quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

É, dona Teté.

Feliz ano novo, dona Teté!

Não é o novo ano ideal, mas, mesmo assim, fico feliz de saber que você está estável, bem, saudável, progredindo.


Sempre torci por ti, e te ver indo tão longe me dá a sensação de que isso tudo está certo.


Tive medo, no passado, de que tu não aproveitasses o teu potencial, a tua inteligência. Mas esse medo revelava mais sobre mim do que sobre ti, que só estavas ficando cada dia mais forte para alcançar o potencial que estavas destinada a conquistar.


Não consigo dizer se esse sentimento já te assombrou ou ainda assombra, mas, sempre que estou perto das nossas mães e tias, me vem uma vontade quase física de fugir.


Fico tentando entender se, lá no fundo, é o desejo de nunca mais encarar essa decadência toda ou se é a tentativa inútil de voltar para aquele tempo de vinte anos atrás.


Talvez eu seja apenas ingênuo — ou tolo — por ainda esperar que elas fiquem bem e em paz.


Me entristece olhar para trás e perceber que a família foi diminuindo e que as pessoas estão ficando sozinhas, sem qualquer sensação de completude. Seria isso já uma espiadinha do nosso próprio futuro?


Eu, que passei de um bosta para o “inteligente da família” só na época da faculdade, te pergunto: elas sempre foram assim? Agiram a vida inteira como pombagira sem plano de voo? Ou morreram internamente de frustração e se afogaram nos próprios sonhos? Quando a gente chegar aos 60, também seremos pessoas amargas, frias, insensíveis, que, em algum momento oportuno, fingem humanidade com quem veio depois na família? Tu consegues entender que merda passa na cabeça dessas mulheres? Porque, puta que pariu, isso me frustra e me entristece. E agora eu me pergunto: por quê?


Tu ainda tens vontade de despirocar como elas e descobrir que droga o mundo tem a oferecer? Eu tenho. Ou eu sou só um ressentido de merda, feito à imagem e semelhança da minha própria mãe? Por Deus, que não seja isso. Ainda não, por favor. Eu só tenho trinta e quatro anos, não é possível. Entende isso? A mesma idade que a minha mãe tinha quando me gestou. Isso é mera neurose ou é fato o que dizem: a maçã nunca cai longe do pé?


Também não entendo por que isso me atravessa de forma tão íntima e com tanta intensidade. Afinal, ninguém liga e ninguém se importa. Só para citar exemplos concretos: agora o Bruno está em Portugal, o Levi em Tucuruí, a Rafa segue em São Luís, porque sempre esteve, eu na puta que pariu, e tu voltando para o Rio — de onde vais retornar me chamando “te falar nem”, já com sotaque carioca.


E agora eu estou aqui, sentado, te escrevendo, e está tocando reggae. E não é possível que exista algo que descreva melhor essa situação do que eu estar na terra do reggae, no dia do ano de que eu mais gosto, e nunca ter conseguido vir aqui e conciliar a visita com uma ida a um reggae. Por que eu nunca fui a um reggae aqui, cara? Já é a quarta vez, e eu continuo sem sair porque acho que estaria bancando o folgado que só veio fazer papel de hóspede e turista. Viu? Eu sou tão moralista quanto elas. Não faço o que quero para querer o que o outro talvez vá querer de mim.


Não quero te deixar mal com tudo isso. É só um desabafo, porque sei que, em alguma medida, tu me entendes.


Dá um aperto constatar tudo isso. Um desalento silencioso.


A tia Osana, por exemplo, toda vez que eu tenho tossido, se afasta, como se eu tivesse algo contagioso e fosse passar para ela. E ela mesma esteve tossindo até pouquíssimos dias atrás, e ninguém a tratou como se fosse uma leprosa. E ela sabe que essa porra é alergia, porque a genética da família é excepcionalmente uma droga. Nunca vi uma família completar o bingo genético assim: câncer, depressão ou porra de alergia.


Tu podes até pensar: “deixa essa velha louca para lá”. Mas esse gesto pequeno, automático, de egoísmo e autopreservação dela me toca num lugar muito frágil. No fundo, todas elas sempre pensaram — e ainda pensam — apenas em si. E a gente foi ficando de escanteio, se virando como dava. E a margem de escolha sempre foi mínima.


Há egoísmo demais, grosseria demais, uma necessidade constante de estarem certas e se sentirem superiores. E, ainda assim, não conseguem perceber que nunca chegaram perto de sentir qualquer prazer real com isso. Só produzem dor — para elas mesmas e para todos nós. Isso tudo pra continuar errado.


Enfim, é triste constatar tudo isso. Ainda assim, é bom te ter depois de tantos anos de distância. Pena que de longe. Mas, de algum modo, perto.


Imagino que tu estejas dormindo. Eu deveria estar também, porque seria mais bonito acordar no horário que te prometi para irmos à praia. Embora eu já não queira mais, porque tudo se misturaria: a contemplação da natureza com a natureza da minha própria miséria. E lá se iriam algumas centenas de reais para repetir uma das coisas que a família melhor me ensinou a fazer: fazer sala.


E, até as dez horas, eu teria pouco mais de seis horas de sono.


Então, te amo.

Beijos.

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