Um café movimentado no fim da tarde. Cheiro de grãos torrados e leite vaporizando. Louça tilintando ao fundo, o zunido baixo da máquina de espresso. PEDRO já está sentado a uma mesa de canto, girando a colher dentro de um café que esfria. DAN entra, tira o casaco, senta-se de frente, animado.
- Oi, amor. Como você está? Me fala como foi o dia. (puxa a cadeira, já se acomodando como quem tem tempo de sobra)
- Foi bom, bem. Aquele cliente que comprou o carro para a mulher chata foi lá reclamar que o teto solar não abre todo.
- Casalzinho chato, hein. Eles não fizeram o teste drive? (ri, batendo de leve na mesa)
- Então!
- Nossa, viu. Mas e aí?
- Ah, daí mandei reclamar com o gerente que eu não faço pós-venda.
- (ri) Você sempre sendo podre.
- E o seu?
- Estou odiando essa disciplina. A porra do professor nem é da área e colocam o desgraçado para ministrar. (revira os olhos, mexendo o café sem beber)
- Por que você não cancela?
- Já passou do período dessa merda.
- Ah, faz. Se livra.
- É, pelo menos termino os créditos de uma vez.
- Pois é.
- Então, estava pensando da gente pegar um motelzinho com aquele casal do insta. (se inclina para frente, cotovelos na mesa, sorriso já pronto)
- Quem?
- Aquele urso e a bichinha.
- Ah, urso é a sua parada, não é.
- Mas você fica com a bichinha. Olha, dizem que ela faz uma gulosa, viu. (pisca)
- Não estou muito na vibe. (olha para a xícara, não para ele)
- Como assim não está? Você adora fazer a três comigo.
- Então, eu gosto de estar com você.
- Iiih, que baixo astral é esse? Sai dessa, vida. Esse lance do carro seu gerente resolve, vamos relaxar hoje. (estica a mão sobre a mesa, tenta pegar a mão dele)
- A gente já relaxou duas vezes essa semana.
- E quem não gosta de relaxar? Hein, bora. (insiste, dedos roçando os dele)
- Na verdade eu marquei de ir tomar um drink com um colega de trabalho.
- Mas sem me avisar? (recolhe a mão, se ajeita na cadeira)
- Foi literalmente agora na saída, vim aqui porque a gente marcou de se ver antes da sua próxima aula.
- Tá, então cancela, adia. Eu falto aula e vamos para o motel só nós dois, que tal?
- Eu não quero ir para o motel, eu quero um pouco de atenção hoje. De conversar. (finalmente encara ele)
- Para com essa baixa vibração! Conversar é papo de otário, vamos gozar! (ri, tenta transformar em piada)
- Eu tenho me sentido muito sozinho.
- Amor, a gente literalmente vive cercado de amigos, família…
- Pois é, e mesmo assim eu estou me sentindo sozinho.
- Mas o que é — (se corrige, irritado) — Que saco, eu estou tentando ficar com você e você está reclamando de solidão? Você quer brigar? Isso é mais um dos seus motivos para estragar o rolê? Quer briga, então briga, vai, chato. Nossa! (bate a mão na mesa, louça treme)
- (silêncio. Pedro olha para a rua através do vidro embaçado)
- Desculpa, fala o que foi. (voz mais baixa, mas ainda impaciente)
- Essa é a parada. A gente nunca está só. Parece que a gente odeia o silêncio, a calmaria. Precisa estar sempre correndo atrás da excitação. Os nossos amigos têm sido para preencher um vazio que não se preenche quando estamos sós.
- Meu Deus, você adora os nossos amigos! Por que isso agora?
- Eu adoro, mas gostava mais de ficar só com você. E a nossa vida foi caminhando para estar sempre rodeada de gente. No começo eu achava legal, achava que você estava me inserindo na sua rotina, na sua vida. Mas agora com esse relacionamento aberto, eu tenho sentido saudade de me sentir visto.
- Vida, a gente passa o dia inteiro conversando, a gente sabe tudo um sobre o outro.
- E ainda assim eu sinto que você não me conhece. Tudo tem partido de alguma demanda nossa, não só minha. Não tem nada íntimo meu que você realmente tenha participado.
- Tá, então me fala algo seu íntimo que eu precise saber. (cruza os braços, quase um desafio)
- Eu conheci um cara.
- Tá, traz ele para jantar lá em casa e a gente fica com ele. (resposta imediata, automática — nem pisca)
- Não é desse jeito.
- Qual então? Qual é a dele?
- Nada demais. Ele é gracioso.
- Gracioso? (engasga com o riso) Que porra é essa? Desde quando gracioso começou a ser usado no nosso vocabulário de putaria?
- Dan, tenta entender o que eu estou dizendo.
- Pedro, fala de uma vez o que você quer, saco velho.
- Olha. Eu tenho sentido falta de exclusividade. De alguém me olhar e desejar somente a mim. De me sentir especial. E nem comece dizendo que eu sou especial. Eu e mais vinte, não é?
- Pode parar por aí. Você está traindo o nosso acordo que era não se apegar. Chupa ele e se manda.
- Eu não chupei ele.
- Então chupa, ué. Chupa, mata essa vontade e já bloqueia porque você já tá me crisando, não gostei dessa fantasia. (mexe a colher com força, café respinga na mesa)
- Não é fantasia.
- Como assim? Quem é esse cara? O que ele tem?
- Eu gosto da atenção dele. É isso. Ele gosta de ouvir o que eu digo. Ele tem um riso fácil. Não sei descrever, tem um mês que ele entrou na concessionária. O gerente me colocou para treinar ele e a gente tem passado muito tempo juntos.
