritor parou de digitar.

Ficou um tempo olhando para a tela, com os dedos suspensos sobre o teclado. Releu as últimas linhas, coçou a cabeça e soltou o ar pelo nariz, entre o riso e a vergonha. Os dois ali, parados num carro com o motor desligado numa Av. Torquato Tapajós que só existe na imaginação, perdidos no próprio enredo, e ele sabia que a culpa era dele. Tinha começado um assalto, passado por um surto de motorista e uma crise de identidade, e agora os personagens pediam socorro.

Pensou em deixar os dois no motel. Seria o final mais fácil, e talvez o mais previsível. Pensou também em deixá-los ali, discutindo para sempre dentro do carro, e achou dramático demais. Então olhou para ela, a magrinha, a ladra de arma de brinquedo, que tinha entrado naquele carro achando que era esperta, e decidiu que quem rouba com brinquedo merece um castigo do tamanho da brincadeira.

Voltou a digitar.

— Mano, a gente já se passou. E a senhora tem cara de gay sigiloso que nunca ficaria comigo mesmo — ela disse, soltando o cinto de segurança. — Me deixa ali na parada de ônibus.

O carro seguiu devagar, sem pressa nenhuma, e foi deixando-a na calçada, junto a uma parada de ônibus vazia e muito mal iluminada. Ela se virou para o aplicativo para ver os horários dos ônibus, leu, releu e sentiu o estômago afundar.

— Meu Deus, já passou o último ônibus! E agora? Eu tô sem minha carteirinha e sem a arma de brinquedo! Puta merda!

As lanternas vermelhas do carro ainda estavam ali, a poucos metros. Ela não pensou, e saiu correndo atrás, com a camisa ainda levantada, a mochila batendo nas costas e as pernas magras tentando alcançar o que já estava longe.

— Bicha, eu não tenho dinheiro pra ir pra casa, socorro!

O carro dobrou a esquina e sumiu. A rua ficou vazia e a noite escureceu de vez. Em algum lugar, o escritor deu um sorriso cansado, salvou o arquivo e fechou a tela.

Fim.

Leve e de presença

Nunca mais tinha me sentido assim: normalidade de rotina. Eduardo me faz sentir bem em relação a mim mesmo e em relação a ele. É leve, sem anulação. Ele não me pediu nada, mas sei de suas expectativas. Eu também não pedi nada, e sei oscilar entre o real e o ideal. Não tenho altas expectativas; tenho expectativas reais.

Gosto do garoto que me traz sorvete, traz o milho pra pipoca e entra em casa cantando a música da Vanessa da Mata, que ouviu uma única vez e salvou na playlist para aprender e ter assunto comigo. Acho-o atencioso, dedicado. Como pode um homem de 1,87 m, tão grande, ser tão doce nos gestos? Tem sido realmente leve: sem longos diálogos, sem explicações exaustivas. Temos apenas passado as horas juntos, vivendo o momento.

Ontem, ele saía do banheiro quando eu passei pela sala e o assustei, um sustinho comedido e educado. Riu, abrindo os lábios bem marcados e mostrando os dentes com ar de menino sapeca. Pediu desculpas, e eu, naturalmente, sorri de volta:

— Que foi, menino? Eu moro aqui.

Isso lhe arrancou uma gargalhada frouxa e espontânea.

Passa longos momentos acariciando meus cabelos, me olhando com olhar de pidão. Da última vez, dormiu com o braço por cima da minha perna, exausto de tanto êxtase por estar ali. Me faz bem esse querer estar presente sem nos sufocar. Ele não vive o tempo inteiro ao meu lado e é compreensivo quando digo que não pode vir em determinado dia. Não retruca; diz que sente minha falta e que vai guardar um abraço para o dia seguinte.

Gosto de ver esse meninão com seu pau enorme balançando pela casa. Está sempre preocupado com o que quero comer. "Feijão e bife hoje? Que tal purê também? É rápido, amor, não dá trabalho." Nada para ele dá trabalho. Tem aquela agonia virginiana, que já comentei antes, de querer estar sempre organizando tudo, mas não é chato nem exigente. Não me pede nada; vem sempre de ônibus, para economizar - explica.

