Eu tinha acabado de colocar a última placa de limite naquele outro narcisista filho da puta.
Daquelas despedidas que não explodem, sabe quando o dodói não sara porque você está sempre batendo essa merda? Não sangra, mas ainda não teve a oportunidade de cicatrizar propriamente.
Eu tenho estado lúcido até. Até orgulhoso da postura de bandido mau.
Uma postura meio cínica, meio predatória: decidido a transar sem apego, a circular corpos bonitos como quem coleciona cenas, não histórias. Não muito diferente de como eu vejo a própria vida.
Às 01:15 da manhã, comecei a conversar com um menino super lindinho no Tinder. Exatamente meu número. Mas de uma perfeição tão controlada e exacerbada que os olhares mais atentos identificariam na hora. Maquiagem leve, mas maquiagem. Iluminação, ângulo e as melhores fotos no carrossel.
Jovem, bonito, inteligente. Que menciona seus defeitos de maneira escolhida, para forçar qualquer aspecto que evocasse a versão humana.
Mas não foi só isso.
O que me urgia foi a disponibilidade imediata, quase obscena: tomou banho, trocou de roupa e atravessou a madrugada para me ver.
Sem café, sem conversa longa, sem promessa.
Só desejo.
Choveu.
Nos encontramos no estacionamento do condomínio.
O lugar não prometia nada além de concreto, sombra e risco — e isso bastou.
Foi rápido, intenso, nem chegamos a suar. Tamanho o controle e o despreparo para a situação.
Corpos colados, respiração curta, mãos que não pedem permissão.
Transamos ali mesmo, com aquela excitação que só existe quando se sabe que não deveria estar acontecendo.
Marcamos de nos ver de novo.
Pensando agora, tudo isso aconteceu em pouco mais de 24 horas.
No dia seguinte, nos encontramos outra vez. Ele quis chamar de date. Eu percebi rápido a tentativa de dar significado para não se denunciar de casual. Tudo muito protocolar, de qualquer forma.
Fomos ao McDonald’s, comemos qualquer coisa, conversamos como se aquilo fosse normal.
Mas o corpo já tinha decidido antes da fala.
No carro, numa rua escura, a cidade suspensa ao redor, começamos de novo.
Beijos fundos, pressa, vidro embaçado.
Aquele sexo meio urgente, meio imprudente, que parece sempre à beira de ser interrompido.
Decidi que era perigoso continuar ali.
Voltamos para casa, deixei o carro, fomos a um motel.
Ali, com tempo e portas fechadas, o sexo mudou de ritmo.
Menos urgência, mais presença. Como se pudesse haver leveza na violência do querer e do imediatismo.
Houve pausa, troca de olhares, um certo abandono.
E foi nesse intervalo — entre um corpo e outro — que algo se deslocou.
Falamos de futuro.
Falamos de namoro, de se apaixonar, de termos pensado um no outro o dia inteiro.
Falamos como quem esquece que o amor não é meritocrático, que ele não responde à intensidade, nem à entrega, nem à honestidade do gesto.
Jacques Lacan dizia algo como que amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer.
Naquela noite, demos tudo — sem saber se havia quem quisesse. Mas eu tinha antecipado na mesa do fast-food, que, se se passassem doze dias, teríamos um abatedouro mais formidável. Ele disse que não entendia, que não havia motivos para durar menos de doze dias. Ah, se tem. As pessoas se abandonam. Abandonam quando já vivem há anos, quando já se conhecem, já se consolidaram. Então, abandonar alguém em poucas horas era muito mais fácil.
Chamei um Uber por volta das três da manhã.
Ele se vestiu, me beijou, foi embora sob protesto de querer ficar.
Cheguei em casa e mandei mensagem perguntando se ele tinha chegado bem.
A resposta veio só pela manhã: disse que dormiu.
Depois disso, silêncio.
À noite, mandei um emoji.
Nada.
Tentei ligar.
Nada.
No Instagram, ele havia desaparecido.
No WhatsApp, as mensagens não chegavam.
O corpo que, poucas horas antes, estava inteiro ali agora não deixava nem vestígio simbólico.
E é aí que dói.
Não porque o sexo acabou — sexo acaba sempre. Não tem contrato de manutenção. Sem garantia.
Mas dói porque o gozo ficou ligado. Ele pegou exatamente onde dói. E a minha missão estava cumprida? Tão breve assim dessa vez? Ou como da vez anterior?
O gozo, como ensina Lacan, não é a descarga.
É o excesso.
É aquilo que permanece depois que o corpo já se calou.
É a excitação sem objeto, a cena que insiste na memória, a fantasia que não encontra onde pousar.
Eu não queria exatamente ele.
Eu queria aquele estado: adolescente, desmedido, alucinado.
Uma paixão sem prudência, como uma viagem de LSD — intensa demais para durar, boa demais para ser esquecida.
Eu vi que estava rápido demais. Perfeito demais.
Tentei ser cauteloso, disse que precisávamos nos conhecer melhor.
Mas deixei a fantasia correr solta.
Porque às vezes a gente sabe — e ainda assim vai.
Choveu duas noites seguidas.
E quando a chuva cessou, ele levou o dia consigo, mas eu já sou crescidinho.
O amor não é meritocrático.
Não reconhece cuidado, nem responsabilidade, nem desejo bem formulado.
Ele acontece — ou não — por contingência.
O erro não foi transar.
Nem se empolgar.
Nem falar demais.
O erro foi esquecer que nem todo encontro sustenta, à luz do dia, o que promete no escuro.
O amor não se realizou no gozo. Sequer acha coerência no mérito; ele não oferece recompensa. Há tantas pessoas amorosas que não recebem amor por aí, enquanto os cruéis recebem real devoção. Isso não é uma falha no sistema — isso é o sistema.
E a cada sol novo, isso me faz encarar que o amor nasce da falta, não da excelência; ama-se a partir do buraco, não da completude. E o gozo excede o prazer, beira o sofrimento, insiste mesmo quando dói, não se submete à razão. E o amor, só por encrenca, às vezes se organiza em torno do gozo, não do bem-estar. A repetição eterna do trauma, da dor que nos causa prazer.
Muda o sujeito, muda o ano, o corte de cabelo, e a forma de gozar permanece a mesma. A gente foge, corre, mente pra si mesmo, e só pra trazer materialidade eu mostro ao leitor que, em menos de 47 horas, eu já me encontro reproduzindo os velhos padrões manjados de quem não tem consciência de porra nenhuma.
E toda hora a gente recorre à fantasia de que, se se esforçar mais, malhar mais, ficar mais bonito, estudar mais pra ser mais interessante e ter repertório, vai ser mais amado, escolhido, e terá valido a pena. Quando, na verdade, o amor se realiza no oposto de todo esse controle. E a gente se pune e busca esse sofrimento porque a gente goza com isso, a gente gosta de se sentir mal. Pra dar algum sentido.
E, afinal, o amor é isso: sempre um risco, nunca um prêmio.
E agora o Coutinho não me atende mais, o gozo persiste, tudo o que nós dissemos foi invalidado sem explicação. E agora? Agora a gente sustenta a nossa gracinha, porque essa noite, finalmente, eu vou dormir.
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