Estava sentado durante a manhã, lendo com calma no meu escritório, quando chegou uma mensagem de última hora, com toda a urgência do mundo: a pessoa se apresentava, me chamava de amigo e perguntava se podia me ligar. Não sabia quem era, mas percebi que tinha o mesmo nome e sobrenome de quem já havia me enviado, duas vezes nos últimos dias, solicitação para seguir no Instagram. Comentei com Eduardo, que estava sentado ao meu lado, preparando-se para uma prova com seus textos de psicologia. Ele abriu os olhos de repente e pediu que eu não respondesse; disse que podia explicar e começou a ficar nervoso. Perguntei se tinha algo a me contar e ele puxou imediatamente o celular, como quem se entrega ao delegado, mostrando inúmeras mensagens de meses atrás em que dizia ao ex que não o queria mais e que não o procurasse.
Voltei ao computador e dei bom dia; perguntei onde a pessoa havia conseguido meu número. Ele disse que não podia contar, e mais tarde descobri que, como minha dívida é cármica, o bendito desiludido ex de Eduardo é vizinho do Tonton, meu ex-namorado. As irmãs do Ton, muito amigas, talvez lhe tivessem dado o telefone com as intenções mais requintadas de boa-fé. Até aqui, tudo está tão confuso para mim quanto para o leitor.
O ex disse que precisava me ligar para alertar sobre Eduardo: que o relacionamento dos dois havia sido horrível, que não o recomendava, que eu o atirasse à rua enquanto era tempo e que não achava justo que falasse mal dele para todos. Interrompi com pouquíssima paciência, mas ainda em tom amigável, perguntando qual o preço que aquilo tudo havia cobrado de suas emoções. Ele seguiu dizendo que ia falar com a família de Eduardo, porque aquilo não estava certo, e que ia resolver tudo... Chamei-o à consciência: é disso que não anseio interar-me de modo algum. Como pode, meses após o fim de um relacionamento ruim, alguém ainda sentir tanta fúria e angústia, fazendo um drama tão apoteótico?
Não teve jeito. Ele estava tomado por uma personalidade de vingança, de que as coisas haviam acabado sem resolução, sem que a dívida emocional lhe tivesse sido paga até o último centavo. Tentou de novo: "Mas você sabe realmente quem sou eu? Estamos falando da mesma pessoa?", ao que respondi: "Acho que você não percebeu o que está fazendo." E ainda pretendes convocar-me ao diálogo? É teu papel zelar pela tua experiência.
Disse a ele que, supondo que sua investida desse certo e eu jogasse Eduardo no mato e o amaldiçoasse para sempre, e daí? Essa bravata de Dom Quixote ia continuar até quando? Ele alertaria o próximo rapaz por quem Eduardo se interessasse? E o seguinte também? Expliquei que é assim mesmo: não controlamos o que os outros dizem ou sentem, e a narrativa sempre puxa para o lado de quem a conta. Disse que ele não precisava da minha validação, que dormisse sossegado naquela noite, porque eu jamais julgaria alguém que não conheço e não faria esforço para me lembrar dele no dia seguinte. Fui infeliz, mas tive que dizer que o problema não era comigo: Eduardo não o queria mais, havia meses. E que, se ele havia escolhido permanecer num relacionamento ruim, isso fora ação, fora decisão; agora teria de amargar suas emoções e assumir a tarefa de se curar. E ainda assim ele se compraz? O ônus é dele.
Não teve jeito mesmo. Tudo isso para o pobre rapaz, no final, desabar em súplica: "Deixa ele pra mim. Eu só tenho ele. Nós erramos, mas eu o amo, tenho medo de viver sem ele." E eu, acostumado a exercitar meu coração de gelo de professor que não arredonda 2,5 para 6, apenas respondi: "Você teve. E agora é o momento de seguir em frente." E larguei o pobre diabo falando sozinho, tal qual teria feito Sancho Pança.
Olhei para o lado: Eduardo pressionava com a mão o enorme pau dentro do short fino de academia que eu lhe havia emprestado. Perguntei o que significava tamanha falta de respeito com um escritório sempre tão bem frequentado, e ouvi que ele havia ficado excitado me vendo defendê-lo. Eu não estava defendendo nada, estava silenciando um ruído. O pau babado de Eduardo, do tamanho da idade dele, não se continha dentro do short, e ele soltou um “quero te comer”, e eu achei que aquela homenagem era, de alguma forma, o saldo positivo de alguma dívida, agora por mim quitada.
Ainda tentei "se quiser posso me higienizar a contento". Não deu tempo sequer de beijá-lo. Ele mandou que eu ficasse de quatro na cadeira e aguentasse, pois ali me faria ser seu homem. Tive que ser homem mesmo. Fechei as cortinas e segurei os braços da cadeira como um fiel segura um terço, para o mesmo propósito: pedir clemência e que, embora prazerosa, aquela barra de ferro saísse logo de dentro de mim. Não adianta: nunca vou me acostumar com homens dotados. Após gozar falta lógica, insensatez.
E a manhã terminou assim, com Eduardo deitado ao meu lado, me olhando fixo, o sorriso safado se desfazendo enquanto prometia fazer um bolo de chocolate à noite, como recompensa. E a moral da história: enquanto alguns choram, outros vendem lenço.
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