Vini me ironizou dizendo que o Tiago com certeza já tinha ganho texto no meu blog. E disse isso porque sabe que sempre que alguém se torna minimamente importante ganha uma reflexão feita por mim. Mas ele não se ateve ao fato de que esse blog geralmente é um cemitério de emoções. Que as pessoas vêm, se vão e escrevo sempre na intenção de materializar o que eu tô sentindo. Quem sabe um dia eu desenvolvo alguma doença ligada a perda de memória e me vem algum sobrinho distante mostrar esses textos para - num gesto de cuidado, tentar me fazer ser eu mais uma vez. Difícil, porque nenhum dos primos e irmãos quis passar a maldição adiante, a dinastia Campos se encerra por aqui. À exceção do Pedrinho que veio por acidente, como a maioria de todos nós, inclusive o atento leitor. Do lado da família paterna só floresceu desprezo e desamor, então não acredito que eu vá receber cuidado deles na velhice porque estarão quase todos mortos, se não eu antes. Tenho notícias de que eles são muitos. Sobrinhos e mais sobrinhos que eu sequer sei o nome. Pobre geralmente é muito filhento. Os mais novos nem me conhecem e duvido que exista alguma aproximação no futuro. Se houver, já fica aqui o registro para que eu desmemoriado saiba no futuro que não havia afeto do lado de lá - e da minha parte nenhum sentimento de apego também. Não foi estimulado antes, não seria depois. O fundamentalismo religioso os infectou a todos impedindo de amar verdadeiramente o próximo, que neste caso é tão próximo mesmo.
Ainda com a memória intacta, estive me perguntando essas semanas se o Tiago não merecia mesmo um texto dedicado a ele. Uma crônica, um conto, um conto de réis. Não me interessou, achei tudo monótono demais. Cotidiano demais. Simples demais. Não tinha sequer substância para um texto inteiro. Na verdade, eu já li essa história tantas vezes que foi como ler um livro da Disney: simply too easy to read. Sábado o Pedro vai tocar no assunto, vai perguntar a quantas anda. Vou ter que repetir a mesma retórica de sempre. Eu ainda vou ter que ouvir a ladainha sobre eu ser um TDAH safado e inconstante. E isso vai me deixar com um dessabor impregnado na cara. A sensação de que jogaram terra no meu mingau. E não aconteceu nada demais. Talvez daí o problema. Não chegou nem a acontecer.
Eu gosto de você, mas percebi que o que eu preciso e o que você consegue oferecer agora são coisas diferentes. Não faz sentido continuar. Eu sou uma pessoa intensa, romântica, que precisa sentir que foi escolhida de verdade. Você é legal, me trata bem, mas ao longo dessas semanas eu fui percebendo que a gente tá em lugares diferentes. Eu tô investindo de um jeito que você não tá correspondendo no mesmo nível — não porque você seja ruim, mas porque você não tá pronto pra isso agora. E eu não quero ficar num lugar onde vou sempre estar querendo mais do que o que tá disponível.
A conta, por favor, garçom.
Volta ao leitor.
Não teve nada demais. Eu só tô cansado, mas lúcido. É sobre assimetria. Porque estarmos em lugares próximos na vida, na carreira, como fazendo doutorado e dando aula nos faz ter assunto, mas a conexão é algo que depende de vontade, de desejo, e isso não acontece somente pela admiração mútua, pelo respeito. O respeito é justamente o necessário pra você encerrar as coisas bem. Respeitar o desejo do outro, respeitar o seu limite também. Ou a pessoa já entra com os dois pés sabendo dos prós e contras, ou ela se protege, e até aí tudo maravilhoso. Ela só não pode contar que eu esteja aqui refém esperando o prazo de experiência dela expirar, até porque eu sou da Geografia, não dos recursos humanos.
Então é isso leitor, o Tiago não vai ganhar um texto aqui. Combinado?