Chega sempre com muito desejo, que não diminui após o sexo. Mas ele me dá a opção de dizer não, o que eu nunca disse, mas é justamente isso que me satisfaz: saber que posso dizer não sem gerar dúvidas ou suspeitas. Gosto da forma como ele me olha, como se eu fosse um bife suculento sendo despejado no prato toda vez que me joga na cama. Olha-me como um cachorrinho que se perdeu da mãe, pedindo colo com os olhos, mas sem ser evasivo. Diz sempre um par de palavras bonitas com sua voz calma e vai repousar no meu peito.

Tem sido bom para ele e para mim. Tem sido exatamente no formato deste texto: sem expectativas, leve e de presença.

Obrigado Dudu.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Textão besta

Textão besta, Lucas. Já diria WW: que reflexão o quê, a gente quer é gozar, menino. Gozar!

Que besteira é essa de que eu fui muito rápido em te beijar no primeiro date? Dizendo que entende, mas cheio de moralismo hétero-cristão, que a sociedade é assim, que é tudo muito rápido, apressado, a modernidade é líquida, ai, que não me relis! Que apressado o caralho. Ain't nobody got time for that. Toda essa leseira pra, em seguida, já lançar "ainda me peguei pensando: 'ele não tá invadindo meu espaço?'... mas eu tava amando... principalmente sua forma de beijar... caralho, que delícia". Ô, porra, qual foi da contradição? Você se decida, por favor. Tu gostou, mas o teu moralismo te culpou? E onde é que eu entro nisso? Porque o poder de adivinhação tá pouco. Você já tem 26 anos e poderia ter comunicado que não queria daquela forma. Não queria? Ou queria? E olha, reclamações, dúvidas e elogios direto com o SAC.

Você está com sorte porque queria vir pra minha casa provar o puro suco do paizinho e eu não deixei, porque sabia que ia te comer só pra te usar e deixar interessado em mim. Mas assim já é demais: eu tô tentando melhorar como ser humano e, pra mim, isso foi um gesto de cuidado contigo. Mas é exatamente por isso que eu tô te enrolando pra um segundo date o mês inteiro. Eu não tô com saco pra ladainha. Não quero saber de reflexão de antropólogo que não sabe se desligar num rolê. Tu tava era bêbado e com tesão, caralho. Imagina se eu ia ficar citando Paul Claval e Éric Dardel pra ti ali naquela calçada imunda, fedendo a mijo? Não fode! Ou fode, sei lá. E que papo é esse de discussão de evolucionismo dentro da antropologia? Eu sempre achei vocês peculiares, mas eu já tô pegando ranço.

E vem me falar de trauma? Meu parceirinho, todo mundo tá traumatizado. Não sobrou ninguém bom da cabeça com o fim das eleições se aproximando. Sorry, amor, não tem gostosura que faça o meu pau levantar agora com essa bichice de autoconhecimento. Eu sou geógrafo; se tu quiser continuar discutindo sobre Lugar e me dar um mamadão, eu recebo, sabe. Eu não quero ser seu confidente nem quero passar o dia inteiro batendo papo. Você é lindinho demais, mas eu queria mesmo que você ficasse de quatro e calasse a boca. O seu problema é esse: você fala demais. Óbvio que você nunca namorou: chatinho desse jeito, ninguém aguenta. Até Guilherme Arantes concordaria que é muita loucura pra pouca aventura.

Então, meu amiguinho, a minha construção de mundo também é diferente. Óbvio que você quer continuar ficando, mas é muita burocracia, é de foder, viu... E eu não quero falar de sentimento, futuro e construção. Eu não quero ficar pisando em ovos só pra poder meter em você. Sim, estou ciente; esse aqui também acabou virando um textão besta, mas só porque a hipocrisia é sempre muito elegante e ajuda a compor narrativa.

E não, não vai ter cinema nenhum. Se pá, nós se tromba nas melhores revoadas.

Next.

I cried for you on the kitchen floor

Lavando a louça com fones de ouvido ligados bem alto em qualquer playlist aleatória para não ter que escolher. Sempre enrolo o máximo que posso ao lavar louça porque é um trabalho mecânico e não exige pensar demais. E faço isso por pura enganação, porque é quando mais reflito.

