segunda-feira, 12 de outubro de 2026

It's boys' night out

Sábado a gatinha Talisson, meu melhor amigo, veio pra cá. A fofinha ficou de vir cedo para instalar umas coisas (uma gradinha de pendurar fotos polaroid, um espelho de macumba que a Marie me deu), furar no lugar certo onde as molduras dos meus diplomas deveriam ficar e montar o suporte do monitor novo. Ficou tudo pronto. A gata chegou meio tarde, mas coitada, a fofolete trabalha no segundo turno; deixa a mana dormir mesmo. Me contou sobre os boys, sempre iludida por algum macho "hétero" que vá chegar e resolver a vida dela.

Repreendi em nome de Satanás.

Falei que minha filha está ficando com a autoestima muito baixa e que tá na hora de se valorizar. Até o peso argentino tem se valorizado mais que a fofura. Gatinha me falou de um boyzinho luxo do novo emprego com quem ela sequer tem coragem de trocar ideia, sendo que o menino está nitidamente desejando ela nua com uma maçã na boca.

Não reconheço essa puta. Essa aí não fui eu que criei, pode mandar de volta pra praça dela. Como assim não sabe ainda sequer a idade dele? Pegou uma chamada. Logo em seguida suavizei, porque ela tá finalmente dando moral para um boy advogado que, pelo que me contou, é uma bichona recém-assumida que tá a fim de troca-troca. Maricona que deixou a bonitinha PLAN-TA-DA no barzinho porque disse que precisava cuidar da filha. Brinquei que a gata tá a fim de ser madrasta. Desde quando homem cuida da filha sábado à noite? For me, that was weird. Anyway. Eu aos beijos com o meu mucilonzinho igualmente luxo e a outra com cara de velório, chateadíssima, digitando e scrollando pra lá sozinha. Dei de ombros, porque eu amo, eu que criei, mas eu não permito que filha minha seja feita de palhaça. Ficou lá no bar como quem fica de joelho no milho.

Eduardo, que de pau duro já sussurrava no meu ouvido que estava louco para me dar, apressou nossa vinda para casa. Não apressou mais ainda porque encontrei com Ingrid, uma amiga querida do passado com quem contracenei em Júlia, um curta que quase viu a luz do sol, não fosse o perfeccionismo da diretora cri-cri. Ingrid me contava que agora faz jiu-jítsu, que eu fui tudo pra ela naquela época, que ela se entregou pra preparação de elenco porque confiava em mim, mesmo quando eu colocava um saco na cabeça dela e saía arrastando-a pelo set de gravação (era parte do roteiro, fica aqui a defesa para o policial que estiver lendo esta crônica).

Adoro Ingrid, falamos mal do Paco, que era o único ator formado mesmo do elenco. Era um gostoso, fui apaixonado por ele, e ele era um babaca; se achava demais para findar não sendo absolutamente ninguém no cenário escasso do mercado de arte audiovisual desta cidade. Uma pena não levarem a cultura a sério como indústria. Ingrid falando que finalmente tinha sido diagnosticada com bipolaridade, que gastava rios de dinheiro em besteira, me mostrou uma Crocs que comprou por 600 reais. E quem quer ser fútil com um cigarro na mão e uma Crocs rosa no pé na Av. Igarapé de Manaus as 2 horas da manhã? Não conheço ninguém que se aproxime do exemplo igual aos que se sentam comigo. Aliás, quem me dera.

Corta para Eduardo quase me lambendo o rosto, uma veia do pescoço nitidamente saltando de tesão, e eu quase a fazer algo que realmente comprometesse este texto ali em público. Pedia baixinho: "me enche de porra, tô precisando da tua porra", para ter como resposta: "só se você prometer só tirar quando eu mandar".

Voltamos correndo para casa. Fui deixar o Talisson lá embaixo; volto e tem um twink louco dobrando roupas recém-tiradas da corda e jogadas no sofá, enquanto discutia com a Alexa por ela não tocar a música certa só porque a assinatura não está em dia. Um absurdo, essa Alexa, viu. Não se fazem mais assistentes como este, com TOC e mania virginiana de organização, às 3h30 da madrugada. Fiz ele largar tudo para já começarmos a transar no banheiro.

Um desespero gigantesco para terminar a porra deste banho.

Satanás, que aceito como meu senhor nessas horas, sabe que twinks são os melhores para render na cama. Não precisei ensinar quase nada: botou o pau na boca e ficou gemendo alto, delirando de tesão. Mal meti e ele já começou o escândalo silencioso: "Vai, meu paizinho, fode essa puta, me enche de porra, ai, caralho, que pica gostosa, isso, assim, com força mesmo, me bate? Por favor, me bate, eu mereço apanhar, eu sou tua puta". A parte que faltou eu fiz questão de ensinar porque ele fez por merecer: "fala que eu sou seu marido…". E ele, alegre e satisfeito, dava vida à fala para ganhar mais estocadas à medida que dizia: "Você é meu marido, eu te amo, você é minha vida, você é meu dono, nunca mais eu vou dar pra ninguém, amor, eu juro, só pra você. Só, por favor, me enche de leite".

E Satana, que se faz agora senhor de quem está excitado lendo isto, deu igualmente sustentação para aquele jovem de 20 anos esguichar porra por toda a cama enquanto eu colocava a mão na boca dele para conter os gritos de prazer - não quero pegar multa do condomínio, melhor evitar comoção. Dormimos violento, agarradinhos, depois disso.

Pense num menino que passou o dia me acariciando, cheio de afeto e desejo. Não comi de novo durante o dia; ficou o meu compromisso com o exigente freguês de que terá de voltar para tomar mais leite, com o registro no código do lote que começa com a sequência zp8yi. Tive que inventar que precisava estudar hoje para o bebezinho pegar seu rumo. Chegou em casa e fez mil declarações de amor por mensagem, do jeito que a clínica do Pedro espera me receber, relatando isso na semana que vem. E aconteceram tantas outras coisas neste fim de semana que triplicariam este relato sem foco, cuja função é apenas esta: registrar como processo.

domingo, 11 de outubro de 2026

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Ps: Libero a chave quando eu quiser. Volte depois.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Senta aqui, amigão

