terça-feira, 20 de outubro de 2026

Uma confusão do caralho

Me curar é o caralho, eu quero é devolver a esculhambação. "Ah, Breno, mas deixa isso pra lá. Nada do que você falar vai adiantar. Nada que você diga vai mudar o pensamento desse cara." Mas quem disse que só me adianta se eu mudar o pensamento dele? Porque, pra mim, devolver a raiva pra pessoa já vai me adiantar muito. É relevando que a gente deixa ir passando de mão em mão um monte de gente safada. Mas não no meu turno.

***

Como expliquei no texto passado, o ex do Eduardo tem me stalkeado, para não dizer o que de fato é: perseguição. Criou contas fake, conseguiu meu número; eu tentei lhe dar um pouco de tranquilidade, apaziguar. Falei ainda um tempo sobre a necessidade de cuidar da saúde mental e indiquei o hospital psiquiátrico para urgência, para lhe trazer algum alívio, para lhe dar condições de dormir à noite. Cheguei a me compadecer; ele estava tão furioso, tão angustiado, que pensei até em acompanhá-lo. Acredita nisso, leitor? Uma puta velha de beira de estrada mostrando compaixão por um desconhecido. Aliás, isso é exatamente o que uma faria. Em outros termos, claro.

Disse a ele apenas que estaria online se ele quisesse conversar enquanto aguardava atendimento. Mexeu comigo também aquilo. Eu já estive nesse lugar, material e metafórico. Imaginei como ele deveria estar, sozinho lá, numa noite de desamparo. Escrevi como ele deveria comunicar seus sintomas ao médico, falei da necessidade de sair de lá com receita e ir direto para a farmácia começar o tratamento. Ele agradeceu, disse que não entendia por que eu estava sendo tão legal, que desejava me conhecer, que não acreditava que Eduardo merecesse alguém tão maravilhoso, e eu não dei confiança. Conheço Eduardo de outros carnavais e, o mais importante, eu me conheço. Sei que Eduardo é inofensivo se comparado comigo.

Passei o dia seguinte sem responder a ele. À noite, reparei numa nova conta fake tentando me seguir no X; perguntei ao Eduardo, que já me respondeu com: "Precisamos conversar. Preciso saber se você está sendo sincero comigo. O fulano me disse que você falou coisas horríveis a meu respeito...". Acredite se quiser: a meretriz foi dizer pro meu twink favorito que eu o tinha cortejado e almejava conceder. Tal heresia não procedia! Fogueira na bicha!

Retomei o diálogo com o fulano escaralhando: "Você mexeu com a puta errada. Você pisou na bola com uma pessoa que estava tentando te ajudar". E ele, voltando ao personagem original, disse que não entendia por que eu tinha tentado ajudá-lo, que achava que era encenação para rir dele junto com Eduardo, que havia mentido mesmo, a fim de conseguir que o twink me odiasse, sem sucesso. E o estimado leitor sabe que não há nada que eu desejasse mais do que encontrar um homem traumatizado para mostrar que não existe nada tão ruim que eu não possa fazer piorar.

— Então você se fodeu. Porque eu vou chamar o Eduardo pra vir à minha casa agora, e ele vai vir, viu? E eu vou meter nele xingando você. Um abraço.

E assim o fiz. Eduardo mal tinha cruzado a porta de casa quando lancei um beijo nele, registrei em foto e mandei para o desgraçado, que não se aguentou. Teve um faniquito, envolveu a mãe dele, doente, que teve um siricutico, e passou a me mandar mensagens também, tentando entrar em conflito, veja só, com quem?

Oh, yeah! Go get Marvin! See if Marvin can make a banana split for me, you fucking cunt! Bye, Marvin!

The End of the Fucking World

Bloqueei os dois. Entrou uma tia de Eduardo me mandando mensagem, agradecendo, enumerando tudo que eu tinha feito por ele e pedindo que eu ignorasse o outro babaca lá, pois ela o conhecia e sabia que ele não tinha razão. 

— Tu não se vingou, né? — perguntou meu psicólogo.

