quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Ergam as taças!

Pra você que tentou, de diversas formas, me prejudicar este ano: eu te desejo este drink.

Eu sei que você gostaria de ser este drink, pra eu te segurar, poder te beber, me encher de você e você ser a razão do meu desejo. Infelizmente, você só tem talento pra me saturar de tédio e pra você vai sobrar somente o desejo de ser.

Eu sei que deu trabalho e você não deseja ser esquecido; por isso, eu não vou ser cínico de dizer que esqueci todo o mal que você tentou me fazer. Porém, de todo o seu desejo, dentro de mim sobrou apenas a ironia de perceber como alguém pode ter tanta fixação e se esforçar tanto para gastar energia com algo que não retorna positivamente para si. Do ponto de vista prático, você não ganhou nada e ainda perdeu o bem mais valioso da sua vida: o seu tempo.

Por isso eu decidi tirar um momento pra celebrar você, pra te dar a atenção que você tanto precisava: um brinde ao seu esforço, à sua audácia, à sua coragem. Brindo também à sua ingenuidade e pequenez. Traguei o seu desejo recalcado — e segui.

É realmente uma pena que você desperdice tantos dos seus recursos para ganhar a minha atenção, de qualquer forma você jamais conseguiria estar aqui comigo, tomando este drink. Porque o gosto não te geraria prazer: tem sabor de desejo frustrado.

Porque você foca em mim, e não no seu crescimento pessoal. Eu sou o começo e o seu fim. Você gostaria de ser eu e, justamente por se dividir para gastar essa energia excessiva e desproporcional, você não consegue chegar a ser eu, nem você mesmo.

E, dessa forma, você jamais prosperará para chegar perto de mim ou dos lugares onde eu conquistei entrada. Mas o espetáculo foi divertido.

Saúde! 🥂

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Quando a porta se fechou

Depois de todos esses anos, aparecer para dizer que ainda me ama? Às vezes, nem é amor; é remorso. Porque você sabe que errou com uma pessoa boa, que te amava, cuidava, se dedicava, e você descartou para atender somente aos seus desejos sexuais. E, de qualquer ponto de vista, foi egoísmo seu no passado e é agora também.

E você nitidamente não evoluiu, só está mais velho; não tem mais a mesma juventude e o rostinho de bebê para ganhar atenção. Você nunca seria capaz de perceber o dano que tudo aquilo me causou naquela época. Você apenas rodou o mundo, não ganhou nada melhor e percebeu que desperdiçou o seu tempo.

Eu lembro, sim, daquela última noite lá na mesa de casa, mas lembro principalmente do meu sentimento. E não se equivoque: eu lembro para não voltar a fazer o mesmo, para não permitir que alguém use o melhor que eu tenho contra mim. Eu me perguntava se teria sido diferente se você tivesse ficado, e parei de me perguntar quando comecei a me cuidar.

É apenas memória, não é amor; isso você levou junto quando saiu por aquela porta.

Mas eu te desejo todo o amor que houver nesta vida e volte para a sua caminhada, porque eu não tenho nada para te dar.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Tá custando 27 reais a entrada para o cemitério das velhas emoções

Não sei exatamente se faria jus dizer que custa 27 reais a entrada — ou a revisita — ao cemitério das velhas emoções. Mas começo dessa forma para avisar ao leitor que, desta vez, a metáfora está escrachada e talvez tão literal que perca a real intenção de ser eufêmica novamente ao retratar o velho e fiel companheiro: o estresse pós-traumático. Viu? Não consigo segurar o primeiro parágrafo sem me decidir se embelezo ou vou direto ao problema.

Por fim, tomado pelo cansaço do avançar da hora e da natureza intrinsecamente esgotante do problema — o TEPT, que deveria estar subentendido —, agora opto por não seguir estilo nenhum. Afinal, quem quer estar cagando regra na madrugada da sexta para o sábado, isolado, explicando o custo biológico, psíquico e monetário de invadir o próprio sofrimento e expô-lo como se alguém fosse descobrir agora mesmo que sou culpado de gastar 27 reais para tornar material o meu pesar.

Sinto que quase chorei, mas não me daria esse luxo em público. Já foi luxo demais gastar 27 reais num pedaço de cheesecake na tentativa de visualizar o que tinha se dado como resolvido e que apenas um período de sofrimento trouxe tudo à tona novamente. Com uma força tão ordinária que não parece justificar ter alimentado meu cérebro com tanta glicose apenas para recalcar velhas emoções.

Repare bem, leitor, que prometo e falho em ser literal ou metafórico. Esse jogo de ir e vir que todos nós fazemos, mesmo quando damos muita importância à consciência. O orgulho de Lacan.