Sabe quando alguém pega um cachorro da rua e traz pra casa? Antes ele estava ali nas ruas, talvez tenha se familiarizado com o caos de alguma feira onde pelo menos encontrava os rejeitos, as sobras, o que ninguém quis, o que lhe fora dado por alguma clemência ou súplica, não chegava sequer a ser empatia. A feira se desfaz no fim do dia, ele ficava ali no relento, desprotegido, mas era o único lugar de sobrevivência onde ele conhecia para voltar. Ninguém via beleza nele, ninguém sequer o via. E ele usava dessa falta de atenção também como proteção. Sempre nas sombras, fugindo de ser notado. Então ele chega num lar, estranha o cheiro, vem por alguma promessa de ter sua necessidade de primeira ordem atendida. Já cansado, tão maltratado, um espaço fechado e de segurança não é reconhecível. Dá banho, comida, uma cama quentinha, carinho e uma coleira. No começo ele se espanta, acha que foi capturado. Fica acoado, esperando para atacar. Às vezes late por reflexo; sua memória é cheia de medo. Ainda vai à grade algumas vezes olhar a rua e fica dividido entre tentar fugir e dar uma chance ao novo. Daí você passa a mão na cabeça dele e ele não sabe o que sentir. Você passa a mão de novo e de novo. E ele sente que aquilo não é agressão. É simplesmente algo não sentido antes. E permite por estar em dúvida sobre o que significa; ainda sem entender ou retribuir. Até porque talvez uma mão em sua cabeça não tenha sido interpretada como carinho, mas como a lembrança da última vez que tentaram se aproximar dele para fazer o mal. Daí você dá comida, que é algo que ele sabe o que é e sempre foi uma necessidade. Você brinca e coloca um apelido carinhoso. Aos poucos ele percebe que não recebe mais chutes igual na rua. E ele chega perto para receber de novo o carinho passando pela cabeça dele. As orelhas abaixam. Os olhos ficam brilhando. E você para por um pouco. Continua vivendo sua vida e conversando com o cachorro com voz calma. Pergunta como foi o dia dele, que lembrou dele durante o trabalho e diz que sentiu saudades. Ele ainda sabe do trauma dele, mas percebe que você é diferente da maioria que passou por ele. Ele não sente mais necessidade de ficar alerta o tempo inteiro. Ele não rouba comida e sai correndo. Ele vai percebendo que vai ter sempre suas necessidades atendidas. E então ele consegue relaxar e dormir em segurança ao seu lado. Ele vai ficando calmo, brando. Dali a pouco ele já se joga no chão e mostra a barriga, desprotege os órgãos vitais porque você não é mais lido como ameaça à vida dele. Não gritam mais com ele. Ele não se espanta e corre ao perceber que alguém vem fazer mal a ele. Você chama ele em voz alta e ativa instantaneamente a felicidade nele em te ouvir. E ele aceita uma coleira. Ele se alegra agora de ser guiado, de sair na rua novamente porque é com você. Não é controle; ele antes não era de ninguém e agora é de alguém. Ele sabe que tem um vínculo com você. Finalmente ele pertence. Você está guiando, mas ele sabe que é por proteção. E aí ele não foge mais. Ele fica, entende o cuidado e o afeto. E retribui. Sempre esteve ali. Só nunca tinha sido ativado porque não tinha a pessoa certa para estimular. E às vezes tudo o que a gente precisa é disso: um pouco de paciência e amor. E quem decide cuidar também se transforma, aprende. Porque não há garantias, mas o amor, mesmo quando adormecido, floresce nos lugares mais improváveis. Esse é o nosso imperativo biológico.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Falta entender o porquê

Me apaixono sempre pelos mesmos meninos que já me rejeitaram.

Não diria que dói elaborar isso. Dói na primeira vez, aparece logo em seguida um sentimento de melancolia e fuga pra não encarar a podridão. Da segunda vez em diante já beira o sem-vergonhismo. Já passa a ser uma mistura de luxúria e masoquismo.

E se tornou isso: o fugitivo e o masoquista. Você quer algo maior que eu e eu queria o que é maior do que a minha dor pode alcançar. É essa busca por aquele rostinho lânguido, jovem, com pitada de ingenuidade e palhaçadinha. E fica o vazio do papo, da presença e da postura.

Acabo me contentando com a reciprocidade de fachada e vou antecipando prontamente qualquer frustração. Qualquer pedaço que se desprenda da minha ilusão já denuncia a rachadura na minha autoestima. E fujo, fecho, corto. Para logo em seguida dar tempo e espaço a um novo corpo; igual.

Lembrei do primeiro menino que beijei. Não significou nada. Nadinha. Passo a dar significado agora para acomodar e encontrar o espaço do quebra-cabeça da queixa-crime que registro contra mim mesmo.

E quando digo que não significou nada foi pela falta de qualquer referência histórica ou pela inabilidade de referenciar a minha própria existência no mundo — em uma adolescência totalmente porra-louca jogada no centro de Manaus — não marcou nada. Só uso aqui como o próprio ponto de partida pra explicar que senti pela primeira vez a mistura de excitação e ansiedade de querer ser visto, de pedir pra ser escolhido.

Beijei um “hétero” numa festinha de adolescentes organizada na casa de uma colega de escola. Iago? Ítalo? Acho que era Igor? Não lembro o nome dele. Lembrei por sorte do da Karina porque já se vão 20 anos dessa brincadeira. Não lembro muito dos detalhes, só lembro da Karina dizendo que ele não prestava e beijava todo mundo. E pela primeira vez eu desejei ser todo mundo.

E ele beijava mesmo, mas como se eu olhasse pra ele nos intervalos da escuridão que o lazer cortava pela fumaça e dissesse: “when will I get my one on one?”

Ficamos afastados dos outros por um instante, ele passou a mão na minha bunda e perguntou por que eu queria beijar ele. Eu disse que era só isso, queria beijar ele. Ele me deu um selinho e morreu nisso. Eu não sabia beijar e me dei por vitorioso de qualquer forma. Mas eu queria mesmo que ele me olhasse como olhava para as meninas que beijava.

Ele beijava com tesão, com desejo, com vontade, com verdade. Elas sentiam que ele queria aquilo, que elas estavam tendo a vez delas. Tudo isso pra no final até o viado invejoso da escola forçar um beijo entre eles. Não tinha jeito, percebi ali o que era ser preterido.

De lá pra cá tem sido isso: good, but not the best, second place. E tenho assistido passar pela vida à minha incapacidade de amar verdadeiramente e de ser escolhido por quem eu quero que me escolha de volta, sem sentir que preciso dar um passo pra trás antes que a pessoa decida voluntariamente ir embora.

E tenho arranjado um atrás do outro sempre na promessa desse Cabaret: maybe this time I’ll be lucky, maybe this time he’ll stay.

sábado, 13 de junho de 2026

Duprat

Por que assim, Marie: mesmo as coisas ruins que passamos na vida têm algo de bonito nisso. A gente sai mais firme, mais inteiro, melhor construído, mais resiliente. Há algo nisso que prova o nosso próprio valor.

