quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Pode beijar o noivo.

Sabe, essa ansiedade em torno de casamento e família eu não tenho. Quanto mais expectativa se coloca nisso, mais se constrói uma idealização irreal e inalcançável. Eu estou aberto à possibilidade, mas não faço disso um objetivo de vida, muito menos uma preocupação.

Meu único objetivo até fevereiro de 2029 é a minha carreira. Porque, mesmo assim, eu ainda terei 38 anos. E, estando no topo da minha trajetória profissional, com o máximo de retorno financeiro que ela pode oferecer, todo o resto pode fluir.

O contrário, não.

Eu tenho muitos amigos — muitos mesmo. Dezenas. Amigos que se formaram ou casaram ainda durante a faculdade. Entraram na lógica da família, do casamento, da casa, dos filhos. E sabe o que aconteceu? A emoção passou. Porque passa. Sempre passa.

Confiar a própria felicidade a paredes ou a outras pessoas não oferece garantia alguma de futuro.

Tenho amigos que viveram em estado permanente de lua de mel por dois anos. Hoje, a maioria ninguém nem sabe se ainda está casada. Não postam fotos juntos, saem sozinhos ou apenas com amigos, tentando resgatar uma juventude que não volta.

No trabalho, passaram a fazer apenas o mínimo necessário: o básico para receber o salário e ir ao supermercado. Hoje vivem uma vida tediosa, repetitiva, onde todos os dias são iguais. Não há nada de extraordinário. São apenas pessoas comuns atravessando a rua.

E voltar a estudar? Muito difícil. Quando você se desliga completamente da carreira, deixa de enxergar os caminhos. Tentar um mestrado, um novo concurso, depois de cinco ou sete anos focado apenas em casa e família, é brutal. Não há competição possível com alguém de 22 anos que acabou de passar quatro anos inteiro dedicado à graduação.

E não me entenda mal. Eu estou prontíssimo para um relacionamento, para construir algo. Quero amar loucamente, cegamente, viver com a pessoa e para a pessoa.

Mas só aceito isso se for para passar férias nas Maldivas, na Europa. Se for para passar férias na Praia Grande, muito obrigado, next. Entende isso? Eu cheguei num nível em que não dá mais pra viver com alguém que ganhe salário mínimo. E não foi por milagre, do meu primeiro estágio pra cá a minha remuneração hoje é trinta e quatro vezes maior. Não adianta, agora o fator grana vai ser sempre um filtro. Imagina ter que assinar um prenup pra saber com quem vai ficar as Tupperwares?

Tenho sonhos altos demais para moldá-los, reduzir-me ou caber na caixinha de alguém medíocre.

E tem algo que todo mundo finge não entender: amor sem dinheiro não sustenta relacionamento nenhum. A conta não fecha.

Até para sentar num lugar simples e oferecer um jantar romântico, você precisa de dinheiro. Imagina dividir a vida com alguém que não consegue sequer oferecer um presente de aniversário ou de casamento. Não é sobre luxo. É sobre autonomia.

Ninguém escolhe nascer pobre. Mas tem gente que as decisões vão condicionando isso, muitas vezes sem consciência plena. Eu não odeio quem é pobre — até porque eu continuo sendo trabalhador. Eu só digo não ao trauma da pobreza. Eu não quero voltar à insegurança e à instabilidade. Eu quero previsibilidade.

Dinheiro não compra felicidade? Talvez não. Mas pobreza também não compra merda nenhuma. Eu sei porque experimentei isso até, pelo menos, os 23 anos.

Felicidade é subjetiva, ok, concordo. E eu me considero feliz agora. Dentro do que cabe na alienação. Viajar, ver minha família, ir à praia, estudar. Tô fazendo o que gosto. Eu estou feliz.

Como já cantou o Ira!: “eu quero sempre mais, eu espero sempre mais”.

