Lembrei do Ygor, um rapaz com quem eu fiquei por um tempo em 2011. Me apaixonei profundamente por ele, mas ele tinha namorado e só ficava comigo porque o relacionamento dele era uma bosta. Viviam brigando, não lembro perfeitamente, mas acho que era aquele tipo de relacionamento em que um fica frescando com o outro pra disputar quem tem mais autoridade. E eu, muito sem-vergonha, ficando com homem “casado”, com certeza tinha algum prazer em ser ludibriado. Queria, mesmo que inconscientemente, achar que ele era infeliz naquele relacionamento e que eu era a parte boa do dia dele.
E eu me enganei pela minha imaturidade. Eu jamais teria chance. Mas foi muito marcante.
Durante anos eu achei que um dia ele me adicionaria em alguma rede social e me falaria que aquele momento foi, de alguma forma, especial pra ele também. Nunca foi. Ele só estava se divertindo, escapando do tédio e de ter que terminar um namoro que já tinha se entranhado em todas as relações da vida dele. Filho de militar, acho que viver escondido já era padrão. Enganar os outros para fazer o que queria, numa vida dupla, tinha sido regra desde sempre.
Uma vez eu vi ele no Tinder, uns anos atrás. Não dei match, fiquei com medo de ele ter apertado o verde também. Ou, pior ainda, não ter dado. Ignorei. E, depois desse tempo todo, faria diferença? Acho que eu amei ele. Quando eu não aguentava mais de paixão e estava inflamado, disse isso pra ele. Sentado num toco, no estacionamento da UFAM, eu liguei pra ele, que ficou em silêncio quando eu terminei de falar. Ficou surpreso. Tamanho o desinteresse dele, que nunca tinha cogitado que a minha atenção partia de algo verdadeiro e bonito. Não tinha a intenção de ver nada, aliás. Eu é que via onde não tinha.
Quando conseguiu dizer algo, só disse que precisava pensar se o relacionamento dele ainda valia a pena, o que era melhor pra ele… inventou uma desculpa pra desconversar e não dar corda para o que eu estava falando. Eu não entendi na hora, só não quis insistir e ser chato. Fiquei com o sentimento de que tinha feito a minha parte, mas esperava que viesse a dele.
Ele disse que ia me procurar. Depois dessa ligação, ele nunca mais ligou, nunca mais procurou. E acabou da mesma forma que nem chegou oficialmente a começar: o dito pelo não dito. E eu gostava das vezes que a gente transava dentro do carro dele. Eu me sentia especial, me sentia visto. A gente passava horas conversando. E, quando dormíamos juntos, era bonito. Era como se eu tivesse um parceiro. Ele tinha ido me pegar no trabalho logo após eu chegar de uma viagem. Ele tinha esperado todos aqueles dias longe. O que teria significado esperar ele na biblioteca enquanto ele fazia prova? Aquela prova era o que adiava por algumas horas a vontade louca de tirar a roupa e transar como animais. Daquela noite só ficou o parágrafo que, anos depois, eu escolhi como epígrafe da minha tese de doutorado.
Não sei dizer se ele foi antes ou depois do Raphael. Um zé-bostinha que vivia drogado de remédio, não sabia transar. Me atraía o corpo, mas passávamos horas calados um do lado do outro. A gente não tinha assunto na maioria das vezes; não sei por que suportávamos o silêncio até o tédio e a tensão nos levarem a um sexo meia-boca. A melhor amiga dele, na época — que, por coincidência, era minha colega de trabalho — ajudou a acabar com tudo, que nem chegou a existir como contrato. Era só porque eu morava no mesmo condomínio que ele e era fácil encontrar ele.
Mas tinha alguma graça. Às vezes conversávamos sobre cinema e livros. Ele sempre era pretensioso e fazia parecer que entendia alguma coisa de arte, das artes. E não entendia. Mas sentia que me corrigia na vida quando dizia “não é Cannes, é Canê”. Era só um boçal bancado pela família. Aliás, nem sei muito sobre ele. Será que ele tinha mãe? Acho que quem bancava a casa eram umas primas que eu raramente via.