Tu não és feita de MDF igual a esse povo mesquinho, corrupto. Não pode apoiar um copo gelado em cima que já mostra logo a essência — entorta, não volta à forma, enfeia de vez. Não tem conserto.

Tu és feita de mármore. É forte, não quebra fácil, dura, persiste, sobrevive aos tempos. O mármore é bonito, é admirável, ninguém fica indiferente a ele — confiável, incontornável, desejável, caro, poucos podem tê-lo. E sabe o mais importante? Não fica bem em qualquer casa feia, mal habitada. É para quem tem bom gosto. Mesmo que tenha dinheiro, só busca quem sabe exatamente o que é — Marie, digo, mármore.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Dois amores

Eu tenho dois amores, não sei como explicar.

Um me vem às quintas. Nos falamos as terças como quem encomenda um bolo: Olá, me vê um bolo moreno, aquele gostoso chocolatudo que acalenta, acalma e concilia? Pra quinta, às 18:30.

Ele diz que sim. E traz aquele corpo lindo, atirado na minha cama como quem se entrega a alguém que conhece. Ao lado da cama toca Emílio Santiago, Jorge Vercilo, Djavan. Ele dorme no meu peito e os nossos corpos se encaixam de maneira que poucos encaixaram. Não tem erotismo exacerbado, não tem trocas de putaria, não tem promessa. É sóbrio e sincero. Não se explica, não se aprofunda. É presente: vive ali o presente. Vai embora após a meia noite sob protestos de já ter se estendido. Diz que até quinta que vem e tem sido assim.

O outro é no sábado. É tolo, é bobo e sexual. É o tom etílico no ponto de chamar ao ébrio. Fala sobre ser responsável enquanto bola um pastel e queima nossas ideias. É meu amor obediente e interesseiro. Se despe por pedido e necessidade. E eu engulo como quem se alimenta de algo que satisfaz ao vício do próprio desejo. Se estende, quase que pede para continuar junto pela companhia. Se vai prometendo novos pãezinhos. 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

have you ever?

Você já gostou tanto de uma pessoa a ponto de querer ligar pra ela?
De desejar ouvir a voz dela?
De não se contentar e precisar efetivamente ouvi-la?

Na impossibilidade da presença física, uma voz.

Você já desejou ouvi-la por horas?
Você já fez isso?
Parar em qualquer canto para ouvi-la?
Ouvi-la por horas, inventando assuntos, pulando de assunto em assunto sem finalizar o anterior.
De não perceber mais onde está, de andar de um lado para o outro enquanto escuta com calma.
Da única preocupação ser a bateria ter um pouquinho de misericórdia só dessa vez?
De pedir ao sinal que não falhe, por piedade.
De dizer algo afetuoso que deixa a pessoa sem reação e você confirma com urgência — "você tá aí? escutou?"

De ver o sol raiar e não desejar mais desligar?
De sentir o cansaço chegar nos ombros, nos olhos, de sentir que precisa tomar água.
Você já desejou continuar ouvindo pelo menos o suspiro dela até adormecer?

Já te aconteceu isso?

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Me sinto ótimo

Gosto muito do cheiro da minha casa. Gosto muito do cheiro que vem quando abro a porta. Não sei dizer bem se esse cheiro as minhas coisas sempre tiveram, ou se é o cheiro misturado do apartamento com as minhas coisas. Só sei que gosto muito.

Solto um risinho de conforto quando entro, coloco a mochila no chão e posso me sentar sozinho em paz. Faz tempo que não sentia isso. O prazer sereno de estar em meu próprio conforto, em minha própria companhia.

Tenho deixado a casa habitualmente organizada. Às vezes deixo a louça suja por dois dias, um prato, talher e um copo. Não me importo. Nada me incomoda nesse espaço que eu criei. Tenho gostado da minha rotina. Tenho gostado de saber que ninguém vai bater à porta.

Fechar as cortinas e saber que não estou esperando ninguém tem sido aconchegante. Deito na minha cama nova e sinto que realmente posso relaxar. Eu nem forço dizer ao meu corpo que estou seguro. Eu realmente estou. Não tenho sentido necessidade de preencher os espaços. Está tudo como deveria estar. Cada coisa no seu lugar, sem ninguém para me bagunçar.

Eu não sinto a solidão. E se perguntarem por mim, a casa e eu estamos ótimos.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Achados e perdidos

Parei de olhar se ele estava on-line. Parei na quarta-feira. E tenho segurado o impulso de achar que uma conversa resolveria qualquer coisa. Fiquei em silêncio desde que bloqueei, e ele não veio atrás — acho que nem virá.

O carregador ainda está aqui. Não decidi o que fazer com ele, mas não por apego — simplesmente não parei para pensar. Talvez alguém precise. Ou talvez isso seja uma metáfora: no último gesto de cuidado, eu não o jogar fora. Porque jogar fora seria desprezá-lo de verdade. E eu nunca quis me desfazer dele.

Desde o começo, ele ativou um lugar muito específico em mim — o do cuidado com o outro, da responsabilidade, da empatia. O mesmo cuidado que ele não teve comigo. Não porque seja uma pessoa má; simplesmente não ativou nada em resposta. Ele estava buscando ser cuidado, não cuidar. E é uma pessoa confusa, que nomeia, objetifica e corre atrás de um sentimento que nem sabe exatamente o que é. No meio dessa bagunça estava eu — oferecendo o meu melhor e disputando atenção em meio a uma multidão que distrai, excita e anestesia.

Mas saí disso sem me despedaçar e mais forte do que antes. Agora tenho ainda mais clareza sobre o que não quero para mim. Não há nada nele que compense toda aquela superficialidade — nem que eu me coloque no papel de atuar com alguém sem talento. As cortinas nunca fechavam, e eu aqui improvisando a exaustão com alguém que veio buscar algo que jamais soube exatamente o que era.