Lembrei que Papai me avisara mais cedo que estava voltando a Manaus porque precisava resolver um problema que tinha aparecido em cima da hora. Imaginei o que teria que responder quando ele perguntasse “Cadê o rapaz lá?”. Papai tem sido generoso depois de todos esses anos distantes. Segura os próprios preconceitos para mostrar interesse no que é importante pra mim. “Não deu certo, pai”. E não saberia o que mais falar para evitar dizer algo que me deixasse com a alma desnuda ali na frente dele. Nunca fomos de conversar sobre sentimentos ou sobre nossas vulnerabilidades. Não saberia prever o resultado agora.

Escorreu uma lágrima rasa pela borda de um dos olhos e ignorei. Não quis dar margem agora a uma saudade batida ou à imaginação de como teria sido uma última conversa. “Nós somos pessoas boas, pena que não funcionou. Gosto de você; é realmente uma pena eu não ter condições de seguir. Acho até um pouco cômico terminar pelo motivo que eu aceitei e sustentei durante todos esses meses…”.

E mesmo não querendo remexer em algo já revirado, quando percebi, já era tarde. Desliguei a água da torneira, que eu já encarava aberta havia não sei quanto tempo. Por um pequeno momento tentei não me render; foi mais forte. Comecei a chorar e a soluçar até ficar sem forças e ser obrigado a me sentar ali, no meio da cozinha, enquanto as lágrimas saltavam como suicidas já sem talento.

Me lamentei porque queria mesmo uma família. A minha família. Tenho fantasiado há anos com a ideia de ser o chefe de família, de encontrar meu marido na hora do almoço, apressadíssimos, para comer juntos e contar como foi a manhã no trabalho; de lhe dizer que senti sua falta, que escrevi um pequeno coração com seu nome enquanto anotava coisas do trabalho.

Tenho visto minha habilidade de construir e materializar esse desejo se esvair pelo ralo. Não restou nada, de novo. Murmurei palavras que queria ter dito ao olhar para as duas cadeiras da mesa da cozinha; a lembrança dele e de mim sentados ali conversando sobre alguma besteira.

Inevitavelmente acabei me cansando de chorar e achei tudo muito luxuoso e confortável: estar assim sentado no chão da cozinha, podendo chorar sossegado até ficar entediado. O que significa que, de algum modo, eu construí a estrutura, e isso já é um grande passo. Pensei em ligar para o meu irmão nessa nova crise de choro, mas não tinha sobrado muito para esvaziar.

E a louça não podia amanhecer ali ensaboada, não faria sentido, e amanhã cedo eu tenho dois compromissos importantes. Lavei, guardei e sacudi a poeira. Me arrastei até a cama e estou me obrigando a dormir porque a dor é real, mas ainda existe o amanhã, e eu já sou crescidinho.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Uma confusão do caralho

Me curar é o caralho, eu quero é devolver a esculhambação. "Ah, Breno, mas deixa isso pra lá. Nada do que você falar vai adiantar. Nada que você diga vai mudar o pensamento desse cara." Mas quem disse que só me adianta se eu mudar o pensamento dele? Porque, pra mim, devolver a raiva pra pessoa já vai me adiantar muito. É relevando que a gente deixa ir passando de mão em mão um monte de gente safada. Mas não no meu turno.

***

Como expliquei no texto passado, o ex do Eduardo tem me stalkeado, para não dizer o que de fato é: perseguição. Criou contas fake, conseguiu meu número; eu tentei lhe dar um pouco de tranquilidade, apaziguar. Falei ainda um tempo sobre a necessidade de cuidar da saúde mental e indiquei o hospital psiquiátrico para urgência, para lhe trazer algum alívio, para lhe dar condições de dormir à noite. Cheguei a me compadecer; ele estava tão furioso, tão angustiado, que pensei até em acompanhá-lo. Acredita nisso, leitor? Uma puta velha de beira de estrada mostrando compaixão por um desconhecido. Aliás, isso é exatamente o que uma faria. Em outros termos, claro.

