quarta-feira, 3 de junho de 2026

Dois amores

Eu tenho dois amores, não sei como explicar.

Um me vem às quintas. Nos falamos as terças como quem encomenda um bolo: Olá, me vê um bolo moreno, aquele gostoso chocolatudo que acalenta, acalma e concilia? Pra quinta, às 18:30.

Ele diz que sim. E traz aquele corpo lindo, atirado na minha cama como quem se entrega a alguém que conhece. Ao lado da cama toca Emílio Santiago, Jorge Vercilo, Djavan. Ele dorme no meu peito e os nossos corpos se encaixam de maneira que poucos encaixaram. Não tem erotismo exacerbado, não tem trocas de putaria, não tem promessa. É sóbrio e sincero. Não se explica, não se aprofunda. É presente: vive ali o presente. Vai embora após a meia noite sob protestos de já ter se estendido. Diz que até quinta que vem e tem sido assim.

O outro é no sábado. É tolo, é bobo e sexual. É o tom etílico no ponto de chamar ao ébrio. Fala sobre ser responsável enquanto bola um pastel e queima nossas ideias. É meu amor obediente e interesseiro. Se despe por pedido e necessidade. E eu engulo como quem se alimenta de algo que satisfaz ao vício do próprio desejo. Se estende, quase que pede para continuar junto pela companhia. Se vai prometendo novos pãezinhos. 

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