— Como assim, não me vinguei?

— As tuas vinganças são bobas; tu manda o cara pro lugar certo pra cuidar do problema que é só dele e tu acha que se vingou? Tu ainda é tão bobo que se sente culpado.

Tive que concordar. Cinismo enraizado, entalado na garganta, e tive que concordar sim, porque eu sempre estou empurrando as pessoas para o lugar onde deveriam estar. Mesmo assim, de alguma forma, eu sempre estou na cena do crime, a contragosto.

É, pra viver tem que ter peito pra vida, minha filha, é babado. Vambora.


Shhhh
you have to get really quiet so you can hear me when I say this:
trying to teach me a lesson is exactly how you gonna learn one.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Quitado

Estava sentado durante a manhã, lendo com calma no meu escritório, quando chegou uma mensagem de última hora, com toda a urgência do mundo: a pessoa se apresentava, me chamava de amigo e perguntava se podia me ligar. Não sabia quem era, mas percebi que tinha o mesmo nome e sobrenome de quem já havia me enviado, duas vezes nos últimos dias, solicitação para seguir no Instagram. Comentei com Eduardo, que estava sentado ao meu lado, preparando-se para uma prova com seus textos de psicologia. Ele abriu os olhos de repente e pediu que eu não respondesse; disse que podia explicar e começou a ficar nervoso. Perguntei se tinha algo a me contar e ele puxou imediatamente o celular, como quem se entrega ao delegado, mostrando inúmeras mensagens de meses atrás em que dizia ao ex que não o queria mais e que não o procurasse.

Voltei ao computador e dei bom dia; perguntei onde a pessoa havia conseguido meu número. Ele disse que não podia contar, e mais tarde descobri que, como minha dívida é cármica, o bendito desiludido ex de Eduardo é vizinho do Tonton, meu ex-namorado. As irmãs do Ton, muito amigas, talvez lhe tivessem dado o telefone com as intenções mais requintadas de boa-fé. Até aqui, tudo está tão confuso para mim quanto para o leitor.

O ex disse que precisava me ligar para alertar sobre Eduardo: que o relacionamento dos dois havia sido horrível, que não o recomendava, que eu o atirasse à rua enquanto era tempo e que não achava justo que falasse mal dele para todos. Interrompi com pouquíssima paciência, mas ainda em tom amigável, perguntando qual o preço que aquilo tudo havia cobrado de suas emoções. Ele seguiu dizendo que ia falar com a família de Eduardo, porque aquilo não estava certo, e que ia resolver tudo... Chamei-o à consciência: é disso que não anseio interar-me de modo algum. Como pode, meses após o fim de um relacionamento ruim, alguém ainda sentir tanta fúria e angústia, fazendo um drama tão apoteótico?

Não teve jeito. Ele estava tomado por uma personalidade de vingança, de que as coisas haviam acabado sem resolução, sem que a dívida emocional lhe tivesse sido paga até o último centavo. Tentou de novo: "Mas você sabe realmente quem sou eu? Estamos falando da mesma pessoa?", ao que respondi: "Acho que você não percebeu o que está fazendo." E ainda pretendes convocar-me ao diálogo? É teu papel zelar pela tua experiência.

Disse a ele que, supondo que sua investida desse certo e eu jogasse Eduardo no mato e o amaldiçoasse para sempre, e daí? Essa bravata de Dom Quixote ia continuar até quando? Ele alertaria o próximo rapaz por quem Eduardo se interessasse? E o seguinte também? Expliquei que é assim mesmo: não controlamos o que os outros dizem ou sentem, e a narrativa sempre puxa para o lado de quem a conta. Disse que ele não precisava da minha validação, que dormisse sossegado naquela noite, porque eu jamais julgaria alguém que não conheço e não faria esforço para me lembrar dele no dia seguinte. Fui infeliz, mas tive que dizer que o problema não era comigo: Eduardo não o queria mais, havia meses. E que, se ele havia escolhido permanecer num relacionamento ruim, isso fora ação, fora decisão; agora teria de amargar suas emoções e assumir a tarefa de se curar. E ainda assim ele se compraz? O ônus é dele.