Disse a ele apenas que estaria online se ele quisesse conversar enquanto aguardava atendimento. Mexeu comigo também aquilo. Eu já estive nesse lugar, material e metafórico. Imaginei como ele deveria estar, sozinho lá, numa noite de desamparo. Escrevi como ele deveria comunicar seus sintomas ao médico, falei da necessidade de sair de lá com receita e ir direto para a farmácia começar o tratamento. Ele agradeceu, disse que não entendia por que eu estava sendo tão legal, que desejava me conhecer, que não acreditava que Eduardo merecesse alguém tão maravilhoso, e eu não dei confiança. Conheço Eduardo de outros carnavais e, o mais importante, eu me conheço. Sei que Eduardo é inofensivo se comparado comigo.

Passei o dia seguinte sem responder a ele. À noite, reparei numa nova conta fake tentando me seguir no X; perguntei ao Eduardo, que já me respondeu com: "Precisamos conversar. Preciso saber se você está sendo sincero comigo. O fulano me disse que você falou coisas horríveis a meu respeito...". Acredite se quiser: a meretriz foi dizer pro meu twink favorito que eu o tinha cortejado e almejava conceder. Tal heresia não procedia! Fogueira na bicha!

Retomei o diálogo com o fulano escaralhando: "Você mexeu com a puta errada. Você pisou na bola com uma pessoa que estava tentando te ajudar". E ele, voltando ao personagem original, disse que não entendia por que eu tinha tentado ajudá-lo, que achava que era encenação para rir dele junto com Eduardo, que havia mentido mesmo, a fim de conseguir que o twink me odiasse, sem sucesso. E o estimado leitor sabe que não há nada que eu desejasse mais do que encontrar um homem traumatizado para mostrar que não existe nada tão ruim que eu não possa fazer piorar.

— Então você se fodeu. Porque eu vou chamar o Eduardo pra vir à minha casa agora, e ele vai vir, viu? E eu vou meter nele xingando você. Um abraço.

E assim o fiz. Eduardo mal tinha cruzado a porta de casa quando lancei um beijo nele, registrei em foto e mandei para o desgraçado, que não se aguentou. Teve um faniquito, envolveu a mãe dele, doente, que teve um siricutico, e passou a me mandar mensagens também, tentando entrar em conflito, veja só, com quem?

Oh, yeah! Go get Marvin! See if Marvin can make a banana split for me, you fucking cunt! Bye, Marvin!

The End of the Fucking World

Bloqueei os dois. Entrou uma tia de Eduardo me mandando mensagem, agradecendo, enumerando tudo que eu tinha feito por ele e pedindo que eu ignorasse o outro babaca lá, pois ela o conhecia e sabia que ele não tinha razão. 

— Tu não se vingou, né? — perguntou meu psicólogo.

— Como assim, não me vinguei?

— As tuas vinganças são bobas; tu manda o cara pro lugar certo pra cuidar do problema que é só dele e tu acha que se vingou? Tu ainda é tão bobo que se sente culpado.

Tive que concordar. Cinismo enraizado, entalado na garganta, e tive que concordar sim, porque eu sempre estou empurrando as pessoas para o lugar onde deveriam estar. Mesmo assim, de alguma forma, eu sempre estou na cena do crime, a contragosto.

É, pra viver tem que ter peito pra vida, minha filha, é babado. Vambora.


Shhhh
you have to get really quiet so you can hear me when I say this:
trying to teach me a lesson is exactly how you gonna learn one.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Quitado

Estava sentado durante a manhã, lendo com calma no meu escritório, quando chegou uma mensagem de última hora, com toda a urgência do mundo: a pessoa se apresentava, me chamava de amigo e perguntava se podia me ligar. Não sabia quem era, mas percebi que tinha o mesmo nome e sobrenome de quem já havia me enviado, duas vezes nos últimos dias, solicitação para seguir no Instagram. Comentei com Eduardo, que estava sentado ao meu lado, preparando-se para uma prova com seus textos de psicologia. Ele abriu os olhos de repente e pediu que eu não respondesse; disse que podia explicar e começou a ficar nervoso. Perguntei se tinha algo a me contar e ele puxou imediatamente o celular, como quem se entrega ao delegado, mostrando inúmeras mensagens de meses atrás em que dizia ao ex que não o queria mais e que não o procurasse.