O carregador vai pro lixo. Aqui não é achados de pessoas perdidas.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Que bom poder te falar que

Querido amigo

Chorei de soluçar

Chorei a tua falta 

Chorei a tua indiferença 

Chorei o nosso desencontro 

Chorei o nosso desamor

Não me contive 

Chorei 


P.S: como se a contenção mesma fosse impossível de nomear sem ceder a ela de novo.​​​​​​​​​​​​​​​​

segunda-feira, 16 de março de 2026

Reconcilia essa violência no teu coração

As pessoas precisam aprender que são responsáveis por elas mesmas. Que não virá nenhum herói para salvá-las. Ninguém vai tapar esse buraco que você sente dentro de você. Você precisa aprender a viver bem na própria companhia. Se reconciliar consigo mesmo. Aprender a conviver com o próprio silêncio, com o tédio, a monotonia. Essa busca insana por estímulos, por paixão, diversão, é mera fuga de si. Aprenda a gostar de você, dos seus pensamentos, do seu ponto de vista, da sua solitude. Aprenda a cuidar de si. A ter autocuidado. Depois você busca alguém para caminhar junto. Como você vai aprender a conviver com a diferença do outro se não consegue parar para se ouvir, para apaziguar o barulho dentro da sua cabeça? Vocês precisam mesmo aprender a não se odiar. Não é hedonismo, é só uma questão de estar bem, resolvido consigo, para, com isso, poder encontrar uma relação onde exista uma dinâmica equilibrada e recíproca.

É tão difícil entender isso?

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Pêra, Uva, Maçã, Salada Mista

Tem dias em que a maturidade não vem como iluminação.

Ela vem como silêncio.

Silêncio depois de uma conversa que quase foi.
Silêncio depois de um “se for pra ser, será”.
Silêncio depois da coragem de não ligar.

Hoje eu escolhi não fazer nada.
E não fazer nada, às vezes, é o ato mais ativo que existe.

Eu poderia ter ligado.
Poderia ter ensaiado um “e aí, como você está?”.
Poderia ter feito aquele movimento elegante de quem parece casual, mas está tremendo por dentro.

Mas não fiz.

Fiquei.

Fiquei com o desconforto, com a incerteza, com essa sensação meio ridícula de que talvez eu tenha perdido algo que ainda nem era meu.

Perdi a possibilidade que imaginei.
E isso dói mais do que eu gostaria de admitir.

Adulto é uma coisa estranha.
A gente aprende que não pode fazer escândalo, que não pode agir no impulso, que não pode transformar cinco dias de silêncio em tragédia grega.
Então a gente respira.
E fica quieto.

Mas quieto não significa indiferente.

Quieto significa:
eu estou sentindo, mas não vou deixar o sentimento dirigir.

No meio desse exercício todo de responsabilidade emocional, minha amiga perguntou se eu queria hot dog.
Eu disse que sim.
E pedi também uma opção doce — para uma criança de 35 anos que estava querendo evitar uma birra emocional.

E foi aí que eu entendi.

Talvez maturidade não seja engolir o choro.
Talvez seja aceitar que, no amor, a gente ainda brinca de pêra, uva, maçã, salada mista.

A gente escolhe às cegas.
A gente deseja “salada mista”.
Mas precisa aceitar que talvez venha só um aperto de mão.

A venda não cai quando a gente quer.
O outro não escolhe no nosso tempo.

E enquanto isso, a roda gira. Mesmo quando eu esperava que o carrossel girasse os passageiros do amor.

Talvez ser adulto não seja enxugar a lágrima calado.
Talvez seja chorar, aceitar a incerteza da escolha, e ainda assim escolher não agir no impulso.

Hoje eu não liguei.
Hoje eu não excluí.
Hoje eu não dramatizei.

E por hoje vamos cuidar da criança sem deixar ela dirigir o carro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Agora que foi

Tenho pensado em nós dois. Tenho pensado mais em ti, na verdade. Mas a primeira frase que me veio foi falar da nossa unidade. Aliás… existe unidade?

Tenho pensado em ti com medo. Medo mesmo. Tenho recusado esse pensamento. Ele vem, eu rejeito, e ele volta. Mas medo de quê, catapimbas? Como um serzinho tão maravilhoso como você poderia me provocar medo?

Tenho medo de que esse sentimento — o qual tento nomear para reconhecê-lo — seja fruto de alguma elaboração traumática. Joguei tanto medo em cima de nós… de ti, aliás, né… que frustrei qualquer boa intenção que talvez tivesses.

E esse medo quase se iguala ao tamanho da minha admiração por ti.

Confesso: eu te subestimei. E já te pedi desculpas por isso. Perceba que, quando peço desculpas, é porque reconheço que errei. Afinal, não se pede desculpas sem achar que deveria ter feito diferente.

E isso, por si só, já denuncia que eu não penso mais assim.

Dá trabalho reconhecer que erramos, e nem todos se dão essa tarefa. O que também mostra que eu não sou aquele pensamento: foi um mau julgamento, um erro de trajetória.

E aí me dá medo de te perguntar… mas você reconhece que eu não sou aquele erro? Que aquele erro não abarca o tamanho das ações e escolhas que constroem, sei lá, o imaginário de quem eu sou?

Tenho medo de que a gente não se fale mais. As coisas ficaram mais claras agora, mas ficaram estremecidas também.

Tenho medo de que talvez essa tenha sido a minha chance de verdade… e que agora alguém leve embora o que era meu. E tenho sido honesto o suficiente para reconhecer que, se isso acontecer, talvez haja merecimento.

Eu não queria ser castigado dessa forma. Acho desproporcional. Não compete com a quantidade de coisas boas que eu nem tive a chance de mostrar.

Tenho vagado pelos dias, ansioso, esperando teu contato. Teu “bom dia” hoje foi bonito. Fiquei imaginando que te custou baixar a guarda e mandar a mensagem. Depois fiquei imaginando o contrário: que você não dava mais a mínima e que isso era só um exercício de dizer a si mesmo que “tanto faz”.

Hoje eu levantei ouvindo Te Devoro, do Djavan. Teus sinais me confundem da cabeça aos pés, mas por dentro eu te devoro.

Por ironia, o algoritmo colocou na fila Final Feliz, do Jorge Vercillo. Me deu raiva. E angústia.

Chega de fingir. Eu não tenho nada a esconder. Agora é pra valer.

Senti que ia chorar e já estava em:

“Pode me abraçar sem medo, pode encostar a tua mão na minha”.

E foi aí que me arrepiei fortemente.

Quem desejaria, entre vós, ser tão confuso e tolo simultaneamente?

Pulou pra Beija Eu, da Marisa Monte, que eu amo. Mas tento evitar essa música porque sempre tenho a sensação de que ela é comercial demais e que, justamente por isso, todo mundo gosta — porque não entende a profundidade de:


“Meu corpo no seu

Corpo eu, no meu corpo

Deixa! Eu me deixo

Anoiteça e amanheça”.


Acabei me irritando com toda a melancolia e desliguei a playlist.