Não teve jeito mesmo. Tudo isso para o pobre rapaz, no final, desabar em súplica: "Deixa ele pra mim. Eu só tenho ele. Nós erramos, mas eu o amo, tenho medo de viver sem ele." E eu, acostumado a exercitar meu coração de gelo de professor que não arredonda 2,5 para 6, apenas respondi: "Você teve. E agora é o momento de seguir em frente." E larguei o pobre diabo falando sozinho, tal qual teria feito Sancho Pança. 

Olhei para o lado: Eduardo pressionava com a mão o enorme pau dentro do short fino de academia que eu lhe havia emprestado. Perguntei o que significava tamanha falta de respeito com um escritório sempre tão bem frequentado, e ouvi que ele havia ficado excitado me vendo defendê-lo. Eu não estava defendendo nada, estava silenciando um ruído. O pau babado de Eduardo, do tamanho da idade dele, não se continha dentro do short, e ele soltou um “quero te comer”, e eu achei que aquela homenagem era, de alguma forma, o saldo positivo de alguma dívida, agora por mim quitada.

Ainda tentei "se quiser posso me higienizar a contento". Não deu tempo sequer de beijá-lo. Ele mandou que eu ficasse de quatro na cadeira e aguentasse, pois ali me faria ser seu homem. Tive que ser homem mesmo. Fechei as cortinas e segurei os braços da cadeira como um fiel segura um terço, para o mesmo propósito: pedir clemência e que, embora prazerosa, aquela barra de ferro saísse logo de dentro de mim. Não adianta: nunca vou me acostumar com homens dotados. Após gozar falta lógica, insensatez.

E a manhã terminou assim, com Eduardo deitado ao meu lado, me olhando fixo, o sorriso safado se desfazendo enquanto prometia fazer um bolo de chocolate à noite, como recompensa. E a moral da história: enquanto alguns choram, outros vendem lenço.

domingo, 18 de outubro de 2026

Dias comuns

Tinha transitado fortemente entre humor depressivo e euforia. Oscilado? Vou ficar com "transitado", para deixar mais amplo na interpretação. Às vezes bons dias, às vezes maus dias. Tinha chegado a acreditar que estava numa espiral de depressão de verdade e duvidei da minha capacidade de lidar com os meus problemas e com as minhas emoções. Senti medo, principalmente de voltar à fase aguda, que remetia lá a 2021, 2022.

Neste fim de semana comecei a suspeitar que não, porque não lembro exatamente como era estar no fundo do poço. E isso é bom. Eu só sei que era um sentimento desolador, de estagnação profunda. E eu não estou assim agora; estou mais lento, verdade, ainda não voltei ao ritmo que sei que consigo. Mas para que também essa pressa, essa urgência, essa performance toda? Se a vida é só minha, estou competindo com quem? Pour un dernier frisson, ou pour un dernier geste (Carla Bruni).

Reparei que tenho sido bem funcional, até. Tenho feito planos, tenho executado alguns; não fazia isso quando estava com depressão. Sentei para escrever pensando que tenho sido esperançoso quanto a um futuro melhor, que vem logo mais aí. Pausa. Começou a tocar Chico Buarque: "E que venho até remoçando, me pego cantando, sem mais nem porquê...". Voltei à concentração lembrando que tive vontade de retomar a natação. Não liguei ainda lá porque sou preguiçoso, mas é tão perto de casa, no bairro ao lado, que talvez fosse bom.

Na semana passada revisei dois artigos e os enviei para eventos que acontecerão em breve. E no fim do mês saem os anais de um evento onde está publicado um novo resumo meu. Fiquei orgulhoso do resultado desses trabalhos. Tenho escrito minha qualificação e avaliado se é melhor ir a campo ou tirar uns 30 dias de férias. Férias mesmo, em janeiro: o sol ardendo na pele e o mar. Outro dia fui acometido por um sentimento e por uma frase que me saltou à mente, "eu tenho muito orgulho de mim", e até a anotei aqui na lousa. E é difícil eu comemorar as pequenas vitórias; comemorei estas. Só tenho o costume de comemorar as grandes e monumentais vitórias, para logo em seguida a emoção cair e eu achar que tanto faz; o próximo passo merece logo ser perseguido.