Voltei ao computador e dei bom dia; perguntei onde a pessoa havia conseguido meu número. Ele disse que não podia contar, e mais tarde descobri que, como minha dívida é cármica, o bendito desiludido ex de Eduardo é vizinho do Tonton, meu ex-namorado. As irmãs do Ton, muito amigas, talvez lhe tivessem dado o telefone com as intenções mais requintadas de boa-fé. Até aqui, tudo está tão confuso para mim quanto para o leitor.

O ex disse que precisava me ligar para alertar sobre Eduardo: que o relacionamento dos dois havia sido horrível, que não o recomendava, que eu o atirasse à rua enquanto era tempo e que não achava justo que falasse mal dele para todos. Interrompi com pouquíssima paciência, mas ainda em tom amigável, perguntando qual o preço que aquilo tudo havia cobrado de suas emoções. Ele seguiu dizendo que ia falar com a família de Eduardo, porque aquilo não estava certo, e que ia resolver tudo... Chamei-o à consciência: é disso que não anseio interar-me de modo algum. Como pode, meses após o fim de um relacionamento ruim, alguém ainda sentir tanta fúria e angústia, fazendo um drama tão apoteótico?

Não teve jeito. Ele estava tomado por uma personalidade de vingança, de que as coisas haviam acabado sem resolução, sem que a dívida emocional lhe tivesse sido paga até o último centavo. Tentou de novo: "Mas você sabe realmente quem sou eu? Estamos falando da mesma pessoa?", ao que respondi: "Acho que você não percebeu o que está fazendo." E ainda pretendes convocar-me ao diálogo? É teu papel zelar pela tua experiência.

Disse a ele que, supondo que sua investida desse certo e eu jogasse Eduardo no mato e o amaldiçoasse para sempre, e daí? Essa bravata de Dom Quixote ia continuar até quando? Ele alertaria o próximo rapaz por quem Eduardo se interessasse? E o seguinte também? Expliquei que é assim mesmo: não controlamos o que os outros dizem ou sentem, e a narrativa sempre puxa para o lado de quem a conta. Disse que ele não precisava da minha validação, que dormisse sossegado naquela noite, porque eu jamais julgaria alguém que não conheço e não faria esforço para me lembrar dele no dia seguinte. Fui infeliz, mas tive que dizer que o problema não era comigo: Eduardo não o queria mais, havia meses. E que, se ele havia escolhido permanecer num relacionamento ruim, isso fora ação, fora decisão; agora teria de amargar suas emoções e assumir a tarefa de se curar. E ainda assim ele se compraz? O ônus é dele.

Não teve jeito mesmo. Tudo isso para o pobre rapaz, no final, desabar em súplica: "Deixa ele pra mim. Eu só tenho ele. Nós erramos, mas eu o amo, tenho medo de viver sem ele." E eu, acostumado a exercitar meu coração de gelo de professor que não arredonda 2,5 para 6, apenas respondi: "Você teve. E agora é o momento de seguir em frente." E larguei o pobre diabo falando sozinho, tal qual teria feito Sancho Pança. 

Olhei para o lado: Eduardo pressionava com a mão o enorme pau dentro do short fino de academia que eu lhe havia emprestado. Perguntei o que significava tamanha falta de respeito com um escritório sempre tão bem frequentado, e ouvi que ele havia ficado excitado me vendo defendê-lo. Eu não estava defendendo nada, estava silenciando um ruído. O pau babado de Eduardo, do tamanho da idade dele, não se continha dentro do short, e ele soltou um “quero te comer”, e eu achei que aquela homenagem era, de alguma forma, o saldo positivo de alguma dívida, agora por mim quitada.