Faço um novo teste na intenção de, por fim, tentar exorcizar essas emoções.

Após anos de insegurança alimentar, já estabilizado financeiramente, criei o hábito inconsciente de vagar pelas ruas da minha cidade à procura de uma cafeteria que justificasse a fuga e, ao mesmo tempo, confirmasse que, ao sentar, pedir e degustar, eu já não estava mais naquela época de incerteza. Que aqueles contextos de tormento tinham ficado para trás.

E, mesmo tendo se passado mais de um mês desde o fim dos sete meses em que experimentei novamente toda a angústia de adiar o conforto do paladar para realizar velhos sonhos — agora ressuscitados —, ainda me sinto indigno do cuidado, do amor, do afeto e de aceitar que estou de volta à segurança, e que tudo aquilo foi apenas parte do desafio do projeto. Hesito em me realizar.

Talvez por isso eu tenha perambulado novamente pelos mesmos corredores de antes para encontrar a mesma cafeteria genérica, onde eu poderia sacar o mantra de que acabou — e, ao mesmo tempo, voltou. Tento, a cada garfada, dizer que isto está certo; que o velho hábito de comer uma sobremesa superfaturada e superestimada fosse me dar a tão importante confirmação de que voltei. Eu tô aqui, o cheesecake estava lá, e tudo voltou a ser o que era antes. Quase arranco um tufo de cabelo para me certificar de que era real. Talvez essa dor específica me trouxesse ao fato de que eu a provoco e, assim, tenho o controle, não sendo mais imputado às intempéries das noites frias de desconhecimento.

Eu como, alimento e conforto. Os velhos verbos imperativos que traduzem voltar a esse cemitério. A busca vazia da seduzente alienação. Como se revisitar um lugar de pedra, mármore e gente morta pudesse trazer a segurança daquele tempo — ou qualquer outra coisa que se busque como consolo num espaço onde se guardam memórias por consideração, cuidado e inevitável finitude.

E, afinal, o cheesecake condensa classe, trauma, desejo e culpa. Não é prazer pleno, é teste. É o mero objeto de verificação do material. Ele não simboliza vitória, simboliza prova — e isso é o que dói.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Maldita seja

Não tomo água da torneira. Detesto. Não tomo. Acho anti-higiênico, acho o gosto ruim, um horror, não tomo. Pode argumentar que a água vem tratada, que é de poço, que é própria pra consumo, não tomo. Poderia ser das torneiras do Canadá, não tomaria. Acho que muito disso tem a ver com o fato de eu ter feito trabalho de campo em área rural por muitos anos, onde faltava infraestrutura e saneamento básico, mas sobrava generosidade dos agricultores, que sempre me enchiam a garrafa para que não desfalecesse num calor detestável do verão amazônico. Detestável igual à água de torneira. Mas o café era bom. Ah... o café era sempre saboroso e acalmava um pouco da fome que vinha cobrar o preço da caminhada a cada par de horas.

Gosto de água tratada. Sabidamente tratada. Isso se dá pelo fato de que fui criado por dona Sônia, que é paranóica com saúde e higiene, e vice-versa. Paranóica de dar nos nervos. Quando criança, me incomodava muito ter que ficar lavando as mãos e tomando água onde chegasse. Me obrigava sempre que chegávamos a qualquer ambiente: "lava as mãos e toma água. E pega pra mim." Não entendia a lógica ritualística, mas hoje sei que a pobre só estava preocupada em me manter hidratado no calor de Belém e com as mãos limpas para não levar germes à boca. Deus sabe que crianças levam as mãos à boca toda hora, sem sequer calcular o ato. E para minha mãe, que tinha abundância de cuidado e escassez de grana, era uma forma de me deixar saudável, ou pelo menos evitar alguma doença onerosa e desnecessária. Hoje fico imaginando sua aflição, cuidando de dois, sem recursos e paranóica.

Mantive o hábito saudável. Onde chego, tomo água e lavo as mãos, às vezes lavo várias vezes sem sequer trocar de ambiente. Não me incomoda mais — gosto. Talvez por isso um dos imperativos para morarmos juntos foi ter trazido meu garrafão apertado entre tuas pernas no carro e a recomendação para que não me permitisse cair. E esta bomba, hein? Uma de nossas primeiras aquisições de nossa junção em tua casa. Achei que essa bomba não iria durar, sabia? Das outras vezes que comprei, essa bomba de sucção não durou nada. E descarregava muito rápido, me provocava ódio. Quando menos se espera, espera-se tirar água do garrafão — após lavar as mãos — e a inútil, novamente descarregada. Outro dia, em Santo Amaro, no meio das compras das bugigangas, fixei outros modelos de bombas de sucção para garrafão de água. Me fascinei pela aparência e pela usabilidade delas. Cismei que era necessário ter mais de uma para quando a outra descarregasse.

