sábado, 21 de fevereiro de 2026

Pêra, Uva, Maçã, Salada Mista

Tem dias em que a maturidade não vem como iluminação.

Ela vem como silêncio.

Silêncio depois de uma conversa que quase foi.
Silêncio depois de um “se for pra ser, será”.
Silêncio depois da coragem de não ligar.

Hoje eu escolhi não fazer nada.
E não fazer nada, às vezes, é o ato mais ativo que existe.

Eu poderia ter ligado.
Poderia ter ensaiado um “e aí, como você está?”.
Poderia ter feito aquele movimento elegante de quem parece casual, mas está tremendo por dentro.

Mas não fiz.

Fiquei.

Fiquei com o desconforto, com a incerteza, com essa sensação meio ridícula de que talvez eu tenha perdido algo que ainda nem era meu.

Perdi a possibilidade que imaginei.
E isso dói mais do que eu gostaria de admitir.

Adulto é uma coisa estranha.
A gente aprende que não pode fazer escândalo, que não pode agir no impulso, que não pode transformar cinco dias de silêncio em tragédia grega.
Então a gente respira.
E fica quieto.

Mas quieto não significa indiferente.

Quieto significa:
eu estou sentindo, mas não vou deixar o sentimento dirigir.

No meio desse exercício todo de responsabilidade emocional, minha amiga perguntou se eu queria hot dog.
Eu disse que sim.
E pedi também uma opção doce — para uma criança de 35 anos que estava querendo evitar uma birra emocional.

E foi aí que eu entendi.

Talvez maturidade não seja engolir o choro.
Talvez seja aceitar que, no amor, a gente ainda brinca de pêra, uva, maçã, salada mista.

A gente escolhe às cegas.
A gente deseja “salada mista”.
Mas precisa aceitar que talvez venha só um aperto de mão.

A venda não cai quando a gente quer.
O outro não escolhe no nosso tempo.

E enquanto isso, a roda gira. Mesmo quando eu esperava que o carrossel girasse os passageiros do amor.

Talvez ser adulto não seja enxugar a lágrima calado.
Talvez seja chorar, aceitar a incerteza da escolha, e ainda assim escolher não agir no impulso.

Hoje eu não liguei.
Hoje eu não excluí.
Hoje eu não dramatizei.

E por hoje vamos cuidar da criança sem deixar ela dirigir o carro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Agora que foi

Tenho pensado em nós dois. Tenho pensado mais em ti, na verdade. Mas a primeira frase que me veio foi falar da nossa unidade. Aliás… existe unidade?

Tenho pensado em ti com medo. Medo mesmo. Tenho recusado esse pensamento. Ele vem, eu rejeito, e ele volta. Mas medo de quê, catapimbas? Como um serzinho tão maravilhoso como você poderia me provocar medo?

Tenho medo de que esse sentimento — o qual tento nomear para reconhecê-lo — seja fruto de alguma elaboração traumática. Joguei tanto medo em cima de nós… de ti, aliás, né… que frustrei qualquer boa intenção que talvez tivesses.

E esse medo quase se iguala ao tamanho da minha admiração por ti.

Confesso: eu te subestimei. E já te pedi desculpas por isso. Perceba que, quando peço desculpas, é porque reconheço que errei. Afinal, não se pede desculpas sem achar que deveria ter feito diferente.

E isso, por si só, já denuncia que eu não penso mais assim.

Dá trabalho reconhecer que erramos, e nem todos se dão essa tarefa. O que também mostra que eu não sou aquele pensamento: foi um mau julgamento, um erro de trajetória.

E aí me dá medo de te perguntar… mas você reconhece que eu não sou aquele erro? Que aquele erro não abarca o tamanho das ações e escolhas que constroem, sei lá, o imaginário de quem eu sou?

Tenho medo de que a gente não se fale mais. As coisas ficaram mais claras agora, mas ficaram estremecidas também.

Tenho medo de que talvez essa tenha sido a minha chance de verdade… e que agora alguém leve embora o que era meu. E tenho sido honesto o suficiente para reconhecer que, se isso acontecer, talvez haja merecimento.

Eu não queria ser castigado dessa forma. Acho desproporcional. Não compete com a quantidade de coisas boas que eu nem tive a chance de mostrar.

Tenho vagado pelos dias, ansioso, esperando teu contato. Teu “bom dia” hoje foi bonito. Fiquei imaginando que te custou baixar a guarda e mandar a mensagem. Depois fiquei imaginando o contrário: que você não dava mais a mínima e que isso era só um exercício de dizer a si mesmo que “tanto faz”.

