Sabe, essa ansiedade em torno de casamento e família eu não tenho. Quanto mais expectativa se coloca nisso, mais se constrói uma idealização irreal e inalcançável. Eu estou aberto à possibilidade, mas não faço disso um objetivo de vida, muito menos uma preocupação.
Meu único objetivo até fevereiro de 2029 é a minha carreira. Porque, mesmo assim, eu ainda terei 38 anos. E, estando no topo da minha trajetória profissional, com o máximo de retorno financeiro que ela pode oferecer, todo o resto pode fluir.
O contrário, não.
Eu tenho muitos amigos — muitos mesmo. Dezenas. Amigos que se formaram ou casaram ainda durante a faculdade. Entraram na lógica da família, do casamento, da casa, dos filhos. E sabe o que aconteceu? A emoção passou. Porque passa. Sempre passa.
Confiar a própria felicidade a paredes ou a outras pessoas não oferece garantia alguma de futuro.
Tenho amigos que viveram em estado permanente de lua de mel por dois anos. Hoje, a maioria ninguém nem sabe se ainda está casada. Não postam fotos juntos, saem sozinhos ou apenas com amigos, tentando resgatar uma juventude que não volta.
No trabalho, passaram a fazer apenas o mínimo necessário: o básico para receber o salário e ir ao supermercado. Hoje vivem uma vida tediosa, repetitiva, onde todos os dias são iguais. Não há nada de extraordinário. São apenas pessoas comuns atravessando a rua.
E voltar a estudar? Muito difícil. Quando você se desliga completamente da carreira, deixa de enxergar os caminhos. Tentar um mestrado, um novo concurso, depois de cinco ou sete anos focado apenas em casa e família, é brutal. Não há competição possível com alguém de 22 anos que acabou de passar quatro anos inteiro dedicado à graduação.
E não me entenda mal. Eu estou prontíssimo para um relacionamento, para construir algo. Quero amar loucamente, cegamente, viver com a pessoa e para a pessoa.
Mas só aceito isso se for para passar férias nas Maldivas, na Europa. Se for para passar férias na Praia Grande, muito obrigado, next. Entende isso? Eu cheguei num nível em que não dá mais pra viver com alguém que ganhe salário mínimo. E não foi por milagre, do meu primeiro estágio pra cá a minha remuneração hoje é trinta e quatro vezes maior. Não adianta, agora o fator grana vai ser sempre um filtro. Imagina ter que assinar um prenup pra saber com quem vai ficar as Tupperwares?
Tenho sonhos altos demais para moldá-los, reduzir-me ou caber na caixinha de alguém medíocre.
E tem algo que todo mundo finge não entender: amor sem dinheiro não sustenta relacionamento nenhum. A conta não fecha.
Até para sentar num lugar simples e oferecer um jantar romântico, você precisa de dinheiro. Imagina dividir a vida com alguém que não consegue sequer oferecer um presente de aniversário ou de casamento. Não é sobre luxo. É sobre autonomia.
Ninguém escolhe nascer pobre. Mas tem gente que as decisões vão condicionando isso, muitas vezes sem consciência plena. Eu não odeio quem é pobre — até porque eu continuo sendo trabalhador. Eu só digo não ao trauma da pobreza. Eu não quero voltar à insegurança e à instabilidade. Eu quero previsibilidade.
Dinheiro não compra felicidade? Talvez não. Mas pobreza também não compra merda nenhuma. Eu sei porque experimentei isso até, pelo menos, os 23 anos.
Felicidade é subjetiva, ok, concordo. E eu me considero feliz agora. Dentro do que cabe na alienação. Viajar, ver minha família, ir à praia, estudar. Tô fazendo o que gosto. Eu estou feliz.
Como já cantou o Ira!: “eu quero sempre mais, eu espero sempre mais”.
