No passeio público, ele segurava minha mão como quem salva a si mesmo.
A perna balançava sem parar. Um motor ligado o tempo todo. Ansiedade pura de estar perto, de não perder o contato nem por descuido. Não se importou com os que passavam; se importou em não perder um segundo da conexão.
Apenas vinte anos. Leucemia em estágio inicial. A enorme quantidade de pílulas me lembrava o cheiro de morte. Mora sozinho na cidade, longe do interior de onde veio, longe de quase tudo. De todos. De qualquer coisa que lhe salvasse. Falava comigo como se eu fosse uma promessa silenciosa de estabilidade, de cuidado. Não pediu nada diretamente, mas tudo nele pedia: aceitação, validação, permanência.
Eu, aos trinta e cinco, entendia demais.
Reconhecia aquela urgência de existir para alguém. Aquela ideia perigosa de que, se o outro ficar, talvez a gente fique também. O tempo urge, mas a idade me mostra hoje o quão triste aquela atitude era. Revi todas aquelas sensações de interpretar qualquer presença como amor. Tentei ser responsável, não me aproveitar daquela ingenuidade tão pueril.
Quando ele me fazia carinho, era como se estivesse tocando um lugar antigo. Não exatamente em mim — mas nele mesmo. Ou em mim aos vinte. Um Breno mais novo, carente, tentando ser bom, agradável, desejável, na esperança de ser visto, de finalmente ser escolhido.
Quis retribuir. Quis acolher.
Mas com a prudência de quem já sabe que não é seguro, aos vinte, tentar comprar reconhecimento com o próprio corpo. Que sexo e contato físico não podem carregar sozinhos a tarefa de salvar alguém do abandono.
Permiti que ele me encarasse. Que passasse a mão no meu corpo enquanto dizia o quão bela achava a carne. Emprestei afeto, dei calma ao lhe ceder colo. A vontade de me fazer sentir sua intensidade era tão grande que se denunciava no gemido de prazer.
Ele não se apaixonou por mim.
Apaixonou-se pela imagem de que, ficando perto, talvez pudesse cuidar de si. Entregou-se rápido demais, deixou escapar um “eu te amo”, talvez tentando garantir amor a qualquer custo.
E eu fiquei ali, de mão dada com ele, segurando também tudo aquilo que reconhecia como meu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário