segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Agora que foi

Tenho pensado em nós dois. Tenho pensado mais em ti, na verdade. Mas a primeira frase que me veio foi falar da nossa unidade. Aliás… existe unidade?

Tenho pensado em ti com medo. Medo mesmo. Tenho recusado esse pensamento. Ele vem, eu rejeito, e ele volta. Mas medo de quê, catapimbas? Como um serzinho tão maravilhoso como você poderia me provocar medo?

Tenho medo de que esse sentimento — o qual tento nomear para reconhecê-lo — seja fruto de alguma elaboração traumática. Joguei tanto medo em cima de nós… de ti, aliás, né… que frustrei qualquer boa intenção que talvez tivesses.

E esse medo quase se iguala ao tamanho da minha admiração por ti.

Confesso: eu te subestimei. E já te pedi desculpas por isso. Perceba que, quando peço desculpas, é porque reconheço que errei. Afinal, não se pede desculpas sem achar que deveria ter feito diferente.

E isso, por si só, já denuncia que eu não penso mais assim.

Dá trabalho reconhecer que erramos, e nem todos se dão essa tarefa. O que também mostra que eu não sou aquele pensamento: foi um mau julgamento, um erro de trajetória.

E aí me dá medo de te perguntar… mas você reconhece que eu não sou aquele erro? Que aquele erro não abarca o tamanho das ações e escolhas que constroem, sei lá, o imaginário de quem eu sou?

Tenho medo de que a gente não se fale mais. As coisas ficaram mais claras agora, mas ficaram estremecidas também.

Tenho medo de que talvez essa tenha sido a minha chance de verdade… e que agora alguém leve embora o que era meu. E tenho sido honesto o suficiente para reconhecer que, se isso acontecer, talvez haja merecimento.

Eu não queria ser castigado dessa forma. Acho desproporcional. Não compete com a quantidade de coisas boas que eu nem tive a chance de mostrar.

Tenho vagado pelos dias, ansioso, esperando teu contato. Teu “bom dia” hoje foi bonito. Fiquei imaginando que te custou baixar a guarda e mandar a mensagem. Depois fiquei imaginando o contrário: que você não dava mais a mínima e que isso era só um exercício de dizer a si mesmo que “tanto faz”.

Hoje eu levantei ouvindo Te Devoro, do Djavan. Teus sinais me confundem da cabeça aos pés, mas por dentro eu te devoro.

Por ironia, o algoritmo colocou na fila Final Feliz, do Jorge Vercillo. Me deu raiva. E angústia.

Chega de fingir. Eu não tenho nada a esconder. Agora é pra valer.

Senti que ia chorar e já estava em:

“Pode me abraçar sem medo, pode encostar a tua mão na minha”.

E foi aí que me arrepiei fortemente.

Quem desejaria, entre vós, ser tão confuso e tolo simultaneamente?

Pulou pra Beija Eu, da Marisa Monte, que eu amo. Mas tento evitar essa música porque sempre tenho a sensação de que ela é comercial demais e que, justamente por isso, todo mundo gosta — porque não entende a profundidade de:


“Meu corpo no seu

Corpo eu, no meu corpo

Deixa! Eu me deixo

Anoiteça e amanheça”.


Acabei me irritando com toda a melancolia e desliguei a playlist.

Me irritou porque me encheu ainda mais de medo. Não ajudou, exceto por talvez organizar alguma coisa em torno desse medo e, no fim, repetir a elaboração.

Tenho me sentido culpado. Como quem comete um crime e vai lá se entregar, sabendo que vai pagar — e que não virá alívio.

Que agora vai começar o inferno de verdade. A danação.

E faço o exercício de criminoso, delegado, juiz e carcereiro. E, em todas as etapas, me lanço cada vez mais à sorte do medo, como quem não tem escolha. Como alguém que sabe que deve.

Ora, ora… se não são as consequências das minhas próprias atitudes.

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