Tenho me permitido fazer as coisas no meu tempo: mais lento, mas funcional. Tenho gostado de andar pelo meu apartamento. Gosto de olhar as minhas coisas, de sentir o alívio que elas me trazem. Era tudo tão distante; eu dizia "quando eu vencer…" e nem reparei quando venci. A gente tem todo esse imaginário de que o dia em que vencer será extraordinário, as pessoas estarão ao redor para estourar um champanhe, haverá palmas, uma festa bonita, e a verdade é que a vitória passa por um dia comum. Foi mais um dia comum e eu não percebi. E foram vários dias comuns na minha vida, sucessivamente. Um amontoado de dias bons que eu não valorizei me trouxe até aqui, até este apartamento, sozinho, realizado e bem.

Não tenho notado o espaço entre as coisas; tem ficado tudo, cada coisa, exatamente onde deveria estar. Isso me traz calma, me traz alívio. Não consigo pôr em palavras a intensidade da graça que é levantar, fazer um café, voltar para o meu escritório e estudar com calma, em silêncio. São tantas microssensações que esbarram na única definição possível: seguro. Eu finalmente estou seguro. E é difícil explicar o quanto isso me deixa feliz e me agrada. A completude, talvez por isso: bastar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

It's boys' night out

Sábado a gatinha Talisson, meu melhor amigo, veio pra cá. A fofinha ficou de vir cedo para instalar umas coisas (uma gradinha de pendurar fotos polaroid, um espelho de macumba que a Marie me deu), furar no lugar certo onde as molduras dos meus diplomas deveriam ficar e montar o suporte do monitor novo. Ficou tudo pronto. A gata chegou meio tarde, mas coitada, a fofolete trabalha no segundo turno; deixa a mana dormir mesmo. Me contou sobre os boys, sempre iludida por algum macho "hétero" que vá chegar e resolver a vida dela.

Repreendi em nome de Satanás.

Falei que minha filha está ficando com a autoestima muito baixa e que tá na hora de se valorizar. Até o peso argentino tem se valorizado mais que a fofura. Gatinha me falou de um boyzinho luxo do novo emprego com quem ela sequer tem coragem de trocar ideia, sendo que o menino está nitidamente desejando ela nua com uma maçã na boca.

Não reconheço essa puta. Essa aí não fui eu que criei, pode mandar de volta pra praça dela. Como assim não sabe ainda sequer a idade dele? Pegou uma chamada. Logo em seguida suavizei, porque ela tá finalmente dando moral para um boy advogado que, pelo que me contou, é uma bichona recém-assumida que tá a fim de troca-troca. Maricona que deixou a bonitinha PLAN-TA-DA no barzinho porque disse que precisava cuidar da filha. Brinquei que a gata tá a fim de ser madrasta. Desde quando homem cuida da filha sábado à noite? For me, that was weird. Anyway. Eu aos beijos com o meu mucilonzinho igualmente luxo e a outra com cara de velório, chateadíssima, digitando e scrollando pra lá sozinha. Dei de ombros, porque eu amo, eu que criei, mas eu não permito que filha minha seja feita de palhaça. Ficou lá no bar como quem fica de joelho no milho.

Eduardo, que de pau duro já sussurrava no meu ouvido que estava louco para me dar, apressou nossa vinda para casa. Não apressou mais ainda porque encontrei com Ingrid, uma amiga querida do passado com quem contracenei em Júlia, um curta que quase viu a luz do sol, não fosse o perfeccionismo da diretora cri-cri. Ingrid me contava que agora faz jiu-jítsu, que eu fui tudo pra ela naquela época, que ela se entregou pra preparação de elenco porque confiava em mim, mesmo quando eu colocava um saco na cabeça dela e saía arrastando-a pelo set de gravação (era parte do roteiro, fica aqui a defesa para o policial que estiver lendo esta crônica).