Me irritou porque me encheu ainda mais de medo. Não ajudou, exceto por talvez organizar alguma coisa em torno desse medo e, no fim, repetir a elaboração.

Tenho me sentido culpado. Como quem comete um crime e vai lá se entregar, sabendo que vai pagar — e que não virá alívio.

Que agora vai começar o inferno de verdade. A danação.

E faço o exercício de criminoso, delegado, juiz e carcereiro. E, em todas as etapas, me lanço cada vez mais à sorte do medo, como quem não tem escolha. Como alguém que sabe que deve.

Ora, ora… se não são as consequências das minhas próprias atitudes.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

É o carnaval das frustrações

Anísio, me desculpa? Eu sei que vc tá chateado e vc tem razão de estar. Mesmo que vc não vá mais falar comigo, eu não quero perder a oportunidade de dizer que eu tô errado e que sinto muito por te magoar. Eu nunca tive a intenção de te magoar nem de usar teu sentimento. Eu fui imaturo e inseguro. Eu errei pra fingir pra mim mesmo que eu não gostei de cara de ti. Eu queria não dar importância pra esse sentimento, porque me jogar de cabeça nesse sentimento seria reviver todo o medo do abandono de novo. Eu tenho uma ferida muito grande dentro de mim, a ferida da rejeição, então eu tratei de errar logo com vc pra não dar chance de que algo maior e bonito pudesse florescer.

Eu queria poder estar à altura do teu amor, de merecer ser querido por vc. Não consigo acreditar que eu mereça ser desejado ou amado por alguém tão bonito como vc. Vc é bonito, gentil, educado, esforçado. E eu? Eu sou só um frustrado que não consegue aceitar que ainda existem pessoas como vc.

Talvez o seu ex não tenha se redimido e reconhecido o próprio erro, e tantas pessoas não fizeram isso comigo: simplesmente erraram e foram embora, me largando com o meu sentimento. Eu imagino que vc possa estar sozinho agora, chateado comigo, e eu não quero que esse mau sentimento seja desamparado. Por isso, tô aqui assumindo a minha culpa, a responsabilidade pelos meus atos e te dizendo que, de qualquer forma, eu acabei fazendo mal a mim mesmo também. Errei pra não me jogar de cabeça nessa relação e evitar a dor da perda, e eu perdi de qualquer forma, e de forma leviana. Não desejaria que ninguém fizesse isso comigo e também não tinha planejado te fazer mal. Eu só fui fingindo que vc não ligava tanto assim pra mim e que isso não passaria de um flerte.

Te adoro de verdade. Adoro a forma como vc me olha, gosto da forma afetuosa que vc usa pra falar o que sente por mim. Penso sempre no jeito carinhoso que vc segurou minhas mãos lá no shopping.

Talvez a gente tivesse tido uma relação bonita e duradoura, e isso é o que me assusta, porque eu não acho que sou merecedor disso.

De verdade, me perdoa pela sacanagem. Eu queria poder te merecer, eu só não sei como fazer isso. Eu sofri tanto em relacionamentos todos esses anos que eu saboto qualquer possibilidade de ser feliz com alguém. Tenho me sentido vazio, tem sido muito confuso esse processo de me readaptar em novos espaços em Manaus. Ainda não tô na minha casa, não consigo visualizar minhas coisas, meu refúgio. Tenho vivido como se estivesse passando pelos lugares e pelas pessoas. Talvez isso possa justificar o modo como eu te tratei, como se fôssemos passageiros, mesmo que não intencionalmente.

Mas eu gosto de vc de verdade e é por isso que estou te pedindo desculpas, pra pelo menos te dizer que eu me importo com o seu sentimento.

Perdão, amor.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

As duas flores

No passeio público, ele segurava minha mão como quem salva a si mesmo.

A perna balançava sem parar. Um motor ligado o tempo todo. Ansiedade pura de estar perto, de não perder o contato nem por descuido. Não se importou com os que passavam; se importou em não perder um segundo da conexão.

Apenas vinte anos. Leucemia em estágio inicial. A enorme quantidade de pílulas me lembrava o cheiro de morte. Mora sozinho na cidade, longe do interior de onde veio, longe de quase tudo. De todos. De qualquer coisa que lhe salvasse. Falava comigo como se eu fosse uma promessa silenciosa de estabilidade, de cuidado. Não pediu nada diretamente, mas tudo nele pedia: aceitação, validação, permanência.

Eu, aos trinta e cinco, entendia demais.

Reconhecia aquela urgência de existir para alguém. Aquela ideia perigosa de que, se o outro ficar, talvez a gente fique também. O tempo urge, mas a idade me mostra hoje o quão triste aquela atitude era. Revi todas aquelas sensações de interpretar qualquer presença como amor. Tentei ser responsável, não me aproveitar daquela ingenuidade tão pueril.

Quando ele me fazia carinho, era como se estivesse tocando um lugar antigo. Não exatamente em mim — mas nele mesmo. Ou em mim aos vinte. Um Breno mais novo, carente, tentando ser bom, agradável, desejável, na esperança de ser visto, de finalmente ser escolhido.

Quis retribuir. Quis acolher.

Mas com a prudência de quem já sabe que não é seguro, aos vinte, tentar comprar reconhecimento com o próprio corpo. Que sexo e contato físico não podem carregar sozinhos a tarefa de salvar alguém do abandono.

Permiti que ele me encarasse. Que passasse a mão no meu corpo enquanto dizia o quão bela achava a carne. Emprestei afeto, dei calma ao lhe ceder colo. A vontade de me fazer sentir sua intensidade era tão grande que se denunciava no gemido de prazer.

Ele não se apaixonou por mim.

Apaixonou-se pela imagem de que, ficando perto, talvez pudesse cuidar de si. Entregou-se rápido demais, deixou escapar um “eu te amo”, talvez tentando garantir amor a qualquer custo.

E eu fiquei ali, de mão dada com ele, segurando também tudo aquilo que reconhecia como meu. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Porra Coutinho, na cara não pra não estragar o velório

Eu tinha acabado de colocar a última placa de limite naquele outro narcisista filho da puta.

Daquelas despedidas que não explodem, sabe quando o dodói não sara porque você está sempre batendo essa merda? Não sangra, mas ainda não teve a oportunidade de cicatrizar propriamente.

Eu tenho estado lúcido até. Até orgulhoso da postura de bandido mau.
Uma postura meio cínica, meio predatória: decidido a transar sem apego, a circular corpos bonitos como quem coleciona cenas, não histórias. Não muito diferente de como eu vejo a própria vida.

