sexta-feira, 15 de maio de 2026

Achados e perdidos

Parei de olhar se ele estava on-line. Parei na quarta-feira. E tenho segurado o impulso de achar que uma conversa resolveria qualquer coisa. Fiquei em silêncio desde que bloqueei, e ele não veio atrás — acho que nem virá.

O carregador ainda está aqui. Não decidi o que fazer com ele, mas não por apego — simplesmente não parei para pensar. Talvez alguém precise. Ou talvez isso seja uma metáfora: no último gesto de cuidado, eu não o jogar fora. Porque jogar fora seria desprezá-lo de verdade. E eu nunca quis me desfazer dele.

Desde o começo, ele ativou um lugar muito específico em mim — o do cuidado com o outro, da responsabilidade, da empatia. O mesmo cuidado que ele não teve comigo. Não porque seja uma pessoa má; simplesmente não ativou nada em resposta. Ele estava buscando ser cuidado, não cuidar. E é uma pessoa confusa, que nomeia, objetifica e corre atrás de um sentimento que nem sabe exatamente o que é. No meio dessa bagunça estava eu — oferecendo o meu melhor e disputando atenção em meio a uma multidão que distrai, excita e anestesia.

Mas saí disso sem me despedaçar e mais forte do que antes. Agora tenho ainda mais clareza sobre o que não quero para mim. Não há nada nele que compense toda aquela superficialidade — nem que eu me coloque no papel de atuar com alguém sem talento. As cortinas nunca fechavam, e eu aqui improvisando a exaustão com alguém que veio buscar algo que jamais soube exatamente o que era.

O carregador vai pro lixo. Aqui não é achados de pessoas perdidas.

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