Adoro Ingrid, falamos mal do Paco, que era o único ator formado mesmo do elenco. Era um gostoso, fui apaixonado por ele, e ele era um babaca; se achava demais para findar não sendo absolutamente ninguém no cenário escasso do mercado de arte audiovisual desta cidade. Uma pena não levarem a cultura a sério como indústria. Ingrid falando que finalmente tinha sido diagnosticada com bipolaridade, que gastava rios de dinheiro em besteira, me mostrou uma Crocs que comprou por 600 reais. E quem quer ser fútil com um cigarro na mão e uma Crocs rosa no pé na Av. Igarapé de Manaus as 2 horas da manhã? Não conheço ninguém que se aproxime do exemplo igual aos que se sentam comigo. Aliás, quem me dera.

Corta para Eduardo quase me lambendo o rosto, uma veia do pescoço nitidamente saltando de tesão, e eu quase a fazer algo que realmente comprometesse este texto ali em público. Pedia baixinho: "me enche de porra, tô precisando da tua porra", para ter como resposta: "só se você prometer só tirar quando eu mandar".

Voltamos correndo para casa. Fui deixar o Talisson lá embaixo; volto e tem um twink louco dobrando roupas recém-tiradas da corda e jogadas no sofá, enquanto discutia com a Alexa por ela não tocar a música certa só porque a assinatura não está em dia. Um absurdo, essa Alexa, viu. Não se fazem mais assistentes como este, com TOC e mania virginiana de organização, às 3h30 da madrugada. Fiz ele largar tudo para já começarmos a transar no banheiro.

Um desespero gigantesco para terminar a porra deste banho.

Satanás, que aceito como meu senhor nessas horas, sabe que twinks são os melhores para render na cama. Não precisei ensinar quase nada: botou o pau na boca e ficou gemendo alto, delirando de tesão. Mal meti e ele já começou o escândalo silencioso: "Vai, meu paizinho, fode essa puta, me enche de porra, ai, caralho, que pica gostosa, isso, assim, com força mesmo, me bate? Por favor, me bate, eu mereço apanhar, eu sou tua puta". A parte que faltou eu fiz questão de ensinar porque ele fez por merecer: "fala que eu sou seu marido…". E ele, alegre e satisfeito, dava vida à fala para ganhar mais estocadas à medida que dizia: "Você é meu marido, eu te amo, você é minha vida, você é meu dono, nunca mais eu vou dar pra ninguém, amor, eu juro, só pra você. Só, por favor, me enche de leite".

E Satana, que se faz agora senhor de quem está excitado lendo isto, deu igualmente sustentação para aquele jovem de 20 anos esguichar porra por toda a cama enquanto eu colocava a mão na boca dele para conter os gritos de prazer - não quero pegar multa do condomínio, melhor evitar comoção. Dormimos violento, agarradinhos, depois disso.

Pense num menino que passou o dia me acariciando, cheio de afeto e desejo. Não comi de novo durante o dia; ficou o meu compromisso com o exigente freguês de que terá de voltar para tomar mais leite, com o registro no código do lote que começa com a sequência zp8yi. Tive que inventar que precisava estudar hoje para o bebezinho pegar seu rumo. Chegou em casa e fez mil declarações de amor por mensagem, do jeito que a clínica do Pedro espera me receber, relatando isso na semana que vem. E aconteceram tantas outras coisas neste fim de semana que triplicariam este relato sem foco, cuja função é apenas esta: registrar como processo.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Pai

Mês passado eu perdoei o meu pai. E ele me perdoou. Fazia 11 anos que não nos falávamos.

Eu me ressentia muito de tudo. Me ressentia das brigas, das cobranças, de não me sentir aceito, não sentir que era prestigiado. Me sentia preterido e rejeitado. Meu pai ficou surpreso de ouvir que eu sentia que ele não gostava de mim, doeu nele. Ele também pediu desculpas e me deu uma lição de humildade.