Às 01:15 da manhã, comecei a conversar com um menino super lindinho no Tinder. Exatamente meu número. Mas de uma perfeição tão controlada e exacerbada que os olhares mais atentos identificariam na hora. Maquiagem leve, mas maquiagem. Iluminação, ângulo e as melhores fotos no carrossel.

Jovem, bonito, inteligente. Que menciona seus defeitos de maneira escolhida, para forçar qualquer aspecto que evocasse a versão humana.
Mas não foi só isso.
O que me urgia foi a disponibilidade imediata, quase obscena: tomou banho, trocou de roupa e atravessou a madrugada para me ver.
Sem café, sem conversa longa, sem promessa.
Só desejo.

Choveu.

Nos encontramos no estacionamento do condomínio.
O lugar não prometia nada além de concreto, sombra e risco — e isso bastou.
Foi rápido, intenso, nem chegamos a suar. Tamanho o controle e o despreparo para a situação.
Corpos colados, respiração curta, mãos que não pedem permissão.
Transamos ali mesmo, com aquela excitação que só existe quando se sabe que não deveria estar acontecendo.

Marcamos de nos ver de novo.

Pensando agora, tudo isso aconteceu em pouco mais de 24 horas.

No dia seguinte, nos encontramos outra vez. Ele quis chamar de date. Eu percebi rápido a tentativa de dar significado para não se denunciar de casual. Tudo muito protocolar, de qualquer forma.
Fomos ao McDonald’s, comemos qualquer coisa, conversamos como se aquilo fosse normal.
Mas o corpo já tinha decidido antes da fala.

No carro, numa rua escura, a cidade suspensa ao redor, começamos de novo.
Beijos fundos, pressa, vidro embaçado.
Aquele sexo meio urgente, meio imprudente, que parece sempre à beira de ser interrompido.

Decidi que era perigoso continuar ali.
Voltamos para casa, deixei o carro, fomos a um motel.

Ali, com tempo e portas fechadas, o sexo mudou de ritmo.
Menos urgência, mais presença. Como se pudesse haver leveza na violência do querer e do imediatismo.
Houve pausa, troca de olhares, um certo abandono.
E foi nesse intervalo — entre um corpo e outro — que algo se deslocou.

Falamos de futuro.

Falamos de namoro, de se apaixonar, de termos pensado um no outro o dia inteiro.
Falamos como quem esquece que o amor não é meritocrático, que ele não responde à intensidade, nem à entrega, nem à honestidade do gesto.

Jacques Lacan dizia algo como que amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer.
Naquela noite, demos tudo — sem saber se havia quem quisesse. Mas eu tinha antecipado na mesa do fast-food, que, se se passassem doze dias, teríamos um abatedouro mais formidável. Ele disse que não entendia, que não havia motivos para durar menos de doze dias. Ah, se tem. As pessoas se abandonam. Abandonam quando já vivem há anos, quando já se conhecem, já se consolidaram. Então, abandonar alguém em poucas horas era muito mais fácil.

Chamei um Uber por volta das três da manhã.
Ele se vestiu, me beijou, foi embora sob protesto de querer ficar.

Cheguei em casa e mandei mensagem perguntando se ele tinha chegado bem.
A resposta veio só pela manhã: disse que dormiu.
Depois disso, silêncio.

À noite, mandei um emoji.
Nada.
Tentei ligar.
Nada.

No Instagram, ele havia desaparecido.
No WhatsApp, as mensagens não chegavam.
O corpo que, poucas horas antes, estava inteiro ali agora não deixava nem vestígio simbólico.

E é aí que dói.

Não porque o sexo acabou — sexo acaba sempre. Não tem contrato de manutenção. Sem garantia.
Mas dói porque o gozo ficou ligado. Ele pegou exatamente onde dói. E a minha missão estava cumprida? Tão breve assim dessa vez? Ou como da vez anterior?

O gozo, como ensina Lacan, não é a descarga.
É o excesso.
É aquilo que permanece depois que o corpo já se calou.
É a excitação sem objeto, a cena que insiste na memória, a fantasia que não encontra onde pousar.

Eu não queria exatamente ele.
Eu queria aquele estado: adolescente, desmedido, alucinado.
Uma paixão sem prudência, como uma viagem de LSD — intensa demais para durar, boa demais para ser esquecida.

Eu vi que estava rápido demais. Perfeito demais.
Tentei ser cauteloso, disse que precisávamos nos conhecer melhor.
Mas deixei a fantasia correr solta.
Porque às vezes a gente sabe — e ainda assim vai.

Choveu duas noites seguidas.
E quando a chuva cessou, ele levou o dia consigo, mas eu já sou crescidinho.

O amor não é meritocrático.
Não reconhece cuidado, nem responsabilidade, nem desejo bem formulado.
Ele acontece — ou não — por contingência.

O erro não foi transar.
Nem se empolgar.
Nem falar demais.

O erro foi esquecer que nem todo encontro sustenta, à luz do dia, o que promete no escuro.

O amor não se realizou no gozo. Sequer acha coerência no mérito; ele não oferece recompensa. Há tantas pessoas amorosas que não recebem amor por aí, enquanto os cruéis recebem real devoção. Isso não é uma falha no sistema — isso é o sistema.

E a cada sol novo, isso me faz encarar que o amor nasce da falta, não da excelência; ama-se a partir do buraco, não da completude. E o gozo excede o prazer, beira o sofrimento, insiste mesmo quando dói, não se submete à razão. E o amor, só por encrenca, às vezes se organiza em torno do gozo, não do bem-estar. A repetição eterna do trauma, da dor que nos causa prazer.

Muda o sujeito, muda o ano, o corte de cabelo, e a forma de gozar permanece a mesma. A gente foge, corre, mente pra si mesmo, e só pra trazer materialidade eu mostro ao leitor que, em menos de 47 horas, eu já me encontro reproduzindo os velhos padrões manjados de quem não tem consciência de porra nenhuma.

E toda hora a gente recorre à fantasia de que, se se esforçar mais, malhar mais, ficar mais bonito, estudar mais pra ser mais interessante e ter repertório, vai ser mais amado, escolhido, e terá valido a pena. Quando, na verdade, o amor se realiza no oposto de todo esse controle. E a gente se pune e busca esse sofrimento porque a gente goza com isso, a gente gosta de se sentir mal. Pra dar algum sentido.

E, afinal, o amor é isso: sempre um risco, nunca um prêmio.

