sexta-feira, 22 de maio de 2026

have you ever?

Você já gostou tanto de uma pessoa a ponto de querer ligar pra ela?
De desejar ouvir a voz dela?
De não se contentar e precisar efetivamente ouvi-la?

Na impossibilidade da presença física, uma voz.

Você já desejou ouvi-la por horas?
Você já fez isso?
Parar em qualquer canto para ouvi-la?
Ouvi-la por horas, inventando assuntos, pulando de assunto em assunto sem finalizar o anterior.
De não perceber mais onde está, de andar de um lado para o outro enquanto escuta com calma.
Da única preocupação ser a bateria ter um pouquinho de misericórdia só dessa vez?
De pedir ao sinal que não falhe, por piedade.
De dizer algo afetuoso que deixa a pessoa sem reação e você confirma com urgência — "você tá aí? escutou?"

De ver o sol raiar e não desejar mais desligar?
De sentir o cansaço chegar nos ombros, nos olhos, de sentir que precisa tomar água.
Você já desejou continuar ouvindo pelo menos o suspiro dela até adormecer?

Já te aconteceu isso?

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Me sinto ótimo

Gosto muito do cheiro da minha casa. Gosto muito do cheiro que vem quando abro a porta. Não sei dizer bem se esse cheiro as minhas coisas sempre tiveram, ou se é o cheiro misturado do apartamento com as minhas coisas. Só sei que gosto muito.

Solto um risinho de conforto quando entro, coloco a mochila no chão e posso me sentar sozinho em paz. Faz tempo que não sentia isso. O prazer sereno de estar em meu próprio conforto, em minha própria companhia.

Tenho deixado a casa habitualmente organizada. Às vezes deixo a louça suja por dois dias, um prato, talher e um copo. Não me importo. Nada me incomoda nesse espaço que eu criei. Tenho gostado da minha rotina. Tenho gostado de saber que ninguém vai bater à porta.

Fechar as cortinas e saber que não estou esperando ninguém tem sido aconchegante. Deito na minha cama nova e sinto que realmente posso relaxar. Eu nem forço dizer ao meu corpo que estou seguro. Eu realmente estou. Não tenho sentido necessidade de preencher os espaços. Está tudo como deveria estar. Cada coisa no seu lugar, sem ninguém para me bagunçar.

Eu não sinto a solidão. E se perguntarem por mim, a casa e eu estamos ótimos.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Achados e perdidos

Parei de olhar se ele estava on-line. Parei na quarta-feira. E tenho segurado o impulso de achar que uma conversa resolveria qualquer coisa. Fiquei em silêncio desde que bloqueei, e ele não veio atrás — acho que nem virá.

O carregador ainda está aqui. Não decidi o que fazer com ele, mas não por apego — simplesmente não parei para pensar. Talvez alguém precise. Ou talvez isso seja uma metáfora: no último gesto de cuidado, eu não o jogar fora. Porque jogar fora seria desprezá-lo de verdade. E eu nunca quis me desfazer dele.

Desde o começo, ele ativou um lugar muito específico em mim — o do cuidado com o outro, da responsabilidade, da empatia. O mesmo cuidado que ele não teve comigo. Não porque seja uma pessoa má; simplesmente não ativou nada em resposta. Ele estava buscando ser cuidado, não cuidar. E é uma pessoa confusa, que nomeia, objetifica e corre atrás de um sentimento que nem sabe exatamente o que é. No meio dessa bagunça estava eu — oferecendo o meu melhor e disputando atenção em meio a uma multidão que distrai, excita e anestesia.

Mas saí disso sem me despedaçar e mais forte do que antes. Agora tenho ainda mais clareza sobre o que não quero para mim. Não há nada nele que compense toda aquela superficialidade — nem que eu me coloque no papel de atuar com alguém sem talento. As cortinas nunca fechavam, e eu aqui improvisando a exaustão com alguém que veio buscar algo que jamais soube exatamente o que era.

O carregador vai pro lixo. Aqui não é achados de pessoas perdidas.