Me curar é o caralho, eu quero é devolver a esculhambação. "Ah, Breno, mas deixa isso pra lá. Nada do que você falar vai adiantar. Nada que você diga vai mudar o pensamento desse cara." Mas quem disse que só me adianta se eu mudar o pensamento dele? Porque, pra mim, devolver a raiva pra pessoa já vai me adiantar muito. É relevando que a gente deixa ir passando de mão em mão um monte de gente safada. Mas não no meu turno.
***
Como expliquei no texto passado, o ex do Eduardo tem me stalkeado, para não dizer o que de fato é: perseguição. Criou contas fake, conseguiu meu número; eu tentei lhe dar um pouco de tranquilidade, apaziguar. Falei ainda um tempo sobre a necessidade de cuidar da saúde mental e indiquei o hospital psiquiátrico para urgência, para lhe trazer algum alívio, para lhe dar condições de dormir à noite. Cheguei a me compadecer; ele estava tão furioso, tão angustiado, que pensei até em acompanhá-lo. Acredita nisso, leitor? Uma puta velha de beira de estrada mostrando compaixão por um desconhecido. Aliás, isso é exatamente o que uma faria. Em outros termos, claro.
Disse a ele apenas que estaria online se ele quisesse conversar enquanto aguardava atendimento. Mexeu comigo também aquilo. Eu já estive nesse lugar, material e metafórico. Imaginei como ele deveria estar, sozinho lá, numa noite de desamparo. Escrevi como ele deveria comunicar seus sintomas ao médico, falei da necessidade de sair de lá com receita e ir direto para a farmácia começar o tratamento. Ele agradeceu, disse que não entendia por que eu estava sendo tão legal, que desejava me conhecer, que não acreditava que Eduardo merecesse alguém tão maravilhoso, e eu não dei confiança. Conheço Eduardo de outros carnavais e, o mais importante, eu me conheço. Sei que Eduardo é inofensivo se comparado comigo.
Passei o dia seguinte sem responder a ele. À noite, reparei numa nova conta fake tentando me seguir no X; perguntei ao Eduardo, que já me respondeu com: "Precisamos conversar. Preciso saber se você está sendo sincero comigo. O fulano me disse que você falou coisas horríveis a meu respeito...". Acredite se quiser: a meretriz foi dizer pro meu twink favorito que eu o tinha cortejado e almejava conceder. Tal heresia não procedia! Fogueira na bicha!
Retomei o diálogo com o fulano escaralhando: "Você mexeu com a puta errada. Você pisou na bola com uma pessoa que estava tentando te ajudar". E ele, voltando ao personagem original, disse que não entendia por que eu tinha tentado ajudá-lo, que achava que era encenação para rir dele junto com Eduardo, que havia mentido mesmo, a fim de conseguir que o twink me odiasse, sem sucesso. E o estimado leitor sabe que não há nada que eu desejasse mais do que encontrar um homem traumatizado para mostrar que não existe nada tão ruim que eu não possa fazer piorar.
— Então você se fodeu. Porque eu vou chamar o Eduardo pra vir à minha casa agora, e ele vai vir, viu? E eu vou meter nele xingando você. Um abraço.
E assim o fiz. Eduardo mal tinha cruzado a porta de casa quando lancei um beijo nele, registrei em foto e mandei para o desgraçado, que não se aguentou. Teve um faniquito, envolveu a mãe dele, doente, que teve um siricutico, e passou a me mandar mensagens também, tentando entrar em conflito, veja só, com quem?
Oh, yeah! Go get Marvin! See if Marvin can make a banana split for me, you fucking cunt! Bye, Marvin!
The End of the Fucking World
Bloqueei os dois. Entrou uma tia de Eduardo me mandando mensagem, agradecendo, enumerando tudo que eu tinha feito por ele e pedindo que eu ignorasse o outro babaca lá, pois ela o conhecia e sabia que ele não tinha razão.
— Tu não se vingou, né? — perguntou meu psicólogo.
— Como assim, não me vinguei?
— As tuas vinganças são bobas; tu manda o cara pro lugar certo pra cuidar do problema que é só dele e tu acha que se vingou? Tu ainda é tão bobo que se sente culpado.
Tive que concordar. Cinismo enraizado, entalado na garganta, e tive que concordar sim, porque eu sempre estou empurrando as pessoas para o lugar onde deveriam estar. Mesmo assim, de alguma forma, eu sempre estou na cena do crime, a contragosto.
É, pra viver tem que ter peito pra vida, minha filha, é babado. Vambora.
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