Ele compreendeu o meu sentimento e fez questão de explicar todos os motivos que perturbavam a vida dele naquela época e disse que não queria me contar o que estava acontecendo nos bastidores pra não me sobrecarregar. Alguns daqueles motivos eu conhecia, também não quis comentar que sabia para não invadi-lo.

Ele enumerou tudo que sentia, as coisas boas e não focou nas ruins. Ele foi o homem forte que eu conhecia e admirava. Disse sobre sua dor de saudade todos esses anos. E que sentia que era demais a minha reação em nunca ter voltado; que isso lhe fez mal. Ouvi, não rebati, só pedi pra explicar que não foi falta de vontade o regresso, foi falta de coragem.

Agradeci por ele ter sido paciente e receptivo. Ele agradeceu por eu ter voltado. E de lá pra cá estamos tendo cuidado um com o outro, estamos nos atualizando e revendo fases boas que tivemos juntos na vida.

Eu amo meu pai e hoje sei que ele me ama. Fico feliz que tenhamos tido oportunidade de resolver esse hiato com paz. Talvez isso signifique cura. E eu estou 100% disponível para isso.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Senta aqui, amigão

Sabe quando alguém pega um cachorro da rua e traz pra casa? Antes ele estava ali nas ruas, talvez tenha se familiarizado com o caos de alguma feira onde pelo menos encontrava os rejeitos, as sobras, o que ninguém quis, o que lhe fora dado por alguma clemência ou súplica, não chegava sequer a ser empatia. A feira se desfaz no fim do dia, ele ficava ali no relento, desprotegido, mas era o único lugar de sobrevivência onde ele conhecia para voltar. Ninguém via beleza nele, ninguém sequer o via. E ele usava dessa falta de atenção também como proteção. Sempre nas sombras, fugindo de ser notado. Então ele chega num lar, estranha o cheiro, vem por alguma promessa de ter sua necessidade de primeira ordem atendida. Já cansado, tão maltratado, um espaço fechado e de segurança não é reconhecível. Dá banho, comida, uma cama quentinha, carinho e uma coleira. No começo ele se espanta, acha que foi capturado. Fica acoado, esperando para atacar. Às vezes late por reflexo; sua memória é cheia de medo. Ainda vai à grade algumas vezes olhar a rua e fica dividido entre tentar fugir e dar uma chance ao novo. Daí você passa a mão na cabeça dele e ele não sabe o que sentir. Você passa a mão de novo e de novo. E ele sente que aquilo não é agressão. É simplesmente algo não sentido antes. E permite por estar em dúvida sobre o que significa; ainda sem entender ou retribuir. Até porque talvez uma mão em sua cabeça não tenha sido interpretada como carinho, mas como a lembrança da última vez que tentaram se aproximar dele para fazer o mal. Daí você dá comida, que é algo que ele sabe o que é e sempre foi uma necessidade. Você brinca e coloca um apelido carinhoso. Aos poucos ele percebe que não recebe mais chutes igual na rua. E ele chega perto para receber de novo o carinho passando pela cabeça dele. As orelhas abaixam. Os olhos ficam brilhando. E você para por um pouco. Continua vivendo sua vida e conversando com o cachorro com voz calma. Pergunta como foi o dia dele, que lembrou dele durante o trabalho e diz que sentiu saudades. Ele ainda sabe do trauma dele, mas percebe que você é diferente da maioria que passou por ele. Ele não sente mais necessidade de ficar alerta o tempo inteiro. Ele não rouba comida e sai correndo. Ele vai percebendo que vai ter sempre suas necessidades atendidas. E então ele consegue relaxar e dormir em segurança ao seu lado. Ele vai ficando calmo, brando. Dali a pouco ele já se joga no chão e mostra a barriga, desprotege os órgãos vitais porque você não é mais lido como ameaça à vida dele. Não gritam mais com ele. Ele não se espanta e corre ao perceber que alguém vem fazer mal a ele. Você chama ele em voz alta e ativa instantaneamente a felicidade nele em te ouvir. E ele aceita uma coleira. Ele se alegra agora de ser guiado, de sair na rua novamente porque é com você. Não é controle; ele antes não era de ninguém e agora é de alguém. Ele sabe que tem um vínculo com você. Finalmente ele pertence. Você está guiando, mas ele sabe que é por proteção. E aí ele não foge mais. Ele fica, entende o cuidado e o afeto. E retribui. Sempre esteve ali. Só nunca tinha sido ativado porque não tinha a pessoa certa para estimular. E às vezes tudo o que a gente precisa é disso: um pouco de paciência e amor. E quem decide cuidar também se transforma, aprende. Porque não há garantias, mas o amor, mesmo quando adormecido, floresce nos lugares mais improváveis. Esse é o nosso imperativo biológico.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Falta entender o porquê