E você se confunde ao achar que antes eu estava fodido e hoje eu tô luxando com a Ranger Storm do meu cunhado. Não estejas a rir-se. Acontece que eu só estou “luxando com o dinheiro de outra pessoa” aqui porque as pessoas me levam a sério. Elas se dispõem a me oferecer coisas, confiam em mim. Oportunizam. Onde eu chego, meu cunhado ou minha irmã dizem: “ele é doutor pela USP, hein”, e eu logo corrijo: “calma, eu ainda estou tentando, batalhando”. A família deles é extremamente influente, circula entre a elite. Meu cunhado, inclusive, tem irmãos que ele esconde de tanta vergonha. Mas eu? Onde ele vai, faz questão de que eu vá junto para me apresentar, me prestigiar. Parte da família dele é formada por médicos, brancos, ricos e influentes. Quando a bebida acaba, são eles que se levantam para buscar e me servir. Isso é comum? Um desses caras levantar pra servir uma gay paraense, de cor misturada? Não é vira-latismo não, mas eu sei que eu cortei um dobrado pra ser respeitado onde eu chego.

Eu não criei as regras do jogo. Quando cheguei, o mundo já era assim. Entre passar a vida militando sozinho para mudar tudo ou jogar com o que existe, eu escolhi sobreviver melhor. Farinha pouca, meu pirão primeiro.

O mundo não distribui oportunidades. Ele oferece poucas — e quase ninguém está pronto para agarrá-las. Eu construí as minhas. Ninguém bateu na minha porta oferecendo nada. Eu conquistei tudo na porrada.

Nem toda carreira é bem remunerada. Se eu tivesse escolhido outro caminho, talvez não estivesse aqui. Hoje, eu estou entre uma minoria muito bem remunerada. Não por genialidade. Mas porque aceitei me foder mais do que a maioria aceita. A maioria só baixa os braços. Aquele sentimento silencioso de contentamento onde todo mundo encontra conforto no final do dia.

Então se aparecer alguém compatível com os meus planos de vida, eu entro de cabeça. Se não aparecer, não muda absolutamente nada. Porque isso nunca foi o objetivo da minha vida.

Eu me vejo assim: um parceiro do meu lado, um bom apartamento, carros próprios, passaporte em dia, férias fora do país sempre que der vontade.

Passar vontade, nunca mais.

Não quero nada de ninguém. Quero poder bancar os meus sonhos. Isso me dá satisfação plena.

E de qualquer forma, você sabe também: eu me acovardei.

E digo isso não para provar nada a mim, a você ou ao leitor que nos imagina aqui sentados numa mesa, com o dedo na cara um do outro. Eu também fugi dos meus maiores sonhos. Fiquei só com aqueles mais tangíveis. 

Eu queria estar nos palcos — não os da vida, os artísticos mesmo. Talvez eu fosse mais bem remunerado e satisfeito? Ou mal remunerado, como é a realidade da grande maioria, mas feliz? Ou fodido e infeliz? Teria eu trocado um sofrimento por outro? Poderia eu ter gasto menos energia que teria sobrado tempo para viver de companhia, sentar frente ao juiz naquelas cadeiras brancas alugadas de plástico com capas já encardidas, um bolo falso de isopor para o amigo fotógrafo capturar o "sim"?

Porque, de qualquer forma, eu poderia estar me matando na arte, mas me mato — e morto fico — na ciência.

Isso aqui tudo é só uma ilusão de conforto? Não sei.

A Taís me disse — e eu acredito — que eu não escolhi o que queria; escolhi o que podia ser feito. E, portanto, seria inútil fazer o exercício sórdido do “eu teria sido mais feliz se tivesse seguido outro caminho?”.

Caralho, como isso é possível? Como algo totalmente fantasioso, que não podemos mais alcançar, consegue nos afetar tanto?

Seria tudo o que eu te disse uma autopromoção para convencer unicamente a mim mesmo de que o dinheiro, sozinho, me salvou de dores maiores? Acho que todo mundo queria saber o que eu teria feito se não tivesse conseguido. And I guess we’ll never know.

Vai dormir. Amanhã você trabalha.

Eu vou curtir meu último dia de férias no Nordeste estudando. Eu poderia escolher ir a praia ou ficar o dia inteiro conversando frivolidades com a minha família. Aliás, eu poderia? Dia 10 é o último dia pra entregar o trabalho final do Wanderley. Viu como eu não sou um metidinho de merda? Eu tô fazendo meu corre também. Igual você.