Outro dia passei pela fábrica onde ele trabalhava. Só lembrei porque eu tinha trabalhado próximo antes dele. E ele me corrigia toda vez que eu pronunciava errado Whirlpool. Não sei bem o dia que paramos de nos falar, tamanho o desinteresse coletivo. Ele queria ter atenção de gente como o Froner e sua galera descolada e, só porque Manaus é um ovo, o Froner passou a me mandar mensagem e querer ser próximo na época em que eu viralizei com os vídeos do meu grupo, lá por 2014. E o Froner flopou também. Eu mesmo só lembrei dele e desse nome pelo contexto. Ninguém liga mais pra aquela geração de jovens de Manaus. Nós desvoluímos para a irrelevância, com a idade. Ninguém liga pra quem já passou dos 30. E o negócio tem ficado cada vez mais infantil em todos os setores da sociedade.
Uma vez eu vi o Instagram do Raphael. Acho que o sobrenome dele era Lobato, porque o Froner também é Rafael. Parece que o Lobato virou modelo, ou qualquer coisa assim. Aquele tipo de jovem místico que finge desinteresse por tudo e faz o tipo misterioso. A verdade é que ali habita uma puta louca por pica, desesperada por atenção. Tudo estratégia tosca. Se você olhar rapidamente, parece alguém realmente interessante, o tipo aclamado nas redes sociais. Mas, se você olhar uma segunda vez, percebe as brechas ruindo, pedindo atenção.
Enfim. Misturei Ygor com Raphael porque, como expliquei, não lembro quem veio primeiro, mas foi em 2011. Não sei se cheguei a escrever algo completo sobre eles todos esses anos. Raphael tinha um blog também — acho que era no Tumblr — onde escrevia com ar de quem sabia alguma coisa; não passava de pedância. Aliás, o Tumblr, por si só, flopou porque reunia esse lugar de gente que se achava cult.
A melhor amiga dele e ele se afastaram mais ou menos na mesma época. A história repercutiu entre os interessados lá no laboratório. Hesito em mencionar o nome profano dela porque me gera ranço até hoje. Ela era uma safada que atrapalhava a minha vida no trabalho só por diversão. Transava com o nosso orientador e aproveitava que ele era um tarado homofóbico para afastar qualquer possibilidade que eu tivesse de ter meus trabalhos corrigidos com qualidade.
E, no fim, pelo que eu entendi, todo mundo se fudeu de alguma forma. A imbecil não se formou na área, não fez pós-graduação na USP como lhe tinha sido prometido. Só porque o diabo é moleque, apareceu um vídeo dela no meu feed e, as far as I’m concerned, ela ainda faz o papel de adolescente alternativa de trinta e poucos anos, mas faz vídeos de signos ou alguma coisa mística assim. Acho até que ela vive disso. Aquele velho truque que atrai alguns carecas bêbados desiludidos e que não engana uma mulher madura, consistente.
Raphael não ganhou relevância na vida como achou que um dia seria “A Star Is Born”. A referência dele, o Froner, é mais um desacreditado na cidade. Ele tinha até um site sobre notícias pop ou algo do tipo, aquele tipo de atividade que está mais pra um hobby mal remunerado do que uma carreira.
Eu já escrevia há anos antes de conhecer o Raphael. Mas, naquela época, meio que tinha uma competição velada de quem escrevia melhor. Tinha até uns recados escondidos nos textos um do outro. Eu devo ter escrito algo aqui sobre ele no blog, não sei se um texto inteiro ou só recados no meio da loucura. Mas ele também não chegou a lugar nenhum que me provasse esse Olimpo de superioridade onde fingia viver. Eu não sei nem por que eu lembrei dele agora; deve ser por associação das coisas que eu vivi naquele ano. Desconfio porque, em 2011, toda vez que eu achava que algo era pra mim, ou que era meu, se mostrava, na verdade, alguma espécie de tentativa de me agarrar a qualquer coisa que desse a sensação de pertencimento.
O meu ex-orientador pagou um pouco pelos pecados dele porque foi denunciado — finalmente — por ser um tarado no PPG da UFAM e acabou sendo expulso de lá. Voltou à insignificância de onde ele sempre temeu pertencer. Passou a juventude tentando moldar a imagem de gênio tesudinho e acabou preso na armadilha que ele construiu ao redor de si. Ninguém leva a sério, como pesquisador, um velho tarado que não respeita a própria mulher, que, aliás, é a chefa dele. Péssimo dia para os machistas. Acho que ele nunca entendeu que o fato de ter trabalhado com o Aziz Ab’Sáber não o tornava herdeiro de nada. Não é porque a Anitta gravou com a Madonna que ela passa a ter o mesmo legado.