E agora o Coutinho não me atende mais, o gozo persiste, tudo o que nós dissemos foi invalidado sem explicação. E agora? Agora a gente sustenta a nossa gracinha, porque essa noite, finalmente, eu vou dormir.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Ygor etc e tal

Lembrei do Ygor, um rapaz com quem eu fiquei por um tempo em 2011. Me apaixonei profundamente por ele, mas ele tinha namorado e só ficava comigo porque o relacionamento dele era uma bosta. Viviam brigando, não lembro perfeitamente, mas acho que era aquele tipo de relacionamento em que um fica frescando com o outro pra disputar quem tem mais autoridade. E eu, muito sem-vergonha, ficando com homem “casado”, com certeza tinha algum prazer em ser ludibriado. Queria, mesmo que inconscientemente, achar que ele era infeliz naquele relacionamento e que eu era a parte boa do dia dele.

E eu me enganei pela minha imaturidade. Eu jamais teria chance. Mas foi muito marcante.

Durante anos eu achei que um dia ele me adicionaria em alguma rede social e me falaria que aquele momento foi, de alguma forma, especial pra ele também. Nunca foi. Ele só estava se divertindo, escapando do tédio e de ter que terminar um namoro que já tinha se entranhado em todas as relações da vida dele. Filho de militar, acho que viver escondido já era padrão. Enganar os outros para fazer o que queria, numa vida dupla, tinha sido regra desde sempre.

Uma vez eu vi ele no Tinder, uns anos atrás. Não dei match, fiquei com medo de ele ter apertado o verde também. Ou, pior ainda, não ter dado. Ignorei. E, depois desse tempo todo, faria diferença? Acho que eu amei ele. Quando eu não aguentava mais de paixão e estava inflamado, disse isso pra ele. Sentado num toco, no estacionamento da UFAM, eu liguei pra ele, que ficou em silêncio quando eu terminei de falar. Ficou surpreso. Tamanho o desinteresse dele, que nunca tinha cogitado que a minha atenção partia de algo verdadeiro e bonito. Não tinha a intenção de ver nada, aliás. Eu é que via onde não tinha.

Quando conseguiu dizer algo, só disse que precisava pensar se o relacionamento dele ainda valia a pena, o que era melhor pra ele… inventou uma desculpa pra desconversar e não dar corda para o que eu estava falando. Eu não entendi na hora, só não quis insistir e ser chato. Fiquei com o sentimento de que tinha feito a minha parte, mas esperava que viesse a dele.

Ele disse que ia me procurar. Depois dessa ligação, ele nunca mais ligou, nunca mais procurou. E acabou da mesma forma que nem chegou oficialmente a começar: o dito pelo não dito. E eu gostava das vezes que a gente transava dentro do carro dele. Eu me sentia especial, me sentia visto. A gente passava horas conversando. E, quando dormíamos juntos, era bonito. Era como se eu tivesse um parceiro. Ele tinha ido me pegar no trabalho logo após eu chegar de uma viagem. Ele tinha esperado todos aqueles dias longe. O que teria significado esperar ele na biblioteca enquanto ele fazia prova? Aquela prova era o que adiava por algumas horas a vontade louca de tirar a roupa e transar como animais. Daquela noite só ficou o parágrafo que, anos depois, eu escolhi como epígrafe da minha tese de doutorado.

Não sei dizer se ele foi antes ou depois do Raphael. Um zé-bostinha que vivia drogado de remédio, não sabia transar. Me atraía o corpo, mas passávamos horas calados um do lado do outro. A gente não tinha assunto na maioria das vezes; não sei por que suportávamos o silêncio até o tédio e a tensão nos levarem a um sexo meia-boca. A melhor amiga dele, na época — que, por coincidência, era minha colega de trabalho — ajudou a acabar com tudo, que nem chegou a existir como contrato. Era só porque eu morava no mesmo condomínio que ele e era fácil encontrar ele.

Mas tinha alguma graça. Às vezes conversávamos sobre cinema e livros. Ele sempre era pretensioso e fazia parecer que entendia alguma coisa de arte, das artes. E não entendia. Mas sentia que me corrigia na vida quando dizia “não é Cannes, é Canê”. Era só um boçal bancado pela família. Aliás, nem sei muito sobre ele. Será que ele tinha mãe? Acho que quem bancava a casa eram umas primas que eu raramente via.

Outro dia passei pela fábrica onde ele trabalhava. Só lembrei porque eu tinha trabalhado próximo antes dele. E ele me corrigia toda vez que eu pronunciava errado Whirlpool. Não sei bem o dia que paramos de nos falar, tamanho o desinteresse coletivo. Ele queria ter atenção de gente como o Froner e sua galera descolada e, só porque Manaus é um ovo, o Froner passou a me mandar mensagem e querer ser próximo na época em que eu viralizei com os vídeos do meu grupo, lá por 2014. E o Froner flopou também. Eu mesmo só lembrei dele e desse nome pelo contexto. Ninguém liga mais pra aquela geração de jovens de Manaus. Nós desvoluímos para a irrelevância, com a idade. Ninguém liga pra quem já passou dos 30. E o negócio tem ficado cada vez mais infantil em todos os setores da sociedade.

Uma vez eu vi o Instagram do Raphael. Acho que o sobrenome dele era Lobato, porque o Froner também é Rafael. Parece que o Lobato virou modelo, ou qualquer coisa assim. Aquele tipo de jovem místico que finge desinteresse por tudo e faz o tipo misterioso. A verdade é que ali habita uma puta louca por pica, desesperada por atenção. Tudo estratégia tosca. Se você olhar rapidamente, parece alguém realmente interessante, o tipo aclamado nas redes sociais. Mas, se você olhar uma segunda vez, percebe as brechas ruindo, pedindo atenção.

Enfim. Misturei Ygor com Raphael porque, como expliquei, não lembro quem veio primeiro, mas foi em 2011. Não sei se cheguei a escrever algo completo sobre eles todos esses anos. Raphael tinha um blog também — acho que era no Tumblr — onde escrevia com ar de quem sabia alguma coisa; não passava de pedância. Aliás, o Tumblr, por si só, flopou porque reunia esse lugar de gente que se achava cult.

A melhor amiga dele e ele se afastaram mais ou menos na mesma época. A história repercutiu entre os interessados lá no laboratório. Hesito em mencionar o nome profano dela porque me gera ranço até hoje. Ela era uma safada que atrapalhava a minha vida no trabalho só por diversão. Transava com o nosso orientador e aproveitava que ele era um tarado homofóbico para afastar qualquer possibilidade que eu tivesse de ter meus trabalhos corrigidos com qualidade.

