Eu sempre fui emocionado, romântico e, como toda gay traumatizada, pulei pra fase de virar puta. E agora puta velha. E eu andava confortável e bem em ser puta. Até encontrar outro mais bandido do que eu.
Ele diz que não tem certeza ainda pelo trauma de ter encontrado o ex todo ensanguentado tentando se matar. O ex anterior não lhe dava afeto — então ele não sabe muito como reagir ao que recebe. E eu acho que é papo de homem safado, como ele mesmo me acusara duas semanas atrás enquanto eu tentava explicar — e era brutalmente interrompido sob protestos de ser pretexto de homem safado, que não se pede ninguém em namoro porque você percebe que já está namorando, então só valida o que já está existindo.
Eu mesmo não tenho certeza das minhas intenções, mas eu tenho estado bem e me sentindo equilibrado o suficiente pra assumir algo que hoje é uma promessa, mas amanhã, quem sabe? Será ele?
Será a vida essa eterna busca do par perfeito, nesse nível absurdo de alienação? Será só coerência de resposta traumática? Porque se for: pronto-socorro na bicha, pulseira vermelha. Tenho me perguntado também se as escolhas românticas passam por se contentar com o menos piorzinho que apareceu e tratar de torná-lo o amor da sua vida, ou se vale essa busca eterna e insana pela metade da laranja — que deve estar sendo chupada há muito tempo. Sei lá, há anos peço o príncipe e só me mandam o cavalo.
Eu nem tenho me perguntado se ele tem outra pessoa. Não com tanta frequência, só quando permito ao sadismo perseguir alguma ideia solta de carência. Talvez ele esteja de olho em alguém, talvez eu seja um passatempo, talvez ele seja genuíno quando diz que acha que eu é que tô enrolando ele, talvez seja piada para fugir do tema. E quem sabe eu passe mesmo essa energia de homem safado que não transmite segurança. Talvez não — isso aí descarta porque ele já disse que se sentia seguro pra tentar algo comigo. Ainda assim, pode ser mesmo que eu seja safado. Pronto, eu sou. Ele também é, ué. Não comecei dizendo que me surpreendi de ter encontrado outro bandido à altura?
Até que eu me encontre perdidamente apaixonado, eu tô aí pulando de galho em galho. Difícil admitir isso, mas que mal tem? Eu tô fazendo mal a quem, se cada um é responsável pelo próprio cu? E eu acho que ele nem tá procurando nada, ele só tá curtindo a vida e esbarrou com alguém que vale a pena curtir um momento.
Então por hoje é isso. Vamos aproveitar o momento, que realmente eu não sei nada de futuro. Eu não vou perguntar nada pra taróloga porque ela é careira e eu não tenho 80 reais pra ficar perguntando sobre as reais intenções de cada pica que aparece. Acho que nós vamos ter que contar com a sorte mesmo, porque o dinheiro que eu mandaria ler as cartas já gastei levando o boyzinho pra tomar vários baldes de sorvete.