Não deu tempo. A nossa bomba só descarregou uma vez, e ela estendeu-se mais do que a nossa convivência. Que explodiu, e tem explodido sempre. E eu explodi por tu beberes água da torneira, e tu explodiste porque, pra ti, é frescura tomar água mineral. E nós explodimos por tantos outros motivos. Implodimos. E não foi possível higienizar a relação, não foi possível tratá-la. Jogamos no ralo todo o resto do que poderia ter sido cuidado, para não nos adoecer. Definitivamente, não deu tempo sequer de a bomba pifar e ser necessário comprar outra. Malditas sejam todas as bombas de água.

Sabia?

Sabe que eu tento me comunicar de maneira submissa e superprotetora com você? E que eu calculo todas as minhas palavras e tomo cuidado pra ser gentil e doce para não correr o risco de vc interpretar errado e ficar frustrado? Eu sinto muita culpa e preciso sempre tá me policiando, vigiando e exigindo pra te proteger de frustração. Assim eu evito receber críticas e punições que as vezes me levam acreditar que eu sou merecedor. Eu me sinto ansioso e sobrecarregado no meu dia a dia. 

Sabe a última vez que eu me senti dessa forma hipervigilante enquanto eu convivia e me comunicava com alguém? Com o meu pai.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Ainda Sinto o Cheiro da Droga do Malbec

Eu sei distinguir todos os tipos de Malbec que tu usava. O tradicional, o Gold, o Magnetic, o Noir.


Não é que o cheiro me siga —

é que eu ainda reconheço o que um dia foi casa.


E, queira ou não,

casa foi o que a gente foi um pro outro.


Tu lembra da tapioca com queijo que fazia pra mim?

Do cuscuz com manteiga demais,

que tu dizia que era pra eu “parar de frescura”?


Eu lembro.


Lembro do som da tua risada na cozinha,

da cerveja escondida na varanda,

da primeira vez que a gente fumou um back

e achou que o mundo inteiro era pequeno demais

pra caber o que a gente sentia.


Porque sim —

a gente sentia.


Mesmo fingindo que não.

Tinha um peso no ar, um desejo quieto,

um toque suspenso entre a amizade e o que nunca teve nome.

Tu sabia.

Eu também.


E todas as vezes que tu caiu,

eu tava lá.


Quando tu bateu na minha porta de madrugada,

tremendo, chorando, sem saber o que fazer —

fui eu quem abriu.


Quando tu perdeu o rumo,

quando tu ficou desequilibrado,

quando o mundo te virou as costas —

fui eu quem ficou.


Mesmo quando ela já sabia de tudo,

quem tava lá era eu.


Tu esqueceu disso, né?

Ou fingiu que esqueceu.


Fui eu quem te empurrou pra ela.

Fui eu quem disse que vocês combinavam.


Eu, com essa mania de achar bonito o amor dos outros,

mesmo quando ele me arranca em silêncio.


E quando vocês se assumiram,

eu desapareci.


De repente, o “nós” que existia

virou “vocês”.


A tua risada ganhou outro eco,

o teu cheiro outro corpo,

o teu mundo outro endereço.


Agora vocês moram juntos,

fazem planos,

dividem a vida que um dia tu dividiu comigo.


E eu fico aqui, tentando convencer a mim mesmo

de que tudo bem.


De que foi melhor assim.

De que eu não sinto mais nada —

embora o corpo desminta cada tentativa.


Mas às vezes,

basta o vento trazer o cheiro da droga do Malbec —

qualquer um deles —

pra eu lembrar que, no fundo,

tu ainda mora em mim.


Eu só acho muito injusto

que a gente tenha terminado assim.


Eu só acho muito injusto

que a gente tenha que fingir que o outro não existe.


Eu não me conformo com o cheiro desse perfume.



segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Perfeito pra ti

Sou um romântico incurável 

Frio e distante 

Sou sozinho e exigente 

Sou moralista 

Insuportável 

Pessimista 

Meio tóxico 

Hipervigilante

E sem foco

Mas foi com você que eu me abri

Sou inteligente e caricato 

Profundamente superficial 

Sou intenso, de um medo abissal 

Odeio falar 

Mas adoro conversar 

Não quero mais quantidade 

Quero nossas tardes de qualidade 

Te protegendo 

Me protegendo 

Do mundo 

De todo mundo

Deixa eu cuidar 

Te guardar pra mim

Sou esquisito, incompreendido 

Mas sou perfeito pra ti