Dorme bem. Sonha grande.


E se começar a sonhar com o caixa do supermercado… acorda para sua vida.

Beijão, querido. Fica com Deus — já que você não pode ficar comigo.

Brincadeira. Pelo amor do Criador.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

É, dona Teté.

Feliz ano novo, dona Teté!

Não é o novo ano ideal, mas, mesmo assim, fico feliz de saber que você está estável, bem, saudável, progredindo.


Sempre torci por ti, e te ver indo tão longe me dá a sensação de que isso tudo está certo.


Tive medo, no passado, de que tu não aproveitasses o teu potencial, a tua inteligência. Mas esse medo revelava mais sobre mim do que sobre ti, que só estavas ficando cada dia mais forte para alcançar o potencial que estavas destinada a conquistar.


Não consigo dizer se esse sentimento já te assombrou ou ainda assombra, mas, sempre que estou perto das nossas mães e tias, me vem uma vontade quase física de fugir.


Fico tentando entender se, lá no fundo, é o desejo de nunca mais encarar essa decadência toda ou se é a tentativa inútil de voltar para aquele tempo de vinte anos atrás.


Talvez eu seja apenas ingênuo — ou tolo — por ainda esperar que elas fiquem bem e em paz.


Me entristece olhar para trás e perceber que a família foi diminuindo e que as pessoas estão ficando sozinhas, sem qualquer sensação de completude. Seria isso já uma espiadinha do nosso próprio futuro?


Eu, que passei de um bosta para o “inteligente da família” só na época da faculdade, te pergunto: elas sempre foram assim? Agiram a vida inteira como pombagira sem plano de voo? Ou morreram internamente de frustração e se afogaram nos próprios sonhos? Quando a gente chegar aos 60, também seremos pessoas amargas, frias, insensíveis, que, em algum momento oportuno, fingem humanidade com quem veio depois na família? Tu consegues entender que merda passa na cabeça dessas mulheres? Porque, puta que pariu, isso me frustra e me entristece. E agora eu me pergunto: por quê?


Tu ainda tens vontade de despirocar como elas e descobrir que droga o mundo tem a oferecer? Eu tenho. Ou eu sou só um ressentido de merda, feito à imagem e semelhança da minha própria mãe? Por Deus, que não seja isso. Ainda não, por favor. Eu só tenho trinta e quatro anos, não é possível. Entende isso? A mesma idade que a minha mãe tinha quando me gestou. Isso é mera neurose ou é fato o que dizem: a maçã nunca cai longe do pé?


Também não entendo por que isso me atravessa de forma tão íntima e com tanta intensidade. Afinal, ninguém liga e ninguém se importa. Só para citar exemplos concretos: agora o Bruno está em Portugal, o Levi em Tucuruí, a Rafa segue em São Luís, porque sempre esteve, eu na puta que pariu, e tu voltando para o Rio — de onde vais retornar me chamando “te falar nem”, já com sotaque carioca.


E agora eu estou aqui, sentado, te escrevendo, e está tocando reggae. E não é possível que exista algo que descreva melhor essa situação do que eu estar na terra do reggae, no dia do ano de que eu mais gosto, e nunca ter conseguido vir aqui e conciliar a visita com uma ida a um reggae. Por que eu nunca fui a um reggae aqui, cara? Já é a quarta vez, e eu continuo sem sair porque acho que estaria bancando o folgado que só veio fazer papel de hóspede e turista. Viu? Eu sou tão moralista quanto elas. Não faço o que quero para querer o que o outro talvez vá querer de mim.


Não quero te deixar mal com tudo isso. É só um desabafo, porque sei que, em alguma medida, tu me entendes.


Dá um aperto constatar tudo isso. Um desalento silencioso.


A tia Osana, por exemplo, toda vez que eu tenho tossido, se afasta, como se eu tivesse algo contagioso e fosse passar para ela. E ela mesma esteve tossindo até pouquíssimos dias atrás, e ninguém a tratou como se fosse uma leprosa. E ela sabe que essa porra é alergia, porque a genética da família é excepcionalmente uma droga. Nunca vi uma família completar o bingo genético assim: câncer, depressão ou porra de alergia.