Eu achei que precisava do meu orientador pra chegar a algum lugar porque ele insistia em dizer, de maneira violenta, que todo mundo só chegava ao sucesso por meio dele. Inclusive, quando eu já tinha acessado lugares onde ele esteve, eu continuei achando que, pra me manter lá, precisaria da mentoria dele. E não precisei. Mas é estranho se questionar: “se eu tivesse uma boa relação com ele, isso aqui estaria sendo mais fácil? Mais bem guiado?”. Até aqui, não foi o caso.
Passados todos esses anos, eu já conheci o amor e o cuidado de verdade. Talvez eu olhe pra trás com um pouco de vergonha disso tudo, daquele garoto de 20 anos. Foi tudo muito sórdido e imaturo. Serviu de aprendizado, só pra usar velhos clichês e fazer uma ponte. Ou talvez não tenha ensinado nada mesmo e eu só lembre porque tenho a memória boa. Não é como se fosse tão relevante, como se viesse tudo isso à mente com frequência. É só teste para saber se tenho tendência a Alzheimer. E também não quero parecer que vim escrever só pra dizer que hoje eu sou melhor do que todos os citados aqui. Não faço isso em tom de triunfo, mas de aceitação cansada.
Escrevo, na verdade, pra constatar que a propaganda de que essas pessoas eram melhores e com sucesso garantido não passava disso mesmo: propaganda enganosa — e eu deveria estar escrevendo isso tudo no site do Procon.
Pois é, divaguei. O Ygor nunca voltou. Porque nunca voltaria mesmo. Ilusão nossa achar que a gente precisa de uma última conversa, como se tivesse algo a ser dito que mudaria as intenções da pessoa. Eu entendi, com o tempo, que não precisava dizer pra ele que ter ido embora sem dar satisfação me gerou decepção. Ele sabia disso na época. Ele sempre teve ciência disso. Só optou por seguir. As pessoas sempre sabem, e é exatamente por isso que elas seguem as vidas delas. Porque isso tudo é inevitável. Não é como se tivesse algo a acrescentar; o que não foi dito fica subentendido.
Quando vi ele no Tinder, “catitei” — como dizem os paraenses — a vida dele. Fez doutorado em Geografia, mesmo sendo advogado. Fez numa universidade onde uma amiga minha é docente, no mesmo programa de pós-graduação. E ele virou docente da faculdade que o Vini — a pessoa que melhor me amou — estuda. O Raphael parece que morava em SP. E eu tô voltando a morar em Manaus, onde tudo e nada demais acontece.
Mês que vem eu faço 35 anos e tenho sentido, nos últimos oito anos, que não amo como antes. Que não me emociono mais. Não vejo isso como ter me tornado uma pessoa amarga, frustrada. O amor sempre volta a ser tema aqui; por si só, já mostra que existe em mim e tá sempre pronto pra ser dado. Mas por que eu não amo mais daquela forma pueril? Eu sou outro? Ou o amor todo é outro, que nem tem mais seus vícios de tortura? Talvez, se eu soubesse todas as respostas, não teria mais graça — e esse texto nunca existiria.
E os personagens aqui não são propriamente vilões. O antagonista mesmo é o tempo combinado com a expectativa. A fantasia de que o tempo corrigiria o passado. E não corrige; ele afasta. E os lugares aqui são salões provisórios abrigando visitas provisórias. Ninguém citado aqui importava mais que as expectativas que eu coloquei neles.
Impressionante como algo tão intenso não deixou rastro nenhum fora de mim. O inconformismo não é com as pessoas, é com a assimetria. Nada disso gerou memória compartilhada, estatuto. Não existe recompensa moral por ter sido inteiro. E isso é profundamente inconformante, mesmo quando já aceito intelectualmente. Não houve nem rejeição clara, apenas indiferença. Talvez seja verdade que a indiferença seja mais difícil de metabolizar do que o conflito.
mas uma recusa íntima em aceitar que o silêncio também é uma forma de resposta válida. Essa é a fantasia ética que sustenta o sofrimento.
E a minha forma de amar hoje só funciona encarando a falência das promessas que nos mantêm jovens.
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