Hoje eu levantei ouvindo Te Devoro, do Djavan. Teus sinais me confundem da cabeça aos pés, mas por dentro eu te devoro.

Por ironia, o algoritmo colocou na fila Final Feliz, do Jorge Vercillo. Me deu raiva. E angústia.

Chega de fingir. Eu não tenho nada a esconder. Agora é pra valer.

Senti que ia chorar e já estava em:

“Pode me abraçar sem medo, pode encostar a tua mão na minha”.

E foi aí que me arrepiei fortemente.

Quem desejaria, entre vós, ser tão confuso e tolo simultaneamente?

Pulou pra Beija Eu, da Marisa Monte, que eu amo. Mas tento evitar essa música porque sempre tenho a sensação de que ela é comercial demais e que, justamente por isso, todo mundo gosta — porque não entende a profundidade de:


“Meu corpo no seu

Corpo eu, no meu corpo

Deixa! Eu me deixo

Anoiteça e amanheça”.


Acabei me irritando com toda a melancolia e desliguei a playlist.

Me irritou porque me encheu ainda mais de medo. Não ajudou, exceto por talvez organizar alguma coisa em torno desse medo e, no fim, repetir a elaboração.

Tenho me sentido culpado. Como quem comete um crime e vai lá se entregar, sabendo que vai pagar — e que não virá alívio.

Que agora vai começar o inferno de verdade. A danação.

E faço o exercício de criminoso, delegado, juiz e carcereiro. E, em todas as etapas, me lanço cada vez mais à sorte do medo, como quem não tem escolha. Como alguém que sabe que deve.

Ora, ora… se não são as consequências das minhas próprias atitudes.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

É o carnaval das frustrações

Anísio, me desculpa? Eu sei que vc tá chateado e vc tem razão de estar. Mesmo que vc não vá mais falar comigo, eu não quero perder a oportunidade de dizer que eu tô errado e que sinto muito por te magoar. Eu nunca tive a intenção de te magoar nem de usar teu sentimento. Eu fui imaturo e inseguro. Eu errei pra fingir pra mim mesmo que eu não gostei de cara de ti. Eu queria não dar importância pra esse sentimento, porque me jogar de cabeça nesse sentimento seria reviver todo o medo do abandono de novo. Eu tenho uma ferida muito grande dentro de mim, a ferida da rejeição, então eu tratei de errar logo com vc pra não dar chance de que algo maior e bonito pudesse florescer.

Eu queria poder estar à altura do teu amor, de merecer ser querido por vc. Não consigo acreditar que eu mereça ser desejado ou amado por alguém tão bonito como vc. Vc é bonito, gentil, educado, esforçado. E eu? Eu sou só um frustrado que não consegue aceitar que ainda existem pessoas como vc.

Talvez o seu ex não tenha se redimido e reconhecido o próprio erro, e tantas pessoas não fizeram isso comigo: simplesmente erraram e foram embora, me largando com o meu sentimento. Eu imagino que vc possa estar sozinho agora, chateado comigo, e eu não quero que esse mau sentimento seja desamparado. Por isso, tô aqui assumindo a minha culpa, a responsabilidade pelos meus atos e te dizendo que, de qualquer forma, eu acabei fazendo mal a mim mesmo também. Errei pra não me jogar de cabeça nessa relação e evitar a dor da perda, e eu perdi de qualquer forma, e de forma leviana. Não desejaria que ninguém fizesse isso comigo e também não tinha planejado te fazer mal. Eu só fui fingindo que vc não ligava tanto assim pra mim e que isso não passaria de um flerte.

Te adoro de verdade. Adoro a forma como vc me olha, gosto da forma afetuosa que vc usa pra falar o que sente por mim. Penso sempre no jeito carinhoso que vc segurou minhas mãos lá no shopping.

Talvez a gente tivesse tido uma relação bonita e duradoura, e isso é o que me assusta, porque eu não acho que sou merecedor disso.

De verdade, me perdoa pela sacanagem. Eu queria poder te merecer, eu só não sei como fazer isso. Eu sofri tanto em relacionamentos todos esses anos que eu saboto qualquer possibilidade de ser feliz com alguém. Tenho me sentido vazio, tem sido muito confuso esse processo de me readaptar em novos espaços em Manaus. Ainda não tô na minha casa, não consigo visualizar minhas coisas, meu refúgio. Tenho vivido como se estivesse passando pelos lugares e pelas pessoas. Talvez isso possa justificar o modo como eu te tratei, como se fôssemos passageiros, mesmo que não intencionalmente.

Mas eu gosto de vc de verdade e é por isso que estou te pedindo desculpas, pra pelo menos te dizer que eu me importo com o seu sentimento.

Perdão, amor.