Tu podes até pensar: “deixa essa velha louca para lá”. Mas esse gesto pequeno, automático, de egoísmo e autopreservação dela me toca num lugar muito frágil. No fundo, todas elas sempre pensaram — e ainda pensam — apenas em si. E a gente foi ficando de escanteio, se virando como dava. E a margem de escolha sempre foi mínima.


Há egoísmo demais, grosseria demais, uma necessidade constante de estarem certas e se sentirem superiores. E, ainda assim, não conseguem perceber que nunca chegaram perto de sentir qualquer prazer real com isso. Só produzem dor — para elas mesmas e para todos nós. Isso tudo pra continuar errado.


Enfim, é triste constatar tudo isso. Ainda assim, é bom te ter depois de tantos anos de distância. Pena que de longe. Mas, de algum modo, perto.


Imagino que tu estejas dormindo. Eu deveria estar também, porque seria mais bonito acordar no horário que te prometi para irmos à praia. Embora eu já não queira mais, porque tudo se misturaria: a contemplação da natureza com a natureza da minha própria miséria. E lá se iriam algumas centenas de reais para repetir uma das coisas que a família melhor me ensinou a fazer: fazer sala.


E, até as dez horas, eu teria pouco mais de seis horas de sono.


Então, te amo.

Beijos.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Ergam as taças!

Pra você que tentou, de diversas formas, me prejudicar este ano: eu te desejo este drink.

Eu sei que você gostaria de ser este drink, pra eu te segurar, poder te beber, me encher de você e você ser a razão do meu desejo. Infelizmente, você só tem talento pra me saturar de tédio e pra você vai sobrar somente o desejo de ser.

Eu sei que deu trabalho e você não deseja ser esquecido; por isso, eu não vou ser cínico de dizer que esqueci todo o mal que você tentou me fazer. Porém, de todo o seu desejo, dentro de mim sobrou apenas a ironia de perceber como alguém pode ter tanta fixação e se esforçar tanto para gastar energia com algo que não retorna positivamente para si. Do ponto de vista prático, você não ganhou nada e ainda perdeu o bem mais valioso da sua vida: o seu tempo.

Por isso eu decidi tirar um momento pra celebrar você, pra te dar a atenção que você tanto precisava: um brinde ao seu esforço, à sua audácia, à sua coragem. Brindo também à sua ingenuidade e pequenez. Traguei o seu desejo recalcado — e segui.

É realmente uma pena que você desperdice tantos dos seus recursos para ganhar a minha atenção, de qualquer forma você jamais conseguiria estar aqui comigo, tomando este drink. Porque o gosto não te geraria prazer: tem sabor de desejo frustrado.

Porque você foca em mim, e não no seu crescimento pessoal. Eu sou o começo e o seu fim. Você gostaria de ser eu e, justamente por se dividir para gastar essa energia excessiva e desproporcional, você não consegue chegar a ser eu, nem você mesmo.

E, dessa forma, você jamais prosperará para chegar perto de mim ou dos lugares onde eu conquistei entrada. Mas o espetáculo foi divertido.

Saúde! 🥂

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Quando a porta se fechou

Depois de todos esses anos, aparecer para dizer que ainda me ama? Às vezes, nem é amor; é remorso. Porque você sabe que errou com uma pessoa boa, que te amava, cuidava, se dedicava, e você descartou para atender somente aos seus desejos sexuais. E, de qualquer ponto de vista, foi egoísmo seu no passado e é agora também.

E você nitidamente não evoluiu, só está mais velho; não tem mais a mesma juventude e o rostinho de bebê para ganhar atenção. Você nunca seria capaz de perceber o dano que tudo aquilo me causou naquela época. Você apenas rodou o mundo, não ganhou nada melhor e percebeu que desperdiçou o seu tempo.