Ainda tentei "se quiser posso me higienizar a contento". Não deu tempo sequer de beijá-lo. Ele mandou que eu ficasse de quatro na cadeira e aguentasse, pois ali me faria ser seu homem. Tive que ser homem mesmo. Fechei as cortinas e segurei os braços da cadeira como um fiel segura um terço, para o mesmo propósito: pedir clemência e que, embora prazerosa, aquela barra de ferro saísse logo de dentro de mim. Não adianta: nunca vou me acostumar com homens dotados. Após gozar falta lógica, insensatez.

E a manhã terminou assim, com Eduardo deitado ao meu lado, me olhando fixo, o sorriso safado se desfazendo enquanto prometia fazer um bolo de chocolate à noite, como recompensa. E a moral da história: enquanto alguns choram, outros vendem lenço.

domingo, 18 de outubro de 2026

Dias comuns

Tinha transitado fortemente entre humor depressivo e euforia. Oscilado? Vou ficar com "transitado", para deixar mais amplo na interpretação. Às vezes bons dias, às vezes maus dias. Tinha chegado a acreditar que estava numa espiral de depressão de verdade e duvidei da minha capacidade de lidar com os meus problemas e com as minhas emoções. Senti medo, principalmente de voltar à fase aguda, que remetia lá a 2021, 2022.

Neste fim de semana comecei a suspeitar que não, porque não lembro exatamente como era estar no fundo do poço. E isso é bom. Eu só sei que era um sentimento desolador, de estagnação profunda. E eu não estou assim agora; estou mais lento, verdade, ainda não voltei ao ritmo que sei que consigo. Mas para que também essa pressa, essa urgência, essa performance toda? Se a vida é só minha, estou competindo com quem? Pour un dernier frisson, ou pour un dernier geste (Carla Bruni).

Reparei que tenho sido bem funcional, até. Tenho feito planos, tenho executado alguns; não fazia isso quando estava com depressão. Sentei para escrever pensando que tenho sido esperançoso quanto a um futuro melhor, que vem logo mais aí. Pausa. Começou a tocar Chico Buarque: "E que venho até remoçando, me pego cantando, sem mais nem porquê...". Voltei à concentração lembrando que tive vontade de retomar a natação. Não liguei ainda lá porque sou preguiçoso, mas é tão perto de casa, no bairro ao lado, que talvez fosse bom.

Na semana passada revisei dois artigos e os enviei para eventos que acontecerão em breve. E no fim do mês saem os anais de um evento onde está publicado um novo resumo meu. Fiquei orgulhoso do resultado desses trabalhos. Tenho escrito minha qualificação e avaliado se é melhor ir a campo ou tirar uns 30 dias de férias. Férias mesmo, em janeiro: o sol ardendo na pele e o mar. Outro dia fui acometido por um sentimento e por uma frase que me saltou à mente, "eu tenho muito orgulho de mim", e até a anotei aqui na lousa. E é difícil eu comemorar as pequenas vitórias; comemorei estas. Só tenho o costume de comemorar as grandes e monumentais vitórias, para logo em seguida a emoção cair e eu achar que tanto faz; o próximo passo merece logo ser perseguido.

Tenho me permitido fazer as coisas no meu tempo: mais lento, mas funcional. Tenho gostado de andar pelo meu apartamento. Gosto de olhar as minhas coisas, de sentir o alívio que elas me trazem. Era tudo tão distante; eu dizia "quando eu vencer…" e nem reparei quando venci. A gente tem todo esse imaginário de que o dia em que vencer será extraordinário, as pessoas estarão ao redor para estourar um champanhe, haverá palmas, uma festa bonita, e a verdade é que a vitória passa por um dia comum. Foi mais um dia comum e eu não percebi. E foram vários dias comuns na minha vida, sucessivamente. Um amontoado de dias bons que eu não valorizei me trouxe até aqui, até este apartamento, sozinho, realizado e bem.

Não tenho notado o espaço entre as coisas; tem ficado tudo, cada coisa, exatamente onde deveria estar. Isso me traz calma, me traz alívio. Não consigo pôr em palavras a intensidade da graça que é levantar, fazer um café, voltar para o meu escritório e estudar com calma, em silêncio. São tantas microssensações que esbarram na única definição possível: seguro. Eu finalmente estou seguro. E é difícil explicar o quanto isso me deixa feliz e me agrada. A completude, talvez por isso: bastar.