E você se confunde ao achar que antes eu estava fodido e hoje eu tô luxando com a Ranger Storm do meu cunhado. Não estejas a rir-se. Acontece que eu só estou “luxando com o dinheiro de outra pessoa” aqui porque as pessoas me levam a sério. Elas se dispõem a me oferecer coisas, confiam em mim. Oportunizam. Onde eu chego, meu cunhado ou minha irmã dizem: “ele é doutor pela USP, hein”, e eu logo corrijo: “calma, eu ainda estou tentando, batalhando”. A família deles é extremamente influente, circula entre a elite. Meu cunhado, inclusive, tem irmãos que ele esconde de tanta vergonha. Mas eu? Onde ele vai, faz questão de que eu vá junto para me apresentar, me prestigiar. Parte da família dele é formada por médicos, brancos, ricos e influentes. Quando a bebida acaba, são eles que se levantam para buscar e me servir. Isso é comum? Um desses caras levantar pra servir uma gay paraense, de cor misturada? Não é vira-latismo não, mas eu sei que eu cortei um dobrado pra ser respeitado onde eu chego.
Eu não criei as regras do jogo. Quando cheguei, o mundo já era assim. Entre passar a vida militando sozinho para mudar tudo ou jogar com o que existe, eu escolhi sobreviver melhor. Farinha pouca, meu pirão primeiro.
O mundo não distribui oportunidades. Ele oferece poucas — e quase ninguém está pronto para agarrá-las. Eu construí as minhas. Ninguém bateu na minha porta oferecendo nada. Eu conquistei tudo na porrada.
Nem toda carreira é bem remunerada. Se eu tivesse escolhido outro caminho, talvez não estivesse aqui. Hoje, eu estou entre uma minoria muito bem remunerada. Não por genialidade. Mas porque aceitei me foder mais do que a maioria aceita. A maioria só baixa os braços. Aquele sentimento silencioso de contentamento onde todo mundo encontra conforto no final do dia.
Então se aparecer alguém compatível com os meus planos de vida, eu entro de cabeça. Se não aparecer, não muda absolutamente nada. Porque isso nunca foi o objetivo da minha vida.
Eu me vejo assim: um parceiro do meu lado, um bom apartamento, carros próprios, passaporte em dia, férias fora do país sempre que der vontade.
Passar vontade, nunca mais.
Não quero nada de ninguém. Quero poder bancar os meus sonhos. Isso me dá satisfação plena.
E de qualquer forma, você sabe também: eu me acovardei.
E digo isso não para provar nada a mim, a você ou ao leitor que nos imagina aqui sentados numa mesa, com o dedo na cara um do outro. Eu também fugi dos meus maiores sonhos. Fiquei só com aqueles mais tangíveis.
Eu queria estar nos palcos — não os da vida, os artísticos mesmo. Talvez eu fosse mais bem remunerado e satisfeito? Ou mal remunerado, como é a realidade da grande maioria, mas feliz? Ou fodido e infeliz? Teria eu trocado um sofrimento por outro? Poderia eu ter gasto menos energia que teria sobrado tempo para viver de companhia, sentar frente ao juiz naquelas cadeiras brancas alugadas de plástico com capas já encardidas, um bolo falso de isopor para o amigo fotógrafo capturar o "sim"?
Porque, de qualquer forma, eu poderia estar me matando na arte, mas me mato — e morto fico — na ciência.
Isso aqui tudo é só uma ilusão de conforto? Não sei.
A Taís me disse — e eu acredito — que eu não escolhi o que queria; escolhi o que podia ser feito. E, portanto, seria inútil fazer o exercício sórdido do “eu teria sido mais feliz se tivesse seguido outro caminho?”.
Caralho, como isso é possível? Como algo totalmente fantasioso, que não podemos mais alcançar, consegue nos afetar tanto?
Seria tudo o que eu te disse uma autopromoção para convencer unicamente a mim mesmo de que o dinheiro, sozinho, me salvou de dores maiores? Acho que todo mundo queria saber o que eu teria feito se não tivesse conseguido. And I guess we’ll never know.
Vai dormir. Amanhã você trabalha.
Eu vou curtir meu último dia de férias no Nordeste estudando. Eu poderia escolher ir a praia ou ficar o dia inteiro conversando frivolidades com a minha família. Aliás, eu poderia? Dia 10 é o último dia pra entregar o trabalho final do Wanderley. Viu como eu não sou um metidinho de merda? Eu tô fazendo meu corre também. Igual você.
Dorme bem. Sonha grande.
E se começar a sonhar com o caixa do supermercado… acorda para sua vida.
Beijão, querido. Fica com Deus — já que você não pode ficar comigo.
Brincadeira. Pelo amor do Criador.