Eu lembro, sim, daquela última noite lá na mesa de casa, mas lembro principalmente do meu sentimento. E não se equivoque: eu lembro para não voltar a fazer o mesmo, para não permitir que alguém use o melhor que eu tenho contra mim. Eu me perguntava se teria sido diferente se você tivesse ficado, e parei de me perguntar quando comecei a me cuidar.

É apenas memória, não é amor; isso você levou junto quando saiu por aquela porta.

Mas eu te desejo todo o amor que houver nesta vida e volte para a sua caminhada, porque eu não tenho nada para te dar.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Tá custando 27 reais a entrada para o cemitério das velhas emoções

Não sei exatamente se faria jus dizer que custa 27 reais a entrada — ou a revisita — ao cemitério das velhas emoções. Mas começo dessa forma para avisar ao leitor que, desta vez, a metáfora está escrachada e talvez tão literal que perca a real intenção de ser eufêmica novamente ao retratar o velho e fiel companheiro: o estresse pós-traumático. Viu? Não consigo segurar o primeiro parágrafo sem me decidir se embelezo ou vou direto ao problema.

Por fim, tomado pelo cansaço do avançar da hora e da natureza intrinsecamente esgotante do problema — o TEPT, que deveria estar subentendido —, agora opto por não seguir estilo nenhum. Afinal, quem quer estar cagando regra na madrugada da sexta para o sábado, isolado, explicando o custo biológico, psíquico e monetário de invadir o próprio sofrimento e expô-lo como se alguém fosse descobrir agora mesmo que sou culpado de gastar 27 reais para tornar material o meu pesar.

Sinto que quase chorei, mas não me daria esse luxo em público. Já foi luxo demais gastar 27 reais num pedaço de cheesecake na tentativa de visualizar o que tinha se dado como resolvido e que apenas um período de sofrimento trouxe tudo à tona novamente. Com uma força tão ordinária que não parece justificar ter alimentado meu cérebro com tanta glicose apenas para recalcar velhas emoções.

Repare bem, leitor, que prometo e falho em ser literal ou metafórico. Esse jogo de ir e vir que todos nós fazemos, mesmo quando damos muita importância à consciência. O orgulho de Lacan.

Faço um novo teste na intenção de, por fim, tentar exorcizar essas emoções.

Após anos de insegurança alimentar, já estabilizado financeiramente, criei o hábito inconsciente de vagar pelas ruas da minha cidade à procura de uma cafeteria que justificasse a fuga e, ao mesmo tempo, confirmasse que, ao sentar, pedir e degustar, eu já não estava mais naquela época de incerteza. Que aqueles contextos de tormento tinham ficado para trás.

E, mesmo tendo se passado mais de um mês desde o fim dos sete meses em que experimentei novamente toda a angústia de adiar o conforto do paladar para realizar velhos sonhos — agora ressuscitados —, ainda me sinto indigno do cuidado, do amor, do afeto e de aceitar que estou de volta à segurança, e que tudo aquilo foi apenas parte do desafio do projeto. Hesito em me realizar.

Talvez por isso eu tenha perambulado novamente pelos mesmos corredores de antes para encontrar a mesma cafeteria genérica, onde eu poderia sacar o mantra de que acabou — e, ao mesmo tempo, voltou. Tento, a cada garfada, dizer que isto está certo; que o velho hábito de comer uma sobremesa superfaturada e superestimada fosse me dar a tão importante confirmação de que voltei. Eu tô aqui, o cheesecake estava lá, e tudo voltou a ser o que era antes. Quase arranco um tufo de cabelo para me certificar de que era real. Talvez essa dor específica me trouxesse ao fato de que eu a provoco e, assim, tenho o controle, não sendo mais imputado às intempéries das noites frias de desconhecimento.

Eu como, alimento e conforto. Os velhos verbos imperativos que traduzem voltar a esse cemitério. A busca vazia da seduzente alienação. Como se revisitar um lugar de pedra, mármore e gente morta pudesse trazer a segurança daquele tempo — ou qualquer outra coisa que se busque como consolo num espaço onde se guardam memórias por consideração, cuidado e inevitável finitude.