Me apaixono sempre pelos mesmos meninos que já me rejeitaram.

Não diria que dói elaborar isso. Dói na primeira vez, aparece logo em seguida um sentimento de melancolia e fuga pra não encarar a podridão. Da segunda vez em diante já beira o sem-vergonhismo. Já passa a ser uma mistura de luxúria e masoquismo.

E se tornou isso: o fugitivo e o masoquista. Você quer algo maior que eu e eu queria o que é maior do que a minha dor pode alcançar. É essa busca por aquele rostinho lânguido, jovem, com pitada de ingenuidade e palhaçadinha. E fica o vazio do papo, da presença e da postura.

Acabo me contentando com a reciprocidade de fachada e vou antecipando prontamente qualquer frustração. Qualquer pedaço que se desprenda da minha ilusão já denuncia a rachadura na minha autoestima. E fujo, fecho, corto. Para logo em seguida dar tempo e espaço a um novo corpo; igual.

Lembrei do primeiro menino que beijei. Não significou nada. Nadinha. Passo a dar significado agora para acomodar e encontrar o espaço do quebra-cabeça da queixa-crime que registro contra mim mesmo.

E quando digo que não significou nada foi pela falta de qualquer referência histórica ou pela inabilidade de referenciar a minha própria existência no mundo — em uma adolescência totalmente porra-louca jogada no centro de Manaus — não marcou nada. Só uso aqui como o próprio ponto de partida pra explicar que senti pela primeira vez a mistura de excitação e ansiedade de querer ser visto, de pedir pra ser escolhido.

Beijei um “hétero” numa festinha de adolescentes organizada na casa de uma colega de escola. Iago? Ítalo? Acho que era Igor? Não lembro o nome dele. Lembrei por sorte do da Karina porque já se vão 20 anos dessa brincadeira. Não lembro muito dos detalhes, só lembro da Karina dizendo que ele não prestava e beijava todo mundo. E pela primeira vez eu desejei ser todo mundo.

E ele beijava mesmo, mas como se eu olhasse pra ele nos intervalos da escuridão que o lazer cortava pela fumaça e dissesse: “when will I get my one on one?”

Ficamos afastados dos outros por um instante, ele passou a mão na minha bunda e perguntou por que eu queria beijar ele. Eu disse que era só isso, queria beijar ele. Ele me deu um selinho e morreu nisso. Eu não sabia beijar e me dei por vitorioso de qualquer forma. Mas eu queria mesmo que ele me olhasse como olhava para as meninas que beijava.

Ele beijava com tesão, com desejo, com vontade, com verdade. Elas sentiam que ele queria aquilo, que elas estavam tendo a vez delas. Tudo isso pra no final até o viado invejoso da escola forçar um beijo entre eles. Não tinha jeito, percebi ali o que era ser preterido.

De lá pra cá tem sido isso: good, but not the best, second place. E tenho assistido passar pela vida à minha incapacidade de amar verdadeiramente e de ser escolhido por quem eu quero que me escolha de volta, sem sentir que preciso dar um passo pra trás antes que a pessoa decida voluntariamente ir embora.

E tenho arranjado um atrás do outro sempre na promessa desse Cabaret: maybe this time I’ll be lucky, maybe this time he’ll stay.