- Você sabe que isso é traição, não é? A gente já conversou sobre isso.
- Eu não estou traindo nada.
- Claro que está, você está apaixonado, caralho! (voz sobe, alguém na mesa ao lado olha de relance)
- Eu estou interessado nele. Ponto.
- E você não vai mais ficar com ele, eu não deixo.
- Eu não vim pedir autorização, Dan, eu vim te comunicar.
- Caralho, como é que eu vou assistir aula depois dessa? Você vindo me dizer que está apaixonado pelo cara com quem vai tomar um drink? Eu não quero que você fique com ele, está decidido. E vamos embora para casa, que eu já me encaralhei.
- Não.
- Não o quê, porra?
- Não vamos. Eu não vou para casa. Eu vou encontrar o Gustavo.
- Gustavo, o nome da puta? (ri sem graça, um riso que já não convence nem ele mesmo)
- Dan!
- Como você quer que eu fique?
- Não dá mais para mim esse tipo de acordo.
- Não dá porque é você quem está quebrando, não é? Muito conveniente!
- Eu entrei nesse acordo porque eu queria te agradar e eu não estou feliz nele.
- Justamente quando conhece outro “gracioso”? Vai dizer mais o quê? Que ele é diáfano?
- (ri, contido, apesar de tudo) Tem isso também.
- Para, porra! (mas o canto da boca também cede, por um segundo, antes de fechar de novo)
- Sério, Dan. Não dá mais. Esse lance, nós dois. Eu estou cansado dessa roleta russa de emoções.
- Você está terminando comigo por causa de um cara que acabou de conhecer? Nós ficamos com vários caras e eu nunca troquei a nossa exclusividade afetiva.
- Isso é exatamente trocar a nossa exclusividade. Você não me quer, e também não consegue elaborar isso. Por isso quer que eu esteja nessa fantasia de ter todo mundo. Quem tem tudo não tem nada.
- E agora eu fico sem você também? (a voz falha, ele desvia o olhar para a janela)
- A gente nunca foi tão assim um do outro, não é?
- Mas eu te amo, você sabe disso.
- Não acho que seja bem amor a palavra. Mas ainda fico feliz que você consiga organizar dessa forma dentro de você. Eu te amo, mas não desse jeito.
- Cara, não faz isso. Não destrói a nossa história. O sexo com esse cara pode nem ser bom do jeito que você está idealizando. Vai, toma seu drink, você não está pensando direito. Fica com ele e vai para casa depois, eu peço pizza, a gente assiste o filme da Bridget Jones que você gosta e dorme agarrado.
- Viu? É isso. Você já fez o plano inteiro sem me comunicar, sem perguntar o que eu quero.
- Mas você gosta de Bridget Jones, não sou eu quem gosta! Eu estou abrindo mão de todos os meus planos para assistir o filme que você gosta!
- Que eu já assisti sozinho, não é?
- Como assim? E nem me chamou?
- Você nunca está na vibe para fazer isso comigo.
- Poxa, vida, não faz assim.
- Eu tenho sentido falta de mim mesmo. Tenho sentido falta de ser incluído nas decisões.
- Literalmente eu pago por tudo que você quer.
- Eu não preciso que você pague porque tem mais dinheiro. Eu precisava me sentir escolhido. E dinheiro não compra essa sensação. Dinheiro não compra essa exclusividade, isso teria que partir de você realmente querer.
- Então a gente é monogâmico agora, não tem mais ninguém. Pronto. (tenta segurar a mão dele de novo, com mais força dessa vez)
- Você não ia conseguir.
- Eu consigo, eu te mostro, prometo.
- Se você quisesse isso teria feito desde o começo, não é? Mas nunca foi sobre mim, sempre foi sobre satisfazer o seu desejo.
- Porra, para de me atacar! Parece que eu sou um monstro. (solta a mão dele, se recosta, ferido)
- Você não é. Você é uma pessoa bonita, nós só não temos a mesma visão de futuro.
- O meu futuro sempre foi com você.
- O meu futuro era você. Até eu perceber que você tem me carregado junto com você. Mas não como seu parceiro.
- Por favor, gostoso. (a última tentativa, quase automática, sem convicção)
- Eu preciso ir. Sério. (pega a mochila, os dedos já tremendo um pouco)
- No meio da discussão que você começou?
- Você quer dizer mais alguma coisa que não foi dita até agora?
- Não, eu não me preparei para uma conversa dessa.
- Justo. Não tem mesmo como sair limpo dessa. Eu te adoro, você é meu melhor amigo. Mas eu realmente preciso disso.
- E como a gente fica? Suas coisas? Você mora comigo!
- Isso a gente decide durante a semana, não vou dormir em casa hoje. Eu só preciso muito fazer algo por mim.
- Mas desse jeito?
- Sim, eu só quero a minha autonomia de volta. E isso não inclui esse relacionamento.
Pedro se levanta. Um sino toca na porta do café — não é ele saindo. É o casal do Instagram entrando: sorridentes, já procurando a mesa com os olhos. Dan os avista primeiro e acena, um reflexo, um sorriso automático que treme antes de se firmar no rosto. Ele já sabia. Estava tudo marcado antes mesmo dessa conversa começar. Pedro observa a cena — o casal se aproximando, Dan se recompondo para recebê-los como se nada tivesse acontecido — e por um instante os dois mundos coexistem: o que acabou de morrer na mesa e o que já estava, o tempo todo, programado para continuar sem ele.
Pedro coloca a mochila nas costas. Passa pelo casal sem dizer nada. A porta bate atrás dele, o sino ainda balançando.
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