E, afinal, o cheesecake condensa classe, trauma, desejo e culpa. Não é prazer pleno, é teste. É o mero objeto de verificação do material. Ele não simboliza vitória, simboliza prova — e isso é o que dói.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Maldita seja

Não tomo água da torneira. Detesto. Não tomo. Acho anti-higiênico, acho o gosto ruim, um horror, não tomo. Pode argumentar que a água vem tratada, que é de poço, que é própria pra consumo, não tomo. Poderia ser das torneiras do Canadá, não tomaria. Acho que muito disso tem a ver com o fato de eu ter feito trabalho de campo em área rural por muitos anos, onde faltava infraestrutura e saneamento básico, mas sobrava generosidade dos agricultores, que sempre me enchiam a garrafa para que não desfalecesse num calor detestável do verão amazônico. Detestável igual à água de torneira. Mas o café era bom. Ah... o café era sempre saboroso e acalmava um pouco da fome que vinha cobrar o preço da caminhada a cada par de horas.

Gosto de água tratada. Sabidamente tratada. Isso se dá pelo fato de que fui criado por dona Sônia, que é paranóica com saúde e higiene, e vice-versa. Paranóica de dar nos nervos. Quando criança, me incomodava muito ter que ficar lavando as mãos e tomando água onde chegasse. Me obrigava sempre que chegávamos a qualquer ambiente: "lava as mãos e toma água. E pega pra mim." Não entendia a lógica ritualística, mas hoje sei que a pobre só estava preocupada em me manter hidratado no calor de Belém e com as mãos limpas para não levar germes à boca. Deus sabe que crianças levam as mãos à boca toda hora, sem sequer calcular o ato. E para minha mãe, que tinha abundância de cuidado e escassez de grana, era uma forma de me deixar saudável, ou pelo menos evitar alguma doença onerosa e desnecessária. Hoje fico imaginando sua aflição, cuidando de dois, sem recursos e paranóica.

Mantive o hábito saudável. Onde chego, tomo água e lavo as mãos, às vezes lavo várias vezes sem sequer trocar de ambiente. Não me incomoda mais — gosto. Talvez por isso um dos imperativos para morarmos juntos foi ter trazido meu garrafão apertado entre tuas pernas no carro e a recomendação para que não me permitisse cair. E esta bomba, hein? Uma de nossas primeiras aquisições de nossa junção em tua casa. Achei que essa bomba não iria durar, sabia? Das outras vezes que comprei, essa bomba de sucção não durou nada. E descarregava muito rápido, me provocava ódio. Quando menos se espera, espera-se tirar água do garrafão — após lavar as mãos — e a inútil, novamente descarregada. Outro dia, em Santo Amaro, no meio das compras das bugigangas, fixei outros modelos de bombas de sucção para garrafão de água. Me fascinei pela aparência e pela usabilidade delas. Cismei que era necessário ter mais de uma para quando a outra descarregasse.

Não deu tempo. A nossa bomba só descarregou uma vez, e ela estendeu-se mais do que a nossa convivência. Que explodiu, e tem explodido sempre. E eu explodi por tu beberes água da torneira, e tu explodiste porque, pra ti, é frescura tomar água mineral. E nós explodimos por tantos outros motivos. Implodimos. E não foi possível higienizar a relação, não foi possível tratá-la. Jogamos no ralo todo o resto do que poderia ter sido cuidado, para não nos adoecer. Definitivamente, não deu tempo sequer de a bomba pifar e ser necessário comprar outra. Malditas sejam todas as bombas de água.

Sabia?

Sabe que eu tento me comunicar de maneira submissa e superprotetora com você? E que eu calculo todas as minhas palavras e tomo cuidado pra ser gentil e doce para não correr o risco de vc interpretar errado e ficar frustrado? Eu sinto muita culpa e preciso sempre tá me policiando, vigiando e exigindo pra te proteger de frustração. Assim eu evito receber críticas e punições que as vezes me levam acreditar que eu sou merecedor. Eu me sinto ansioso e sobrecarregado no meu dia a dia. 

Sabe a última vez que eu me senti dessa forma hipervigilante enquanto eu convivia e me comunicava com alguém? Com o meu pai.