E, no fim, pelo que eu entendi, todo mundo se fudeu de alguma forma. A imbecil não se formou na área, não fez pós-graduação na USP como lhe tinha sido prometido. Só porque o diabo é moleque, apareceu um vídeo dela no meu feed e, as far as I’m concerned, ela ainda faz o papel de adolescente alternativa de trinta e poucos anos, mas faz vídeos de signos ou alguma coisa mística assim. Acho até que ela vive disso. Aquele velho truque que atrai alguns carecas bêbados desiludidos e que não engana uma mulher madura, consistente.

Raphael não ganhou relevância na vida como achou que um dia seria “A Star Is Born”. A referência dele, o Froner, é mais um desacreditado na cidade. Ele tinha até um site sobre notícias pop ou algo do tipo, aquele tipo de atividade que está mais pra um hobby mal remunerado do que uma carreira.

Eu já escrevia há anos antes de conhecer o Raphael. Mas, naquela época, meio que tinha uma competição velada de quem escrevia melhor. Tinha até uns recados escondidos nos textos um do outro. Eu devo ter escrito algo aqui sobre ele no blog, não sei se um texto inteiro ou só recados no meio da loucura. Mas ele também não chegou a lugar nenhum que me provasse esse Olimpo de superioridade onde fingia viver. Eu não sei nem por que eu lembrei dele agora; deve ser por associação das coisas que eu vivi naquele ano. Desconfio porque, em 2011, toda vez que eu achava que algo era pra mim, ou que era meu, se mostrava, na verdade, alguma espécie de tentativa de me agarrar a qualquer coisa que desse a sensação de pertencimento.

O meu ex-orientador pagou um pouco pelos pecados dele porque foi denunciado — finalmente — por ser um tarado no PPG da UFAM e acabou sendo expulso de lá. Voltou à insignificância de onde ele sempre temeu pertencer. Passou a juventude tentando moldar a imagem de gênio tesudinho e acabou preso na armadilha que ele construiu ao redor de si. Ninguém leva a sério, como pesquisador, um velho tarado que não respeita a própria mulher, que, aliás, é a chefa dele. Péssimo dia para os machistas. Acho que ele nunca entendeu que o fato de ter trabalhado com o Aziz Ab’Sáber não o tornava herdeiro de nada. Não é porque a Anitta gravou com a Madonna que ela passa a ter o mesmo legado.

Eu achei que precisava do meu orientador pra chegar a algum lugar porque ele insistia em dizer, de maneira violenta, que todo mundo só chegava ao sucesso por meio dele. Inclusive, quando eu já tinha acessado lugares onde ele esteve, eu continuei achando que, pra me manter lá, precisaria da mentoria dele. E não precisei. Mas é estranho se questionar: “se eu tivesse uma boa relação com ele, isso aqui estaria sendo mais fácil? Mais bem guiado?”. Até aqui, não foi o caso.

Passados todos esses anos, eu já conheci o amor e o cuidado de verdade. Talvez eu olhe pra trás com um pouco de vergonha disso tudo, daquele garoto de 20 anos. Foi tudo muito sórdido e imaturo. Serviu de aprendizado, só pra usar velhos clichês e fazer uma ponte. Ou talvez não tenha ensinado nada mesmo e eu só lembre porque tenho a memória boa. Não é como se fosse tão relevante, como se viesse tudo isso à mente com frequência. É só teste para saber se tenho tendência a Alzheimer. E também não quero parecer que vim escrever só pra dizer que hoje eu sou melhor do que todos os citados aqui. Não faço isso em tom de triunfo, mas de aceitação cansada.

Escrevo, na verdade, pra constatar que a propaganda de que essas pessoas eram melhores e com sucesso garantido não passava disso mesmo: propaganda enganosa — e eu deveria estar escrevendo isso tudo no site do Procon.

Pois é, divaguei. O Ygor nunca voltou. Porque nunca voltaria mesmo. Ilusão nossa achar que a gente precisa de uma última conversa, como se tivesse algo a ser dito que mudaria as intenções da pessoa. Eu entendi, com o tempo, que não precisava dizer pra ele que ter ido embora sem dar satisfação me gerou decepção. Ele sabia disso na época. Ele sempre teve ciência disso. Só optou por seguir. As pessoas sempre sabem, e é exatamente por isso que elas seguem as vidas delas. Porque isso tudo é inevitável. Não é como se tivesse algo a acrescentar; o que não foi dito fica subentendido.

Quando vi ele no Tinder, “catitei” — como dizem os paraenses — a vida dele. Fez doutorado em Geografia, mesmo sendo advogado. Fez numa universidade onde uma amiga minha é docente, no mesmo programa de pós-graduação. E ele virou docente da faculdade que o Vini — a pessoa que melhor me amou — estuda. O Raphael parece que morava em SP. E eu tô voltando a morar em Manaus, onde tudo e nada demais acontece.

Mês que vem eu faço 35 anos e tenho sentido, nos últimos oito anos, que não amo como antes. Que não me emociono mais. Não vejo isso como ter me tornado uma pessoa amarga, frustrada. O amor sempre volta a ser tema aqui; por si só, já mostra que existe em mim e tá sempre pronto pra ser dado. Mas por que eu não amo mais daquela forma pueril? Eu sou outro? Ou o amor todo é outro, que nem tem mais seus vícios de tortura? Talvez, se eu soubesse todas as respostas, não teria mais graça — e esse texto nunca existiria.

E os personagens aqui não são propriamente vilões. O antagonista mesmo é o tempo combinado com a expectativa. A fantasia de que o tempo corrigiria o passado. E não corrige; ele afasta. E os lugares aqui são salões provisórios abrigando visitas provisórias. Ninguém citado aqui importava mais que as expectativas que eu coloquei neles.

Impressionante como algo tão intenso não deixou rastro nenhum fora de mim. O inconformismo não é com as pessoas, é com a assimetria. Nada disso gerou memória compartilhada, estatuto. Não existe recompensa moral por ter sido inteiro. E isso é profundamente inconformante, mesmo quando já aceito intelectualmente. Não houve nem rejeição clara, apenas indiferença. Talvez seja verdade que a indiferença seja mais difícil de metabolizar do que o conflito.

O que sobra é esse resto —
não dor,
não saudade,
não amor —

mas uma recusa íntima em aceitar que o silêncio também é uma forma de resposta válida. Essa é a fantasia ética que sustenta o sofrimento.

E a minha forma de amar hoje só funciona encarando a falência das promessas que nos mantêm jovens.